Mercado abrirá em 3 h 57 min

Guerra comercial causa prejuízos bilionários para EUA e China, diz Unctad

Assis Moreira

A guerra comercial deixou os preços mais elevados para os consumidores nos EUA, enquanto as perdas para a China se refletem em exportações A guerra comercial entre os EUA e a China tem gerado perdas bilionárias para as duas maiores economias do mundo e desvio de comércio, confirma estudo divulgado nesta terça-feira da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

AP Photo/Charles Dharapak

As perdas dos EUA estão amplamente relacionadas a preços mais elevados para os consumidores, enquanto os prejuízos da China se refletem em perda significativa de exportações.

Conforme a Unctad, a sobretaxa de mais de 25% em importações procedentes da China pelo presidente Donald Trump infligiu uma perda de US$ 35 bilhões nas vendas chinesas para os EUA no primeiro semestre. A queda é de 25% em relação ao mesmo período do ano passado.

Por sua vez, dados americanos indicam que as exportações em geral dos EUA para o mercado chinês caíram US$ 15,1 bilhões, numa contração de 23,5% entre janeiro e junho. A Unctad não examinou o lado das exportações americanas, mas ao menos parte disso é resultado das sobretaxas chinesas em retaliação às medidas americanas.

Para o economista Alessandro Nicita, autor do estudo, no segundo semestre os prejuízos devem ser ainda maiores para as exportações das duas grandes economias, inclusive porque sobretaxas mais elevadas foram impostas.

Para a Unctad, o estudo serve como uma advertência global de que guerra comercial resulta em perdas para os beligerantes, afeta a estabilidade e o crescimento da economia global. Daí a expectativa sobre um acordo, mesmo modesto, entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, para reduzir a escalada de conflito.

Dos US$ 35 bilhões de exportações chinesas perdidas no mercado americano, cerca de US$ 21 bilhões (63%) foram ocupadas com desvio de comércio, ou seja, com importações de países não diretamente envolvidos na guerra comercial. Os outros US$ 14 bilhões foram perdidos por menor demanda dos EUA ou capacidade insuficiente de outros fornecedores.

Taiwan, o maior ganhador

Entre os países mais competitivos que se aproveitaram da alta de tarifas contra a China, o estudo aponta Taiwan como o maior ganhador até agora. Aumentou as vendas em US$ 4,2 bilhões para os EUA no primeiro semestre, ocupando boa parte do espaço deixado pelos chineses nos setores de equipamentos para escritórios e de comunicação.

Também o México aumentou suas exportações para os EUA em US$ 3,5 bilhões, principalmente no agronegócio, equipamentos de transporte e máquinas elétricas. A União Europeia (UE) vem em terceiro lugar, com ganho adicional de US$ 2,7 bilhões. O Vietnã ganha quase tanto quanto os europeus, com US$ 2,6 bilhões a mais de exportações, sobretudo móveis e equipamentos de comunicação.

O desvio de comércio beneficiou também a Coreia do Sul, Canadá e Índia, com ganhos entre US$ 900 milhões e US$ 1,5 bilhão.

Para o autor do estudo, os consumidores americanos sofrem o maior impacto com a alta de tarifas sobre importações procedentes da China, na medida em que os custos adicionais são repassados na forma de preços mais elevados.

No entanto, o estudo também mostra que as firmas chinesas começaram a absorver parte dos custos das tarifas, reduzindo os preços de suas exportações em cerca de 8 pontos percentuais. Destaca também a competitividade de empresas chinesas que, apesar das sobretaxas, mantiveram 75% de suas exportações para os EUA.

Brasil também saiu ganhando

O Brasil ganhou US$ 451 milhões de exportações adicionais para os EUA no primeiro semestre como resultado de sobretaxas de importação impostas por Washington contra produtos chineses, segundo a Unctad, que aponta como exemplos de vendas adicionais brasileiras principalmente US$ 191 milhões na forma de vários tipos de máquinas e US$ 129 milhões em produtos químicos.

Em comparação, o ganho da Argentina é calculado em US$ 75 milhões e o resto da América Latina em US$ 30 milhões. “A América Latina não é competitiva em relação aos chineses em maquinários, com algumas exceções no Brasil”, diz Nicita. “Onde os latinos podem ganhar com essa guerra comercial é na China, com mais exportações agrícolas”.

Dados do Ministério da Economia mostram que as exportações brasileiras para os EUA no primeiro semestre aumentaram US$ 15%, alcançando US$ 14,9 bilhões. As importações originárias dos EUA cresceram 2,4%, somando US$ 13,7 bilhões. Entre janeiro e outubro, as trocas evoluíram e o Brasil registrou déficit comercial de US$ 1,1 bilhão com os EUA.