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Game of Thrones | Livro retoma polêmica sobre personagens femininas

Laísa Trojaike
·3 minutos de leitura

O livro Fire Cannot Kill a Dragon finalmente chegou às livrarias dos EUA e mais conteúdos sobre os bastidores da série Games of Thrones surgiram para gerar polêmicas necessárias. Dessa vez, o assunto é bastante sério e diz respeito ao tratamento dado pela série às suas personagens femininas, o que envolveu violência e diversas cenas de estupro que sequer constavam no livro e que, portanto, pareciam não ter justificativa para fazer parte dos episódios.

O autor dos livros, George R. R. Martin, comentou sobre um dos momentos mais polêmicos da primeira temporada, que foi a alteração do momento nupcial entre Khal Drogo e Daenerys Targaryen: “Por que a cena do casamento mudou da cena de sedução consensual para o estupro brutal de Emilia Clarke?”, questionou Martin ao autor James Hibberd. “Nunca discutimos isso. Tornou tudo pior, não melhor”.

Imagem: Reprodução/HBO
Imagem: Reprodução/HBO

Para quem conheceu o livro e a série, a diferença é bastante clara. No livro, Drogo é um brutamontes, claro, mas isso não impede que ele seja delicado ao seu modo, com descrições que mostram o ele secando as lágrimas dela e a confortando com gentileza, mesmo tendo conhecimento de apenas uma palavra do Idioma Comum, “Não”. Ao final do capítulo, a consensualidade do ato sexual é explicita:

— Não? — disse ele, e ela soube que era uma pergunta. Tomou-lhe a mão e a dirigiu para a umidade entre as coxas.
— Sim — sussurrou ao introduzir o dedo dele dentro de si.

Toda história, no entanto, tem dois lados. Enquanto Martin alega que não tinha conhecimento dessa alteração, os showrunners David Benioff e D.B. Weiss fizeram a suas defesas, trechos que também podem ser encontrados no livro de Hibberd. A declaração de Benioff evoca uma noção de coerência: “Aqui está uma garota que está absolutamente apavorada com esse bárbaro senhor da guerra com quem ela está se casando, é a última coisa que ela quer no mundo, ainda assim, de alguma forma, no final desta noite de núpcias, ela parece estar em uma relação sexual completamente alegre com ele. Não funcionou inteiramente para nós.”

Weiss lembra também que nem todas as relações sexuais dos personagens no livro foram consensuais, de modo que não é uma característica da série a violência contra a mulher. Ainda segundo Weiss, a atriz Emilia Clarke, que interpreta Daenerys, havia concordado com a mudança, chagando a mencionar especificamente “a noite de núpcias e os problemas que ela estava tendo com isso.”

Imagem: Reprodução/HBO
Imagem: Reprodução/HBO

As adaptações também carecem do tempo que o livro esbanja para explorar a psique dos personagens e Weiss apontou para isso ao dizer que “No segundo episódio, ela tem que voltar ao relacionamento menos consensual e mais áspero. No livro isso funciona, mas simplesmente não tínhamos esse tempo e acesso à mente do personagem. Acontece muito rápido. Foi algo que os próprios atores sentiram que não estava se solidificando.”

A questão é delicada e, cada vez mais, exige esse tipo de reflexão. É importante lembrar também que se trata de uma obra de fantasia com inspirações em fatos históricos medievais e modernos, quando muitas atitudes absolutamente reprováveis eram ações comuns e, eventualmente, configuravam até mesmo um direito. Game of Thrones, a série, mostra como os dothraki viviam uma cultura completamente diferente e baseada na violência. Khal Drogo, inclusive, morre em decorrência de um seríssimo caso de masculinidade frágil.

Por outro lado, cabe também a nós, espectadores e leitores, uma aproximação crítica em que, mesmo diante de uma narrativa como essa, haja a compreensão de que tais atos são errados e que não devem ser reproduzidos, óbvio, nem mesmo romantizados. O livro traz muitas outras ideias que fazem sentido no contexto da obra, mas que são moralmente reprováveis, como a ideia de que Daenerys tinha apenas 13 anos quando é "dada em casamento" a Drogo.

Fonte: Canaltech

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