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Grandes redes de cartões avançam sobre as criptomoedas

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A Visa abriu caminho para o uso de criptomoedas para pagamentos no Brasil por meio de sua rede. No início do ano, a corporação fez um anúncio mundial avisando que lançaria no mercado cartões de crédito que fariam a conversão das moedas digitais. Uma das corretoras parceiras nessa empreitada é a Crypto.com, que comunicou recentemente o início da emissão do cartão no país.

A novidade chega ao país depois do lançamento do cartão criado pelas duas empresas em mercados como Cingapura, Estados Unidos, Europa, em alguns países da Ásia e Pacífico, além de Canadá e Austrália. Com isso, os usuários poderão converter suas criptomoedas em reais para pagar suas compras ou serviços onde quer que a bandeira seja aceita.

A parceria permite que a Crypto.com faça a emissão direta dos cartões com a marca Visa. O novo produto não tem cobrança de tarifa ou anuidade e inclui reembolsos: de até 8% em todos os gastos e 100% nas plataformas de streaming Spotify, Netflix e Amazon Prime.

Os benefícios podem atrair clientes, mas há outro fator que alimenta as expectativas da empresa em conquistar novos clientes. Segundo um estudo encomendado pela Crypto.com, realizado no Brasil via painel online pela plataforma Toluna, um em cada três brasileiros que ainda não investiram em criptomoedas revelou que estaria pronto para fazer o investimento se tivesse um cartão que permitisse fazer saques em um caixa eletrônico.

Divulgada no mês passado, a pesquisa ouviu mais de 2 mil pessoas. Desse total, 60% disseram que não fizeram aplicações em moeda virtual no ano passado. Deles, 59% afirmaram que deverão comprar criptomoedas pela primeira vez em um ano. As três principais razões que os impediram de entrar nesse mundo foram compreender como comprar o ativo (62%), sentir que precisam entender melhor como funciona a tecnologia por trás da criptomoeda (53%), e desejar ter a chance de sacar o investimento em dinheiro físico com um cartão (14%).

Outro dado do estudo indicou que cerca de 25% dos entrevistados estariam prontos para adquirir criptomoedas se pudessem converter e usar os recursos para fazer compras online ou pessoalmente usando um cartão.

Não é o primeiro cartão que usa criptomoedas no país. O diferencial, neste caso, é o peso da marca por trás do negócio. Uma rede do porte de Visa dá mais segurança ao consumidor, afirma Cristina Helena Pinto, professora de Economia na ESPM. E essa segurança é essencial.

“A gente chama de criptomoeda, mas a principal funcionalidade de uma moeda é ser um meio de troca. A criptomoeda é mais um ativo. E ainda tem câmbio desconhecido, o que é um problema”, avalia. A troca não se trata de um processo tão rápido quanto desejam os clientes. Por isso, a parceria com uma gigante dos meios de pagamento dá mais conforto a quem é detentor das moedas virtuais por saber que as empresas têm tecnologia para a conversão em reais em tempo ágil.

De acordo com Cristina, o movimento das grandes marcas no mercado é importante. “Muitos jovens pensam em investir, mas existem moedas diversas. Às vezes eles se lançam em negócios não tão seguros. A vontade de ganhar dinheiro é a maior do que a de medir riscos. Tem muito golpe no mercado, o que atinge também os mais velhos que se interessam pelo assunto, mas não entendem direito como isso funciona”, afirma. “Um cartão de crédito de uma rede conhecida, além de oferecer segurança, facilita e agiliza o uso da criptomoeda”, completa.

EXPANSÃO GLOBAL

No início do mês, em outra parte do mundo, a principal concorrente da Visa anunciava um produto semelhante no mercado da Ásia Pacífico, um dos cobiçados pelo setor. A MasterCard fez parceria com três exchanges líderes da região – Amber Group e Bitkub, da Tailândia, e Coinjar, da Austrália – para oferecer cartões de crédito, débito e pré-pagos que permitem converter instantaneamente as criptomoedas em moedas fiduciárias.

A MasterCard apresentou seu programa global para moedas virtuais no início do ano. O lançamento dos produtos nessa porção do mercado asiático foi um de seus movimentos mais recentes dentro da estratégia que estabeleceu para o setor. Em outubro, a companhia já havia divulgado a parceria com a Bakkt, dos EUA, cujo acordo previa também a emissão de cartões de crédito e de débito. O plano da MasterCard é tornar mais simples e rápida a disponibilidade de cartões de pagamento para o segmento, já que os consumidores estão cada vez mais buscando fazer transações de forma segura e eficiente com as moedas digitais.

“Em colaboração com seus parceiros, que seguem os mesmos princípios básicos da Mastercard – qualquer moeda digital deve oferecer estabilidade, proteção ao consumidor e cumprir a regulamentação do setor – estamos expandindo o que é possível com criptomoedas para dar às pessoas ainda mais escolha e flexibilidade na forma de pagamento”, declarou, em comunicado, Rama Sridhar, vice-presidente executiva de Digital & Emerging Partnerships and New Payment Flows da Mastercard Asia Pacific.

O comentário corroborou o que já tinha dito, em fevereiro, Raj Dhamodharan, vice-presidente executivo de Digital Asset and Blockchain Products and Partnerships da Mastercard. Na ocasião, ele afirmou que a companhia estava se preparando para o futuro da cripto e dos pagamentos, uma grande mudança que exigiria muito da empresa. Ele informou ainda que começariam a selecionar as empresas de criptomoeda com quem selariam parcerias. “Seremos muito cuidadosos a respeito de quais ativos receberão nosso suporte, o que se baseará em nossos princípios para moedas digitais, que estão focados em compliance e proteção ao consumidor”.

A construção de parcerias no mercado cripto por essas gigantes é essencial para a expansão dos investimentos em moedas virtuais. Donas de redes com alcances globais e com bilhões de clientes, elas devem acelerar a compra dos ativos. Em julho, um estudo da Visa indicou que os negócios feitos com criptomoedas tinham movimentado US$ 1 bilhão somente no primeiro semestre deste ano.

CENÁRIO BRASILEIRO

Parceria global fechada sete meses atrás, a Crypto.com e a Visa enxergam o Brasil como um mercado importante. O cofundador e CEO da corretora, Kris Marszalek, disse, no anúncio do cartão de crédito no Brasil, que vão trazer produtos e serviços para os usuários de criptomoedas no país. “À medida que continuarmos expandindo para mais mercados, e como parceiro principal da Visa, acreditamos que os clientes poderão se beneficiar do nosso programa de cartão, desbloqueando seus valores em cripto para pagamentos e recebendo cashback em cripto sempre que usarem os seus cartões”.

Cuy Sheffield, head de cripto da Visa, destacou que a companhia pretende servir como ponte entre o ecossistema de cripto e a rede global da marca, com 80 milhões de estabelecimentos comerciais. Já Eduardo Abreu, vice-presidente de novos negócios da corporação no Brasil, ressaltou que o apetite do brasileiro por inovação é notório. Por isso, não foi surpresa ter iniciado a expansão dos cartões com a Crypto.com para a América Latina a partir daqui. “Trabalhamos juntos para criar soluções que realmente deem oportunidades de novas experiências de consumo no ecossistema de cripto”, acrescentou.

Na análise de Gustavo Cunha, fundador da consultoria de investimentos e gestão financeira FinTrender e profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, os anúncios feitos pelas grandes redes de cartão de crédito a respeito das criptomoedas para uso como meio de pagamento são bons para o sistema em geral. Há mais parcerias sendo fechadas e isso deve crescer. “A tecnologia embaixo de cripto, que é o blockchain, é muito eficiente em termos de pagamento”, explica.

Ele lembra que cada criptomoeda e cada blockchain tem suas características. “Uns são para transações maiores porque o custo da rede é mais caro e mais seguro, outros são para valores menores porque são bem mais baratos e oferecem uma segurança ok”.

Tanto o consultor quanto a professora Cristina Helena Pinto sinalizam que, com as grandes marcas dando aval para o mercado – e impulsionando a demanda –, chegará um momento em que os valores vão subir. “No médio e longo prazo, sim. Mas no curto prazo, daqui a dois, três meses, o efeito será muito pequeno”, calcula Cunha. De todo modo, como demonstram os planos das gigantes de pagamentos, a adoção das criptomoedas para pagar compras é um caminho que está se consolidando. “Cripto está ficando mais mainstream. E isso certamente ajuda”, conclui o consultor.

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