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Gasoduto com a Rússia de Putin é legado mais polêmico de Angela Merkel

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma cicatriz de 1.230 km no mapa europeu é um dos legados mais polêmicos de Angela Merkel, a chanceler alemã que deixará o cargo após 16 anos de um governo marcado pela aversão ao risco e à instabilidade.

Trata-se do Nord Stream 2, a segunda parte de um gasoduto sob as águas do mar Báltico que simboliza tudo o que a chanceler buscou evitar: Merkel poderá entrar para a história como quem deu as chaves da segurança energética europeia para Vladimir Putin.

O gasoduto foi finalizado no dia 10 passado, e liga a costa da Rússia à da Alemanha. Deverá começar a ser operado até o fim do ano, a depender do desejo de seu sócio majoritário e responsável por metade dos custos de construção, a gigante russa Gazprom.

Foi um longo caminho, tão tortuoso quanto os 3 km diários de dutos que cada um dos cinco navios envolvidos na operação deitavam no chão sob o mar, a uma profundidade média de 200 m.

Eles tinham de ser soldados e lacrados dentro das embarcações, sendo descidos com guindastes como gomos de uma longa linguiça.

Um feito de engenharia de EUR 9,5 bilhões, que se somaram aos EUR 8,8 bilhões do primeiro ramal, o Nord Stream, mais EUR 6 bilhões de infraestrutura em terra. Sem correção ao câmbio atual, algo como R$ 150 bilhões.

A história começa, de forma circular, também a poucas semanas da eleição parlamentar na Alemanha que definiria a mudança da chefia de governo.

Em 2005, contudo, o social-democrata Gerhard Schröder não pretendia deixar o palco, como Merkel faz agora quase três anos após anunciar que não disputaria o pleito.

Criticado por europeus, Schröder foi em frente e a rival democrata-cristã não mudou os planos. E mais: após ver completado o Nord Stream em 2011-12, levou adiante a execução do segundo gasoduto em uma rota paralela à do primeiro, só com ponto de saída diferente, cujo contrato foi assinado em 2015.

Muitos especularam que isso se devia à política pouco confrontacional da política em relação à Rússia, tendência herdada de seu mentor, Helmut Kohl, que por sua vez remonta ao trauma da ocupação soviética ao fim da Segunda Guerra Mundial e a partilha do país --Merkel cresceu na antiga Alemanha Oriental comunista, reunificada à Ocidental sob o então chanceler em 1990.

Mas falou alto mesmo o pragmatismo. Cerca de 40% do gás natural que a Alemanha consome vem da Rússia, parte pelo Nord Stream já operacional e o resto por dois sistemas problemáticos.

Um deles é o Iamal-Northern Lights (aurora boreal, em inglês), que passa pela conturbada Belarus e pela Polônia, crescentemente agressiva ante a Rússia e seus aliados em Minsk. Como o nome diz, ele traz gás dos campos árticos de Iamal.

Mais importante, o sistema Soiuz (união, em russo)-Brotherhood (irmandade, em inglês) transporta o grosso do gás natural dos mesmos pontos por meio da Ucrânia, que desde 2014 vive em um estado de conflito com Moscou.

Naquele ano, após a derrubada do presidente pró-russo em Kiev, Putin anexou a Crimeia e passou a fomentar uma guerra civil que amputou na prática áreas do leste ucraniano do controle central. Neste ano, a Europa segurou a respiração ao temer uma guerra renovada na área.

Hoje aquele é o ramal pelo qual passa a maior parte do gás russo para a Europa (132 bilhões de metros cúbicos/ano), deixando no caminho US$ 2 bilhões anuais em taxas para Kiev.

Por motivos óbvios de risco de interrupção no fluxo, Putin quis se livrar o máximo possível desta rota --e Merkel o apoiou, de olho em preços mais camaradas que o fornecimento direto proporciona. Aí entrou o Nord Stream 2, que dobra para 110 milhões de metros cúbicos/ano a capacidade de transporte sob as ondas bálticas, sem intermediários.

Os EUA, que assim como a União Europeia aplicaram sanções ao Kremlin pela Ucrânia, não gostaram. Em 2017, determinaram novas punições, agora a empresas europeias que são sócias da Gazprom no novo gasoduto --gigantes alemãs, da França, Áustria e Holanda.

O mal-estar, já colocado pelos desentendimentos entre o então presidente Donald Trump e seus aliados europeus, só cresceu. Sentindo o cheiro de queimado, Putin insistiu na finalização da obra, que já havia sofrido uma paralisação.

Em agosto do ano passado, o envenenamento do ativista Alexei Navalni na Sibéria criou uma saia-justa adicional para Merkel. O opositor de Putin foi tratado em Berlim, mas ela se recusou a suspender as obras do gasoduto como pressionaram políticos alemães.

A Europa também vê a parceria com ansiedade, e ao longo dos anos buscou alternativas como a importação da gás natural liquefeito ou a construção de vias alternativas pelo sul, passando pela Turquia. Mas elas são insuficientes: a Rússia fornece mais de 40% do produto consumido no continente, ante 16% do segundo colocado, a Noruega.

Merkel viu um fato consumado, elevando os temores de que a dependência dos russos só fará crescer. Para o Kremlin, é algo igualmente vital: 50% das suas exportações são em petróleo e gás, 55% disso para europeus.

O comportamento russo na atual crise do setor, que viu os preços mais altos de gás natural em 13 anos, é acompanhado com atenção.

Nos dois últimos meses, a Gazprom fechou tanto o Iamal quanto o Nord Stream por períodos inusuais, e está cumprindo suas obrigações esvaziando os estoques gigantes que tem em Rehden (Alemanha) e Haidach (Áustria).

Com isso, foram dadas condições para um temor de desabastecimento que levou à subida de preços antes do inverno europeu, quando o consumo doméstico dispara.

Para analistas, isso foi inédito e visou garantir o fim da construção e o início da operação do Nord Stream 2. Os EUA fizeram a mesma acusação nesta quarta (22), citando a pressão pelo início da operação do sistema. O Kremlin, claro, nega.

Merkel ainda deu uma garantia ao presidente Joe Biden, no último encontro de ambos no poder, de que aceitaria novas sanções aos russos caso Putin usasse o desvio da rota ucraniana para punir Kiev. Todos fingiram acreditar.

Caberá agora à pessoa que a suceder lidar com a questão, que ganha relevância devido ao aspecto ambiental. Gás natural é combustível fóssil, mas ainda assim é 50% mais limpo em emissões de carbono do carvão e do petróleo, respectivamente 36% e 16% da matriz energética atual.

Ambientalistas defendem a substituição total por energia renovável (14% da matriz), mas isso é irrealista --o gás natural é um caminho intermediário muito mais conveniente para governos, em especial, no caso, o da Rússia.

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