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Guedes troca postos-chave da Economia sob pressão do Congresso

FÁBIO PUPO E THIAGO RESENDE
·5 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro Paulo Guedes (Economia) decidiu alterar o comando de áreas centrais de sua pasta para melhorar tanto o desempenho de sua equipe como a relação com a classe política após desgastes na formulação do Orçamento.

As movimentações são feitas enquanto líderes partidários elevam a pressão para que o Ministério da Economia seja desmembrado, mas integrantes da pasta negam a relação.

Várias pressões já foram feitas ao longo do tempo para uma divisão do ministério de Guedes, que sempre fez questão de manter o desenho de sua pasta. Interlocutores negam que o ministro tenha mudado de ideia e passado a concordar com um desmembramento.

As mudanças feitas agora incluem a troca do comando da Secretaria Especial de Fazenda, principal braço do Ministério da Economia e com atribuições em grande parte equivalentes ao antigo Ministério da Fazenda. Sai Waldery Rodrigues e entra Bruno Funchal, atual secretário do Tesouro Nacional.

O objetivo da reformulação, segundo pessoas próximas ao ministro, é dar novo fôlego ao funcionamento da pasta. Guedes busca promover uma espécie de rodízio de jogadores após considerar concluída uma partida pesada como a conclusão do Orçamento, que gerou brigas por recursos com o Legislativo e desgastes dentro do próprio Executivo.

De acordo com integrantes do governo, o trabalho executado pelo principal dos oito secretários especiais de Guedes chegou a um ponto de fadiga nas relações dentro e fora do ministério, acima e abaixo na hierarquia.

Fora da pasta, o secretário acumulou indisposições ao ajudar a barrar planos dentro e fora do governo que não se encaixavam nas regras. Waldery era citado reservadamente até por membros da pasta de Guedes por, segundo os relatos, emperrar o andamento de medidas econômicas, inclusive as de enfrentamento da crise econômica causada pela pandemia.

Internamente, é mencionada dificuldade na execução dos trabalhos com o restante da equipe. Os relatos sobre Waldery retratam um servidor que acionava seu time de madrugada e em fins de semana e marcava reuniões que se prolongavam por horas pelo volume de tarefas.

Os problemas vistos no Orçamento de 2021 foram a gota d'água. O texto foi negociado com o governo e aprovado pelo Congresso, mas depois a equipe econômica —liderada por Waldery nesse tema— considerou os números inexequíveis, gerando atritos com parlamentares e demandando sucessivos debates para encontrar saídas.

Apesar do desgaste, colegas ponderam que resolver os impasses no Orçamento não era algo fácil tendo em vista as diferentes regras fiscais e o apetite dos parlamentares por recursos. Outras pessoas poderiam ter feito pior, comentam.

Além disso, também é ponderado que Waldery é visto pelo próprio ministro como alguém importante tecnicamente, além de um servidor dedicado e leal. Outro ponto mencionado a seu favor é a quantidade de atribuições com uma estrutura não equivalente.

Por tudo isso, Waldery (que é servidor de carreira do Senado) deve ser convidado a permanecer na pasta. É estudada a possibilidade de ele assumir o cargo de assessor especial de Guedes.

Já Funchal, o substituto, é tido como alguém que vê as regras fiscais como a do teto de gastos de forma tão ou mais rígida do que Waldery -- no entanto, com mais facilidade para diálogo.

Antes de assumir o Tesouro, ele era diretor de programa na secretaria especial de Fazenda e conduzia tratativas sobre medidas e repasses de verbas a estados e municípios.

Jeferson Bittencourt, atual assessor especial de Guedes voltado à interlocução com o Congresso, deve assumir a vaga de Funchal na Secretaria do Tesouro. Servidor de carreira do órgão, ele é cotado desde o ano passado para um novo cargo.

Por causa da relação de Bittencourt com parlamentares, as trocas devem ampliar o diálogo com o Legislativo.

Informalmente, as movimentações são discutidas desde a saída de Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro que já teve atritos com Waldery.

O plano para as trocas se intensificou no ano passado, quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ameaçou publicamente de "cartão vermelho" Waldery após o secretário defender em entrevista o congelamento do reajuste para aposentados.

Também deve ser trocado George Soares, secretário de Orçamento Federal (pasta que fica na Secretaria Especial de Fazenda). Ele deve ser substituído por Ariosto Antunes Culau, servidor de carreira do Ministério da Economia e atualmente lotado na Secretaria-Geral da Presidência.

As trocas de Guedes também acontecem em paralelo à saída de outros integrantes da equipe. Os motivos, nesses casos, são diversos. Vanessa Canado, assessora especial para a reforma tributária, pediu demissão no último mês para se dedicar à vida acadêmica.

Yana Dumaresq, secretária especial adjunta de Comércio Exterior, vai para a iniciativa privada. Outra saída prevista é a de Martha Seillier, secretária especial do PPI que deve ganhar um cargo no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Seillier, porém, disse que não havia sido informada da mudança. "Sigo no PPI", disse a secretária em entrevista à imprensa. "Até onde eu sei, o PPI segue no Ministério da Economia".

Ela também negou que haja uma "debandada" na pasta de Guedes. Acrescentou, porém, que a equipe do ministro é grande e é natural que algumas pessoas recebam convites e que ele realize as mudanças que considere adequadas.

"Eventualmente podemos sim mudar de posição, jogar em posições distintas, mas sempre com os mesmos objetivos", disse.

PRESSÃO

A pressão de líderes pelo desmembramento do Ministério da Economia inclui, por exemplo, pedidos para que sejam criados os Ministérios de Previdência e Trabalho, além da pasta do Planejamento, que cuida do Orçamento.

No caso de Previdência e Trabalho, a área cuida do pagamento de aposentadorias e pensões, além de ser responsável por indicações em diversas agências do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e cargos ligados à fiscalização trabalhista pelo país.

A articulação de congressistas também envolve a recriação do Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior, que se arrasta desde o fim do ano passado.

Segundo integrantes do governo, as discussões para a cisão da pasta de Guedes não teria como resultado uma divisão tão ampla. A avaliação é que pelo menos uma área seja direcionada a um novo ministério, que atenderia a uma indicação política.