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Governo promete combater desmatamento, mas não anuncia medidas

Samy Adghirni e Julia Leite

(Bloomberg) -- O governo brasileiro prepara medidas para conter o aumento do desmatamento na Amazônia, que tem gerado uma onda de críticas no exterior, segundo o principal assessor do presidente Jair Bolsonaro para questões de segurança nacional.

“Já está no planejamento daqui para a frente ter uma política mais enérgica de contenção dessas queimadas”, afirmou o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em entrevista em Brasília, sem dar mais detalhes. “Está todo mundo convencido, vamos apertar a política”, acrescentou, numa referência aos produtores rurais que fazem queimadas em terras agrícolas para melhorar a produtividade.

A política do governo para a Amazônia está sob os holofotes desde o início do ano, depois que um forte aumento dos focos de incêndio colocou em dúvida a eficácia do governo Bolsonaro para proteger a floresta amazônica. Há dois dias, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou que um dos principais indicadores do desmatamento na Amazônia registrou o maior aumento em mais de uma década. Bolsonaro reiteradamente minimiza os dados.

Cerca de 10 mil quilômetros quadrados da chamada Amazônia legal foram desmatados entre agosto de 2018 e julho de 2019, segundo o INPE, um salto de quase 30% em relação ao período anterior de 12 meses, e o terceiro maior avanço do desmatamento desde que os dados começaram a ser coletados em 1988.

“É claro que os números podem e devem melhorar”, disse Heleno.

Questão cultural

Os comentários de Heleno ecoam declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que na quarta-feira prometeu reduzir o desmatamento, embora sem anunciar metas concretas. No mesmo dia, Bolsonaro disse que o desmatamento e as queimadas na região são uma questão “cultural” e que pouco pode ser feito sobre isso.

Bolsonaro tem insistido em que a Amazônia pertence ao Brasil e requer desenvolvimento econômico. Em agosto, Bolsonaro demitiu o então diretor do INPE, Ricardo Galvão, devido aos números preliminares do instituto, que mostraram um aumento do corte de madeira na região. O presidente também apoia o uso de áreas de reservas indígenas e ambientais para mineração.

Na entrevista, Heleno disse que é impossível eliminar completamente o desmatamento, argumentando que a Amazônia é tão grande que qualquer incêndio pode facilmente sair do controle. O general de quatro estrelas, que já comandou as tropas das Nações Unidas no Haiti, apontou para a situação em outros países, como os EUA, onde autoridades não conseguem impedir os incêndios que afligem a Califórnia a cada ano.

“Posso criar medidas, posso apertar o parafuso, mas, pelo tamanho da Amazônia, tudo ali é complicado, difícil, caro. As coisas acontecem numa grandiosidade que o ser humano não está preparado”, afirmou Heleno.

O desmatamento tem um custo econômico direto para o Brasil. O Fundo Amazônia, de R$ 1,8 bilhão, criado para levantar fundos para combater o desmatamento, se baseia em dados do INPE para determinar os desembolsos para projetos na região.

A Noruega e a Alemanha, os dois principais patrocinadores do fundo, suspenderam as contribuições devido às políticas ambientais do governo.

“Eu não tenho essa preocupação de que a Amazônia vai pegar fogo”, disse Heleno. “Tenho uma aspiração muito grande em relação à Amazônia e Nordeste. São o futuro do Brasil porque são áreas altamente promissoras. Então é preciso colocar as nossas capacidades em prol dessas duas regiões que são fundamentais para o Brasil crescer.”

Para entrar em contato com os repórteres: Samy Adghirni em Brasília, sadghirni@bloomberg.net;Julia Leite em São Paulo, jleite3@bloomberg.net

Para entrar em contato com a editoria responsável: Juan Pablo Spinetto, jspinetto@bloomberg.net

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