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Grupo promove autoestima de meninas crespas por meio do conhecimento

Projeto fala sobre história do povo negro para além da escravidão. Foto: Divulgação/Edu Quadros

Ao ver uma aluna sofrendo com o racismo de um colega, a professora Perla Santos, 36 anos, decidiu que iria fazer o que estava ao seu alcance para empoderar seus alunos negros. Foi assim que surgiu o Movimento Meninas Crespas, em Porto Alegre.

“A partir desse episódio lamentável, várias meninas se reuniram comigo nos recreios para conversar sobre cabelo crespo e negritude. Elas se sentiram convocadas a fazer algo para combater as inúmeras ‘brincadeiras’ racistas baseadas na textura do cabelo delas ou na cor de pele delas”, explica a professora em entrevista ao Yahoo.

Além disso, Perla afirma que as crianças também queriam conhecer mais sobre a história do povo negro para além da escravidão. Sendo assim, o grupo começou a aprender um pouco mais sobre a estética e a dança africana e afro-brasileira e também passou a valorizar o cabelo crespo e resgatar a identidade negra e o poder feminino.

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“Após conhecerem a sua história, a história negra, que vai muito além da escravidão, os integrantes do movimento demonstram menos problemas de autoestima e autoimagem. Eles valorizam a estética negra, soltam seus cabelos crespos, percebendo que isso é um ato político”, diz a professora.

Segundo ela, agora, quando as crianças ouvem algum tipo de fala racista, alertam as pessoas e explicam por qual motivo o tipo de postura não é ideal. “Eles fazem isso de forma não violenta, argumentando. Antes, escutavam calados e não abriam a boca por terem sido silenciados pelo racismo estrutural”, relata.

Com o tempo, o projeto foi se tornando ainda maior e passou a contar com a participação de meninos e familiares das crianças que já faziam parte do movimento. “As famílias começaram a se aproximar e participar das oficinas e rodas de conversa”, afirma.

Meninas negras se sentem mais empoderadas. Foto: Divulgação/ Edu Quadros

De acordo com a professora Kátia Flores, 39 anos, uma das coordenadoras do projeto, as famílias se sentem muito acolhidas pelo grupo e passam a ser parte integrante de todas as atividades. “As meninas e meninos que participam vão afirmando sua identidade negra e passam a entender e valorizar suas características físicas e culturais. Os conhecimentos que adquirem através das danças, das rodas de conversa e aulas de yoruba são transmitidos aos seus amigos e famílias”, diz.

“A felicidade que sentem é vista em frases como ‘sou negra e meu cabelo é crespo’ ou ‘hoje vou para escola de cabelo solto, pois meu cabelo é lindo’. As crianças do projeto ficam mais fortalecidas e conseguem se defender um pouco melhor das práticas racistas que ainda acontecem muito não só nas escolas”, afirma Kátia.

Após o crescimento do movimento, o grupo precisou solicitar à direção da escola uma sala para que as reuniões fossem feitas. A partir daí, cerca de 40 inscritos foram divididos em duas turmas: Dandara e Malcom X. “Os encontros, que se iniciam sempre por uma roda de conversa, contextualizam situações, analisam fatos e debatem assuntos relacionados à população negra”, explica Perla.

Porém, em 2018, o grupo foi surpreendido com a notícia de que os projetos escolares do município de Porto Alegre seriam extintos. “Nesse momento, eu e as mães decidimos que nosso grupo seguiria com o trabalho fora da escola. Criamos um trabalho independente, ofertando as atividades para crianças do bairro”, afirma a professora Perla.

Movimento quer valorizar tradições e cultura africana. Foto: Divulgação/Edu Quadros

De acordo com a auxiliar de serviços gerais Denise Silva, 33 anos, uma das coordenadoras do projeto, o começo foi muito difícil. “Tivemos que procurar parceiros que pudessem nos ajudar com espaço. Mas, aos poucos, as coisas foram se ajeitando. Ainda não temos nosso espaço próprio, mas é só o que nos falta”, constata.

Agora, o movimento está criando uma biblioteca afrocentrada e comunitária para que mais pessoas possam ter acesso à história negra. Além disso, o projeto também conta com a iniciativa de escrever cartas de empoderamento para mulheres da Casa Mirabal, um local que acolhe mulheres vítimas de violência doméstica.

“Acreditamos na ideia de empoderar-se e empoderar outras”, afirma a professora Perla dizendo que o grupo também costuma confeccionar cartazes com informações sobre o continente africano e a poesia negra e colar pelas ruas para que outras pessoas possam ter acesso ao conhecimento adquirido pelos membros do projeto.

Segundo a técnica em secretariado Karina Ferreira, 40 anos, uma das coordenadoras do projeto, todas as ações do movimento têm extrema importância “pois buscam valorizar a autoestima das crianças e, por consequência, abrangem suas famílias e tudo mais o que podem alcançar”, afirma. “O projeto muda a vida do coletivo para melhor”, constata.

Com tantas iniciativas para promover a autoestima do povo negro, o projeto acabou sendo reconhecido até fora do Brasil. “No ano de 2018, eu estive em Portugal, na Escola da Ponte, para um intercâmbio. Nessa experiência, pude apresentar como é feito nosso trabalho”, relata a professora Perla.

Grupo resgata autoestima de meninas e meninos negros. Foto: Divulgação/Nielson Rocha

As mulheres que fazem parte do projeto acreditam que isso tudo terá um efeito positivo para as crianças e adultos que fazem parte do projeto a longo prazo. Segundo a enfermeira Lisiane Vieira dos Santos, 39 anos, uma das coordenadoras do grupo, as ações trazem um empoderamento para todos os envolvidos.

“Acreditamos que as crianças e famílias que estão e passaram pelo projeto são capazes de entender que elas podem ser o que quiserem. E que serão com representatividade e com a ciência de que existe um coletivo que atua no fortalecimento da negritude delas”, afirma.

O grupo de coordenadoras é formado, ao todo, por nove mulheres. Além das cinco ouvidas pela reportagem, também fazem parte a dona de casa Andreia da Silva Guerra, a artesã Iracema Scheffer da Silva, a enfermeira Inaí Nascimento e a professora Luciana Xavier.

Cada um dos integrantes, incluindo os alunos, os pais e os parceiros, precisam exercer alguma função dentro do movimento. “Um grupo é responsável pela divulgação, outro é responsável por receber os visitantes e explicar como o projeto se organiza… nas rodas de conversa, surgem as novas ações do grupo, que se organiza dividindo tarefas”, explica Perla.