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Grupo de brasileiros enviou Bitcoin à Lua via rádio amador

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Grupo de brasileiros enviou Bitcoin à Lua via rádio amador
Grupo de brasileiros enviou Bitcoin à Lua via rádio amador

Durante muito tempo, as pessoas recorriam a bancos e corretoras para escolher o melhor meio de alocar seus recursos. Mas, atualmente, existe uma opção muito mais vantajosa para consolidar seu patrimônio ou, simplesmente, transferir dinheiro entre usuários: a transação de criptomoedas. Diferente de outras moedas, como o real ou dólar, as criptomoedas só existem no meio virtual, sendo guardadas em uma carteira digital.

E elas são muitas. Segundo estatísticas de 2020, o número de criptomoedas existentes é superior a 6 mil, e está em constante crescimento. O Bitcoin é a principal delas, sendo responsável por quase 60% da capitalização total de mercado.

São mais de 6 mil criptomoedas registradas, sendo o Bitcoin a mais utilizada delas. Imagem: Igor Batrakov – Shutterstock
São mais de 6 mil criptomoedas registradas, sendo o Bitcoin a mais utilizada delas. Imagem: Igor Batrakov – Shutterstock

As transações são, geralmente, feitas via internet, mas existem casos de operações em tempo real por meio de satélites no espaço. Dessa forma, todos podem ter acesso gratuito à rede Bitcoin, em qualquer lugar do mundo, mesmo que não tenham conexão com a rede mundial de computadores.

Para os entendidos do assunto, isso não é nenhuma novidade. Mas, e se o tal satélite intermediário das transações não for “qualquer um”, e, sim, o nosso grande satélite natural, que está a 384.405 km de distância de nós? Sim, a Lua.

Parece um pouco estranho e até difícil de acreditar, mas uma equipe composta por profissionais e entusiastas do ramo conseguiu esse feito: mandar Bitcoins para a Lua, utilizando o corpo celeste como “agente” de uma transação financeira.

E o mais incrível disso tudo é que a transação inédita, ou seja, nunca antes realizada por ninguém no mundo, é fruto de esforços nacionais. Isso mesmo, o grupo responsável pela ação é todo formado por brasileiros. Os profissionais envolvidos são todos entusiastas do radioamadorismo, desenvolvedores de blockchain ou empresários do ramo de Tecnologia da Informação.

Marcio Gandra, desenvolvedor de blockchain, liderou a equipe, formada por Rafael Silveira Batschauer (desenvolvedor SAP), Paulo Bezerra (desenvolvedor de Sistemas de Segurança), André Alvarenga (P2P de Bitcoin) e Narcélio Filho (desenvolvedor de software).

Marcio Gandra, desenvolvedor de blockchain, liderou a equipe de radioamadores responsáveis pelo envio de Bitcoin à Lua. Imagem: Arquivo Pessoal
Marcio Gandra, desenvolvedor de blockchain, liderou a equipe de radioamadores responsáveis pelo envio de Bitcoin à Lua. Imagem: Arquivo Pessoal

Sobre sua profissão, Gandra explica que o termo blockchain, literalmente, significa cadeia de blocos, ou seja, blocos de informação conectados entre si por uma lógica linear/temporal, além de criptografada. Nesses blocos são armazenados todos os tipos de informação: no caso das criptomoedas isso é um registro de todas as transações financeiras de uma rede.

Elon Musk anunciou que enviaria criptomoedas à Lua; Brasileiros saíram na frente

Em entrevista ao Olhar Digital, Gandra contou que a intenção era fazer com que Narcélio recebesse de Alvarenga R$50 em Bitcoin, através de uma transação de multi-assinatura que fosse validada por Bezerra e Batschauer, sendo que eles estavam a cerca 800 km de distância um do outro.

E, por quê? “A ideia surgiu do buzz causado por Elon Musk ao dizer que enviaria criptomoedas à Lua. Se o dado convertido em onda é a própria transação tocando o solo lunar, poderíamos nós mesmos realizar a façanha primeiro”, afirma o desenvolvedor.

“Meu envolvimento com o radioamadorismo já dura 20 anos, e, como no período do lockdown diversas preocupações quanto à preservação das liberdades individuais foram levantadas, o rádio seria uma das maiores e melhores alternativas em caso de privação de comunicação num possível cenário apocalíptico ou ditatorial”, acredita.

Três meses de preparação

Segundo Gandra, os preparativos duraram três meses. “Já o evento propriamente dito, entre testes e execução, durou de 24 a 29 de Abril”, explica.

No dia 29, à noite, ele estava com Batschauer, que seria o primeiro signatário da operação, na varanda da sua casa, em Macacos (MG), cercado de seus equipamentos de rádio e uma antena direcional. Bezerra, o segundo signatário, estava em Marília (SP). Já Alvarenga, responsável pelo envio do dinheiro, e Narcélio, receptor do valor, estavam ambos em Belo Horizonte (MG).

Naquela noite, acontecia o fenômeno da Lua Rosa, momento em que o satélite natural está mais próximo da Terra, ideal para experimentos desse tipo.

Gandra conta que, como a Lua está em constante movimento, a operação exigiu muita cautela e calma. “A cada pequeno movimento que a Lua fazia, nós perdíamos a continuidade da transmissão e tínhamos que parar daquele ponto para recomeçar dali em diante. Foram várias pausas e recomeços até toda a transação ser concluída”. Além disso, o equipamento de baixa potência para o feito (1/5 do recomendado) exigiu muita paciência e persistência. “Ao recebermos a primeira confirmação em áudio do envio, a alegria foi enorme.” relata Gandra.

Transação contou com tecnologia criada pelos militares ingleses nos anos 40

Resumidamente, o procedimento consistiu no envio do valor por Alvarenga, na validação do processo por Batschauer e Bezerra e no recebimento por Narcélio. Pelo modo convencional, Batschauer recebeu e assinou a transação. Em seguida, ele enviou a informação a Bezerra, refletida no solo lunar.

O desenvolvedor de sistemas de segurança, então, com sua antena também direcionada à Lua e em constante contato com Gandra via WhatsApp para confirmar a recepção, ia recebendo e decodificando a mensagem, com a ajuda de um aplicativo de celular.

O processo durou cerca de 25 minutos. Quando Bezerra estava finalmente de posse da mensagem completa, ele reconstruiu o arquivo da transação e subiu na sua carteira Electrum para fazer a segunda assinatura e enviar ao destinatário final.

Para realizar o procedimento, eles usaram uma técnica criada pelos militares ingleses na década de 40, conhecida como comunicação Terra-Lua-Terra (E.M.E, na sigla em inglês). Por meio desse método, um transmissor propaga ondas de rádio para a Lua, que reflete elas de volta à Terra, podendo ser recebidas por qualquer pessoa.

“Numa situação de E.M.E. profissional, seriam usados softwares de tracking para acompanhar o movimento da Lua em tempo real”, explica. “No nosso caso, esse acompanhamento foi ‘na unha’, como dizem”.

Foi necessário converter os dados da transação, baixando o arquivo da carteira Electrum, onde as informações criptografadas estavam em hexadecimal (letras e números). Em seguida, esses dados foram convertidos para binário (0 e 1) e, por fim, transformados em código morse. Segundo Gandra, “o código morse foi utilizado por ser um modo de comunicação simples, de fácil compreensão, tendo conversores ou tabelas ao lado, e analógico”.

Ele explica que, para enviar o arquivo PSBT – que significa transação de Bitcoin parcialmente assinada – em outro modo, seria recomendável usar o binário em protocolos próprios para o moon-bounce, ou seja, rádio digital. “Porém, toda infraestrutura era analógica, e queríamos fazer da forma mais rudimentar possível para trazer o experimento mais próximo da realidade das pessoas comuns”, esclarece.

Rafael Silveira Batschauer, desenvolvedor SAP, acompanhou Gandra no processo e foi responsável pela primeira validação dos dados. Imagem: Arquivo Pessoal
Rafael Silveira Batschauer, desenvolvedor SAP, acompanhou Gandra no processo e foi responsável pela primeira validação dos dados. Imagem: Arquivo Pessoal

Para Batschauer, a experiência tem um grande significado. “Nosso objetivo foi romper as barreiras de envio de Bitcoin e trazer mais alternativas de liberdade e inclusão econômica. Vivemos num período no qual a esfera da censura parece se expandir cada vez mais. E essa experiência de envio de Bitcoins para a Lua se tornou bastante emblemática, pois confronta diretamente com qualquer tentativa de restrição, tanto do uso de criptomoedas quanto do uso da Internet”.

“Não só fazer o Bitcoin bater na Lua”, afirma Gandra. “Foi um experimento para chamar atenção à ideia da radiotransmissão como mais uma alternativa. Queremos trazer de volta o interesse dos mais novos para o radioamadorismo e poder ampliar nossas opções de liberdade”, complementa.

Batschauer e Gandra são fundadores do Gyme.Run, um aplicativo voltado para os corredores, que trabalha com cashback em criptomoedas por quilômetro corrido. Segundo eles, a necessidade desse app vem do fato de que, na maioria das vezes, o corredor pode estar em uma trilha e precisar enviar ou sacar moedas sem conexão com a Internet. “Tendo o rádio, isso seria facilmente resolvido.”, explica Batschauer.

Mensagem especial para Elon Musk

Após constatado o sucesso do experimento, a equipe fez questão de deixar um recadinho em inglês para o excêntrico bilionário fundador da SpaceX: “Eu sou o primeiro Bitcoin a chegar à Lua. Nós fizemos isso primeiro, Elon :)”.

“Nós provamos que não é necessário nenhum foguete multi-bilionário para mandar criptomoeda para a Lua”, brinca o brasileiro. “A sensação de ter realizado esse feito é sem palavras, você se sente um “criptonauta” fazendo aquilo que parecia possível apenas nos tweets da SpaceX e da Nasa”, diz Gandra.

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Ele conta que o entusiasmo não é só pelo feito em si, mas pela liberdade e dezenas de possibilidades que isso pode trazer às pessoas. “Você pode estimular a inclusão financeira em lugares remotos sem internet, trazendo mais uma alternativa à resiliência da rede do Bitcoin, mais uma camada de proteção anti-censura e, o principal, podendo conectar a nova geração ao radioamadorismo, um setor de extrema importância na sociedade. As pessoas não têm noção do quanto nossa vida está diretamente ligada ao rádio no dia a dia, seja no uso de aparelhos de rádio, tv, celulares, ou até mesmo equipamentos hospitalares ativados e controlados por ondas de radio”, garante.

Repercussão internacional e reconhecimento dos grandes

Até mesmo o famoso Adam Back andou curtindo as publicações do grupo nas redes, prova de que o feito teve ampla repercussão entre os “bitcoiners”.

Para sintonizar: o primeiro relato que descreve a implementação do Bitcoin foi apresentado em 2007, na lista de discussão The Cryptography Mailing, por um programador sob o pseudônimo Satoshi Nakamoto. Ninguém, até hoje, sabe quem realmente é Nakamoto.

A podcaster especializada em Bitcoin, Anita Posch, falou sobre o feito brasileiro no Twitter. Seu tweet foi curtido pelo criptógrafo britânico Adam Back, um dos maiores nomes mundiais no ramo. Imagem: Arquivo Pessoal – Captura de tela
A podcaster especializada em Bitcoin, Anita Posch, falou sobre o feito brasileiro no Twitter. Seu tweet foi curtido pelo criptógrafo britânico Adam Back, um dos maiores nomes mundiais no ramo. Imagem: Arquivo Pessoal – Captura de tela

Há suspeitas de que Adam Back, criptógrafo britânico, CEO e cofundador da Blockstream, companhia de tecnologia focada em inovação em criptomoedas e contratos inteligentes, esteja por trás dessa identidade. De qualquer forma, Back é um dos maiores nomes mundiais no ramo, motivo pelo qual seu reconhecimento da ação dos nossos brasileiros é uma enorme conquista para a equipe.

“Satoshi Nakamoto foi o criador do Bitcoin. Não se sabe exatamente quem ele foi ou é, se está vivo ou não, se é uma lenda urbana ou uma figura real escondida. O importante sobre Satoshi Nakamoto é ter sido o pai de uma revolução financeira que o Estado não consegue até hoje impedir o crescimento e a disseminação”, explica Gandra. “É uma ameaça viva ao “establishment” econômico que é baseado em débito e inflação. O Bitcoin é deflacionário, incorruptível e transparente – isso incomoda muito”.

Ele diz que o feito também repercutiu muito nesse último fim de semana, durante um evento mundial de Bitcoin em Miami, recebendo cobertura de personalidades como Anita Posch, Jameson Lopp e Marty Bent, grandes influencers mundiais sobre o tema. “A transação entrou para os registros do anuário do Bitcoin, uma espécie de arquivo com os milestones [marco histórico, em tradução livre] mais importantes”, conta Gandra, satisfeito.

Marty Bent, editor-chefe do Marty’s Martent, um boletim diário sobre Bitcoin, também repercutiu o evento de Gandra e sua equipe. Imagem: Arquivo pessoal – Captura de tela
Marty Bent, editor-chefe do Marty’s Martent, um boletim diário sobre Bitcoin, também repercutiu o evento de Gandra e sua equipe. Imagem: Arquivo pessoal – Captura de tela

E não é só brasileiro que gosta de um bom meme não. “A comunidade internacional de Bitcoin fez um vídeo me colocando ao lado do Michael Saylor (que rebateu Elon Musk de forma maestral sobre o Bitcoin), e a moeda chegando à Lua por ondas de rádio”. Confira a brincadeira abaixo:

Próxima missão será transmitida ao vivo

A próxima missão da equipe é utilizar os transceptores da ISS (sigla em inglês para Estação Espacial Internacional) para emitir um Invoice (fatura) da Lightning Network (rede alternativa do Bitcoin para pagamentos instantâneos ) e replicá-lo de volta à Terra após o pagamento.

Gandra explica que a ISS tem um receptor e um transmissor em várias bandas de rádio. “Nós utilizaremos os transmissores VHF e UHF. Vários radioamadores fazem contato com a ISS, alguns até com a própria tripulação da estação. No YouTube, existe um material bem rico a esse respeito, basta procurar por radioamadorismo ISS. Queremos usar esse meio para poder fazer uma transação interestadual, usando esses rádios como refletores da ação”, afirma.

Essa ação poderá ser acompanhada por qualquer radioamador que modular na frequência específica.

“É importante frisar que o envio de uma transação por meio de ondas de radio não configura o uso pecuniário do radio, uma vez que não está sendo comercializado nenhum produto ou serviço através das ondas, e o que está sendo enviado não é um valor em si propriamente, mas um arquivo digital contendo textos sobre a transação onde só se torna valor depois de assinado pela outra parte e publicada na blockchain para validação dos mineradores” destaca.

“É como se aquele arquivo contivesse a informação de que X está querendo transferir para Y um valor Z, o Bitcoin não trafega por si mesmo, o que ocorre é uma mudança de endereço daquele valor dentro da blockchain, de onde ele nunca saiu. Portanto quando falamos que o Bitcoin tocou na Lua, a metáfora diz exatamente isso, os dados de uma transação, não a criptomoeda em si”, completa.

Gandra conta que criou um projeto sem fins lucrativos chamado Satoshi.Radio.Br, que pretende funcionar como uma rede interconectada de “listeners” e “broadcasters” de transações, por meio de um protocolo novo de rádio digital, contendo metadados de transações. “Concluído o desenvolvimento do protocolo, o mesmo será apresentado às autoridades competentes no intuito de promover sua adoção e regulação”.

Ele explica que o objetivo maior é atender regiões desamparadas de acesso à Internet ou telecomunicações, “promovendo a inclusão financeira de grupos desamparados”. Além disso, segundo Gandra, “o projeto contempla um canal exclusivo para a educação no rádio com dicas, informações e tudo que as pessoas precisam aprender para operar o rádio e entender sobre criptomoedas.”

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