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Guedes firma compromisso pragmático com investidores em Davos, diz presidente do Bradesco

ALEXA SALOMÃO
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 02.07.2017: Presidente do Bradesco, Octavio Lazari, durante confraternização dos dirigentes de bancos, no hotel Four Seasons, em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

DAVOS, SUÍÇA (FOLHAPRESS) - O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que o ministro Paulo Guedes (Economia) firmou um compromisso pragmático com os investidores durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Lazari está na Suíça para o evento e participou de painel em que Guedes falou sobre o Brasil a investidores.

"O ministro Guedes relatou o que o governo fez, de como pavimentou a estrada no primeiro ano, concluiu a reforma da Previdência. E disse que está convicto que vai entregar as reforma tributária e administrativa e fazer o pacto federativo. Falou de forma clara o que o governo pretende e como isso vai impactar as diferentes áreas do setor público", afirmou Lazari.

O banqueiro defendeu que o crédito vai crescer no Brasil via bancos privados e disse que o governo reafirmou o compromisso com o investidor estrangeiro de que o Brasil tem uma excelente perspectiva de crescimento.

"O sentimento que a gente percebe entre os investidores é de um pouco mais de confiança no Brasil. O que precisa é que essas reformas [fiscal e administrativa, além do pacto federativo] andem rápido", afirmou.

Segundo Lazari, Guedes afirmou que, em no máximo 40 dias, as reformas estarão andando.

Neste ano, em Davos, como está a percepção em relação ao Brasil? Mudou alguma coisa em relação ao ano passado?

No ano passado, como era o começo do governo, o presidente Bolsonaro fez a abertura e muito se falou, mas não tinha material para se apresentar. Eram só proposições. Este ano, apesar de não ter andado na velocidade em que a gente gostaria, entregamos uma reforma da Previdência. Fazia 30, 40 anos que a gente falava em fazer essa reforma e sabíamos o quanto batia no fiscal. Quer queira, quer não, essa reforma andou e passou. Algumas privatizações já vêm acontecendo. O BNDES lançou mais uma venda de ações, as da Petrobras agora. E temos pela frente uma agenda muito importante de reformas que está aí –e essa agenda vai ser feita.

Acho que tudo isso, associado à convicção do ministro Paulo Guedes de que essa agenda vai andar de –com reforma fiscal, o pacto federativo e a reforma administrativa–, o sentimento que a gente percebe entre os investidores é de um pouco mais de confiança no Brasil. O que precisa é que essas reformas andem rápido.

A gente percebe que essas reformas vão andar, quer seja com o ministério, quer seja com o BNDES, quer seja com o Banco Central, e com as duas Casas –com Davi Alcolumbre, no Senado, e Rodrigo Maia, na Câmara, que trata a reforma tribuária como um compromisso dos legisladores. E essas reformas não só vão andar, como vão andar na velocidade necessária. Certamente, no ano que vem, vamos ter uma história melhor ainda para contar em Davos.


PERGUNTA - O sr., representando o banco, teve agenda com investidores?

OCTAVIO LAZARI - Tive. Até agora [quarta, dia 22], umas 12 de mais de 25 agendadas. Estive com presidentes de empresas, em especial da área de energia. E eles estão preparando anúncios de investimentos importantes no Brasil. A leitura é que não será um voo de galinha. Estamos entrando num longo período de crescimento sustentável.


P. - No ano passado, a questão era fazer a reforma da Previdência. Neste ano, então, é preciso fazer a agenda de reformas engrenar e que essa parada que o governo deu não se prolongue?

OL - Essas outras reformas são importantes, vão engrenar, mas não têm tanto peso quanto a da Previdência. Se elas vierem, todo o nosso fiscal e toda a boa perspectiva em relação ao Brasil vão se consolidar, porque vão gerar empregos, atrair investimentos. O que nos deixa feliz é ver que o governo está consciente de que essas reformas precisam andar.


P. - No ano passado, o governo foi cobrado por sua posição em relação ao meio ambiente, inclusive por investidores de fundos e empresas. Esse problema arrefeceu?

OL - Nenhum investidor comentou essa questão com a gente, mas sabemos que esse é um tema central aqui em Davos. Questões sócio-ambientais, a geopolítica e o crescimento econômico com inclusão digital são os três grandes pilares do fórum. Então, obviamente, em qualquer canto esse assunto vem à tona.

Mas, veja bem; assim como não podemos acusar a Austrália de ter queimado suas florestas ou o governo francês de não ter cuidado da catedral de Notre-Dame, o governo brasileiro não deve ser acusado de estar queimando a floresta indiscriminadamente. Não é isso que está ocorrendo. Claro que precisamos reforçar a política de vigilância e de combate a atos de depredação da Amazônia. Isso não é trivial. A Amazônia é praticamente um continente, uma Europa, em extensão. No entanto, estou vendo no discurso e nas ações do governo medidas para defender o meio ambiente. Guedes, inclusive, falou no painel [para empresas] sobre uma força tarefa para atuar na defesa da Amazônia.


P. - O sr. participou desse painel para empresas, que é fechado para imprensa. Pode contar o foi dito?

OL - O ministro Guedes relatou o que o governo fez, de como pavimentou a estrada no primeiro ano, concluiu a reforma da Previdência. E disse que está convicto que vai entregar as reforma tributária e administrativa e fazer o pacto federativo. Falou de forma clara o que o governo pretende e como isso vai impactar as diferentes áreas do setor público. Ressaltou também o programa de privatização e de redução da participação dos bancos públicos na economia. Quer dizer, o crédito do Brasil vai crescer, e vai crescer via bancos privados. Ou seja, o governo está emagrecendo, reduzindo o tamanho dos bancos públicos e reafirmando o compromisso com o investidor estrangeiro de que o Brasil tem excelente perspectiva de crescimento. E citou o relatório que mostra como os investimentos já estão crescendo no país.


P. - O relatório da Unctad [Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento]?

OL - Exatamente. No ano passado, o Brasil foi o quarto país que mais recebeu investimentos globais, atrás de Estados Unidos, China e Singapura. Guedes firmou um compromisso muito forte, pragmático, com os investidores. E não fez isso sozinho. A equipe dele estava junto. Gustavo Montezano [presidente do BNDES], Marcos Troyjo [responsável pela área de comércio exterior], Carlos da Costa [secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade], Wilson [Ferreira Júnior], presidente da Eletrobras, estavam junto para fincar o pé nesse compromisso.


P. - Algum pergunta da plateia chamou a atenção do senhor?

OL - Uma das pessoas fez uma pergunta bastante incisiva sobre a velocidade das reformas. O ministro Guedes disse que em 40 dias, no máximo, esses projetos estarão andando. Um menina que tem uma startup do agronegócio perguntou sobre crédito de carbono, e Guedes discorreu sobre o tema e sobre incentivos a startups, demonstrando conhecimento sobre o que se pretende.


P. - No Brasil, a queda da taxa de juros continua sendo um tema importante. Quanto tempo a queda mais expressiva da taxa básica vai demorar para chegar na ponta, para consumidor?

OL - O governo e, sobretudo, o Banco Central, fizeram um trabalho importante aí. Nesse ano, não vamos ter surpresas com a inflação. No ano passado, só tivemos o impacto do preço da carne. A taxa de juros teve uma redução para 4,5% e acredito que deve ficar em 4,5% agora ou caia mais devagar ao longo do ano.

As taxas de juros de produtos mais tradicionais dos bancos estão caindo. Caiu no crédito imobiliário e no consignado. A taxa de financiamento de veículos é uma das mais baixas que já vimos. O crédito rural nem precisa mais de subsídio, porque o produtor rural consegue se ajustar às taxas praticadas hoje.

É aquela história: as duas únicas coisas fora do padrão são cartão de crédito e cheque especial. Mas o Banco Central decidiu reduzir para 8% [ao mês] a taxa do cheque especial a partir de janeiro deste ano. Nós tomamos a decisão de não cobrar tarifa agora. Vamos espera para ver a reação do cliente.


P. - Mas essa redução no juro do cheque especial não foi pacífica. A Febraban inclusive se manifestou. Como vocês viram a mudança?

OL - Nós já estávamos conversamos muito com o Banco Central. A decisão apenas acelerou algo que esperávamos para o primeiro semestre. Está resolvido.


P. - Não receberam como uma intervenção?

OL - Não. O Banco Central é o regulador.


P. - como veem a decisão da Caixa de realizar uma redução mais agressiva nos juros de seus produtos? Soa como pressão de banco público sobre privado?

OL - Não. Cada presidente de banco tem o seu orçamento e sabe onde pode mexer, onde fica mais difícil ou é impossível mexer. Cada um tem sua estratégia. E não vamos nos pautar por essa ou aquela estratégia. Cada banco tem a sua estrutura de custo.


P. - Qual o cenário para o setor com essa perspectiva de juro baixo e ainda em queda?

OL - Estamos numa situação inédita. O Brasil nunca viveu uma taxa de juros de 4,5% e com inflação baixa, de 3%, 3,5%. Nós estamos falando de uma taxa real de 1%, 1,5%. É um novo normal, que nós bancos, empresas e a população brasileira vamos ter de aprender a lidar.


P. - Para se adaptar ao novo normal, vocês têm algo novo?

OL - Dentro de todas as mudanças que estamos vivendo, nos chamou a atenção que a população brasileira é uma das mais conectadas ao celular do mundo e isso afeta a gente, banco. Não estou falando do banco digital. Estou falando do Bradesco, que tem 4.700 agências e tradicionalmente é digital. Fomos o primeiro a trazer o computador para o Brasil.

O primeiro a adotar o online para o cliente sacar, ver saldo e tirar extrato em qualquer lugar do Brasil, independentemente de onde estivesse a agência. Percebemos que, nessa jornada, o cliente prefere se relacionar com o banco no lugar e na hora que for mais conveniente. Dado esses fatores de mudança de comportamento, de hábito de consumo, a gente precisava que a operação comum, de crédito pessoal, que você pode parcelar em 6, 12, 24 vezes, estivesse disponível no celular.

Em 2019, com os ajustes que fizemos, do total de volume de crédito pessoal –que teve te crescido mais de 30% no ano passado–, 52% das operações não foram feitas com um gerente numa agência, mas via celular ou computador pela internet. O banco precisa acompanhar isso. Entender que operações podem ser feitas fora da agência, no sábado, no domingo, à noite.

Agora, em 2019, contratamos 67 cientistas de dados só para mexer com CRM, relacionamento com clientes, criando novas jornadas no celular. Quando eu entrei no banco, há 40 anos, a gente contratava contador, engenheiro. advogado, economista e administrador. Agora, a gente contrata cientista de dados, para poder acompanhar essa evolução, que é global e afeta toda a atividade que envolva consumo.