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Futuro da alimentação, foodtechs querem dominar mercado brasileiro em breve

Foodtechs têm sido cada vez mais presentes no mercado brasileiro (Divulgação/Muda Meu Mundo)
Foodtechs têm sido cada vez mais presentes no mercado brasileiro (Divulgação/Muda Meu Mundo)

Uma receita digital para hábitos alimentares cada vez mais saudáveis e atendendo às novas demandas de mercado, essas são as foodtechs, empresas que têm base tecnológica e atuam no setor de alimentação. Foi nesse ramo que a cearense Priscilla Veras se arriscou, quase de forma despretensiosa. Tudo começou quando ela se tornou mãe e precisava de produtos para uma alimentação mais saudável, pois o bebê teve intolerância ao leite. Como trabalhava no terceiro setor, conhecia muitos produtores familiares e percebeu que muita produção de qualidade não chegava à mesa dos consumidores.

“Quando eu chegava no supermercado era tão caro e aquele produtor ganhava tão pouco. Aquilo começou a me incomodar fortemente, pensando como a gente faz para essa cadeia ser mais justa. Foi quando eu descobri sobre as empresas de impacto, empresas que existem realmente com uma missão. Então, resolvi largar tudo e começar a empreender para resolver esse problema da cadeia produtiva”, conta a empresária que iniciou organizando feiras agroecológicas em Fortaleza-CE, onde morava.

O que nasceu em 2017 como uma pequena ação, ganhou o mundo da tecnologia e se tornou um “Marketplace B2B” que, desde o ano passado, também atua em São Paulo. A Muda Meu Mundo conecta pequenos produtores aos grandes varejistas, sem precisar de intermediários, fazendo com que eles tenham mais lucro e que as bancas dos supermercados tenham produtos frescos e saudáveis.

“Além de tirar todo o atrito da cadeia, conseguindo remunerar melhor o produtor e dar margem de lucro pro supermercado, a gente ainda consegue resolver os principais problemas pro produtor, que é assistência técnica focada na melhoria da produção dele, adiantamento de recebíveis, crédito e logística, que vai buscar na casa do pequeno produtor e chega diretamente no supermercado”, explica Veras, que hoje atende mais de 400 famílias, gerando renda para cerca de 2 mil pessoas do campo através da tecnologia. Destaca-se que 48% delas são mulheres chefes de família.

Essas foodtechs, em ritmo acelerado, se espalham em nosso cotidiano. São os aplicativos de delivery de comida, alimentos e bebidas inovadoras e até ferramentas de gestão para o setor. Na plataforma Startup Scanner, que mantém um mapa de monitoramento das startups brasileiras, há 396 foodtechs cadastradas, sendo 5 novas apenas no último mês.

O startup hunter Gabriel Brandão, que atua na Liga Ventures, empresa responsável pelo mapa, explica que o cenário brasileiro de foodtechs ainda não é maduro, mas diz que acredita em seu potencial. “A gente vê um movimento até cultural no Brasil e no mundo que é olhar pra parte de alimentos orgânicos e o movimento vegetariano/vegano. Então, cada vez mais, o setor é explorado, até por necessidade do nosso planeta”, pontua o especialista da plataforma que inclusive atende o Ifood, maior foodtech do país e um exemplo bem prático de como elas estão inseridas em nosso cotidiano.

A ascensão das foodtechs no Brasil deve continuar com os novos hábitos de consumo que surgiram durante a pandemia e também o investimento em novas tecnologias. Porém, os dados ainda apontam uma concentração das iniciativas nos estados do eixo sul-sudeste como São Paulo, que concentra 47,73% delas, sendo que outra grande parcela, 43,94%, está em estados próximos, como Santa Catarina e Minas Gerais.

"Eu espero que cada vez tenha mais empreendedores olhando para regiões em que as grandes empresas ainda não chegam. A gente sabe que a realidade hoje no Brasil é que a grande colheita vem do interior. Então, acho que as tecnologias vão ter que atender esse público e é importante que os empreendedores locais enxerguem essas oportunidades”, comenta Brandão.

Foi justamente pensando na necessidade de interiorizar a presença de recursos tecnológicos para alimentação que um grupo de jovens, então estudantes da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) em Juazeiro-BA, desenvolveu o aplicativo Pede.Ai em 2017. O serviço de delivery semelhante aos já nacionalmente conhecidos que, na época, atuavam apenas nas capitais, foi o primeiro a chegar em muitas cidades do interior e continua sendo único em várias de pequeno porte.

“A gente percebia que, quando olhava para o interior, não tinha essa tecnologia, essa facilidade. Em 2020, a gente iniciou um plano de expansão já mais agressivo, que coincidiu com a pandemia em um contexto de necessidade do delivery, foi quando a gente acelerou mais ainda e abriu operações, sempre em cidades de até 100 mil habitantes, onde o pessoal geralmente nos abraça muito bem. É interessante levar e chegar primeiro, as pessoas criam uma relação”, conta João Neves, diretor executivo e fundador do aplicativo que atualmente está presente em 170 cidades, espalhadas por 16 estados, e tem mais de 1 milhão de clientes cadastrados.

O cenário é otimista para as foodtechs, que têm ganhado ainda mais adesão com a mudança dos hábitos sociais, como o consumo fora do restaurante. Uma pesquisa recente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) calcula que 35% de seus estabelecimentos começaram a fazer entregas por delivery após março de 2020, impulsionados pela pandemia, mas também pela necessidade de enxugar custos e otimizar processos.

“A crescente digitalização abre espaço para que soluções que trazem produtividade, otimização de processos, eficiência e controle de custos tenham cada vez mais espaço. Ainda há muito campo para avançar, de modo especial em produtos para os micro e pequenos negócios”, comenta José Eduardo Camargo, líder de conteúdo e inteligência da Abrasel, que acredita que a chegada da tecnologia 5G deve acelerar esse processo.

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