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Furioso, Bolsonaro tira máscara, manda repórter e equipe calarem a boca, reclama da CNN e ataca a Globo

·9 minuto de leitura
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 15.06.2021 - O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 15.06.2021 - O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Num momento em que o país supera 500 mil mortes pela Covid e que é alvo de protestos a favor do impeachment, o presidente Jair Bolsonaro reagiu com agressividade a perguntas feitas a ele nesta segunda-feira (21) em Guaratinguetá, no interior de São Paulo.

Antes de interromper abruptamente uma rápida entrevista, o presidente mandou uma repórter e integrantes da sua própria equipe calarem a boca, tirou a máscara, reclamou da CNN Brasil e fez ataques à TV Globo.

O presidente se irritou inicialmente após ser lembrado que havia sido multado pelo Governo de São Paulo por não ter usado máscara de proteção durante uma motociata no último dia 12.

Após citar a utilização de capacete como justificativa naquele caso, foi questionado por chegar ao evento em Guaratinguetá sem máscara e respondeu: "Eu chego como quiser, onde eu quiser, eu cuido da minha vida. Se você não quiser usar máscara, você não usa".

A irritação do presidente ocorre num momento de pressão por uma sequência de fatos negativos ao governo.

Além das críticas diante da marca de 500 mil mortes pela Covid e dos protestos que ganharam corpo nas ruas no sábado (19), Bolsonaro teve queda de popularidade nos últimos meses, enfrenta desgaste com a CPI da pandemia no Senado e viu seu principal rival potencial para 2022, o ex-presidente Lula, ganhar projeção.

Levantamento do Datafolha em maio mostrou o petista com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro, no cenário eleitoral para o ano que vem. No segundo turno, Lula venceria por 55% a 32%.

O vídeo com a entrevista do presidente nesta segunda-feira foi postado nas redes sociais por um canal bolsonarista.

"CNN? Vocês elogiaram a passeata agora de domingo, né? Jogaram fogos de artifício em vocês e vocês elogiaram ainda", afirmou Bolsonaro a repórteres, em uma referência aos protestos do último sábado que reuniram milhares de manifestantes pelo país para pedir mais vacina e a saída do presidente.

Sobre o não uso de máscara na motociata de São Paulo, o presidente afirmou: “Eu estava com capacete balístico a prova de 762 [durante passeio de motocicleta em São Paulo no último dia 12]. Então, vou ser multado toda vez que andar de moto por aí? Porque eu sou alvo de canalhas do Brasil", disse o presidente, antes de interromper a entrevista e se dirigir a assessores posicionados atrás dele. "Dá pra calar a boca aí atrás, por favor?"

Novamente, Bolsonaro disse que era a prova viva de que o tratamento precoce funcionava, apesar da falta de comprovação científica.

“Tudo o que eu falei sobre a Covid, infelizmente, para vocês, deu certo. Tratamento precoce salvou a minha vida. Muitos jornalistas falam comigo reservadamente que usaram hidroxicloroquina e ivermectina. Por que vocês não admitem isso?”, questionou.

Em seguida, iniciou os ataques à Globo. No último sábado, o Jornal Nacional exibiu um editorial sobre a marca de 500 mil mortes por Covid. Em tom crítico ao governo, ainda que sem citar o presidente, o âncora William Bonner afirmou que "foram muitos —e muito graves— os erros cometidos".

“Vocês acham que vou me consultar com o Bonner ou com a Míriam Leitão sobre esse assunto? Parem de tocar no assunto", disse, enquanto retirava a máscara. "Me botem no Jornal Nacional agora. Vai botar agora? Estou sem máscara em Guaratinguetá. Está feliz agora? Você está feliz agora?:”

"Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa. Cala a boca, vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, canalha, que não ajuda em nada. Vocês não ajudam em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam."

“A Rede Globo não presta. É um péssimo órgão de informação. Se você não assiste à Globo, você não tem informação. Se você assiste, está desinformado. Você tinha que ter vergonha na cara por prestar um serviço porco desse que você faz na Rede Globo. Obrigado”, finalizou, interrompendo a entrevista.

Na chegada ao evento de formatura de novos sargentos da Aeronáutica, o presidente foi hostilizado ao descer do carro. Algumas pessoas o chamaram de genocida e de palhaço.

No dia 11 de junho, ao entrar em um avião comercial que estava parado no aeroporto de Vitória, parte dos passageiros gritou “fora, Bolsonaro” e também o chamou de genocida.

Em nota sobre o episódio desta segunda-feira, a Globo e sua afiliada repudiaram o tratamento dado pelo presidente à repórter Laurene Santos. “Não será com gritos nem intolerância que o presidente impedirá ou inibirá o trabalho da imprensa no Brasil. Esta, ao contrário dele, seguirá cumprindo o seu papel com serenidade”, diz o comunicado, ao prestar solidariedade à jornalista.

Durante a edição do "CNN 360", a apresentadora Daniela Lima falou em nome da emissora, criticou a escalada do presidente contra a imprensa e afirmou que ele segue insistindo em dados que são falsos.

"É essa escalada do presidente contra a imprensa, contra a jornalista TV Globo, que a gente repudia", afirmou.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) também se manifestou. Em nota, pediu a renúncia do presidente. “Com seu destempero, Bolsonaro mostrou ter sentido profundamente o golpe representado pelas manifestações do último sábado. Elas desnudaram o crescente isolamento de seu governo.”

No início da noite, após a repercussão da fala de Bolsonaro, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou em uma rede social que a imprensa deve ser respeitada.

“A Covid, as mortes e os reflexos sobre o país, embora possam aflorar maus sentimentos, impõem absoluta necessidade de união em torno de soluções. Parte fundamental desse esforço é a imprensa, que deve ser respeitada e livre para cumprir o dever de informar, mesmo na divergência”, publicou sem citar diretamente o episódio desta terça.

Em nota, a maioria dos membros da CPI da Covid (7 dois 11 titulares) manifestou solidariedade à jornalista e classificou a reação do presidente como "no mínimo, desproporcional".

"Tentar calar e agredir a imprensa é típico de fascistas e de pessoas avessas a democracia brasileira", afirma o texto.

"Asseguramos que os responsáveis pagarão por seus erros, omissões, desprezos e deboches. Não chegamos a esse quadro devastador, desumano, por acaso. Há culpados e eles, no que depender da CPI, serão punidos exemplarmente. Os crimes contra a humanidade, os morticínios e os genocídios não se apagam e nem prescreveram."

O documento é assinado pelo presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), pelo vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e pelo relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL).

Os titulares Tasso Jereissati (PSDB-CE), Otto Alencar (PSD-BA), Eduardo Braga (MDB-AM) e Humberto Costa (PT-PE) e os suplentes Rogério Carvalho (PT-SE) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) também subscrevem o documento. ​

Desde o início do seu governo, Bolsonaro interrompe entrevistas ou ataca jornalistas quando confrontado com temas incômodos.

Em maio de 2020, ele mandou repórteres calarem a boca após ser questionado sobre mudanças na Polícia Federal. Em agosto daquele ano, disse para um jornalista que "a vontade é encher tua boca com uma porrada" ao ser indagado sobre os depósitos feitos pelo ex-policial militar Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, no início da entrevista, Bolsonaro lamentou as mortes por Covid no país e ressaltou que sempre defendeu o tratamento precoce.

“Lamento todos os óbitos. Muito. É uma dor na família. E nós, desde o começo, o governo federal teve coragem de falar em tratamento precoce. Como está sendo conduzida essa questão parece até que é melhor se consultar com jornalistas do que com médicos”, ironizou.

O presidente disse que é a primeira vez na história que se busca atender pessoas depois de estarem hospitalizadas. “Sempre se falou em tratamento precoce, para mulher, para homem. Os médicos sempre falam dessa maneira. Não sei porque aqui você não pode falar de tratamento precoce no Brasil."

O presidente também voltou a citar um documento do TCU (Tribunal de Contas da União) que menciona uma suposta supernotificação de casos da Covid-19 no Brasil.

Segundo o TCU, o documento era uma análise pessoal de um servidor, que havia sido compartilhada para discussão e não integrava processos oficiais. A corte investiga o auditor responsável pela divulgação.

Durante evento de formatura, Bolsonaro ficou uma parte do tempo sem usar máscara. No discurso de apenas três minutos, não fez menções à pandemia e nem abordou questões políticas.

Mais cedo nesta segunda-feira, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, Bolsonaro associou as passeatas de sábado em todo o país aos "petralhas", como apoiadores do PT são pejorativamente chamados por adversários.

"Eu acho que eu vou acabar com as manifestações dos petralhas. Comam mortadela, pessoal, faz bem à saúde. Comam mortadela, que faz bem à saúde. Vai acabar com as manifestações. Entendeu a jogada? Porque tudo que eu apoio é o contrário, então, estou apoiando agora o consumo de mortadela no Brasil", disse.

Segundo organizadores dos atos de sábado, houve maior adesão em relação aos protestos de 29 de maio, também de oposição ao governo Bolsonaro.

As manifestações ocorreram no mesmo dia em que o país atingiu a marca de 500 mil mortos pela Covid. Na última semana, houve média de cerca de 2.000 mortos por dia pelo coronavírus Sars-CoV-2. A média diária de novos casos está em torno de 70 mil, o que deixa o atual momento entre os piores da pandemia.

Mesmo diante desse cenário, houve aglomeração de manifestantes em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, apesar das recomendações de organizadores pelo distanciamento social durante os atos. A grande maioria dos manifestantes usou máscaras, ao contrário do que ocorre em atos bolsonaristas.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) também foi questionado nesta segunda-feira sobre as 500 mil mortes por Covid no Brasil. Para ele, há uma questão social que agrava o quadro no país.

"É muito triste você perder esta quantidade de vidas. É uma doença difícil e é o retrato da desigualdade socioeconômica que nós sofremos", afirmou pela manhã, ao chegar à Vice-Presidência.

"Tem gente que tem tratamento melhor, tem gente que não tem, tem gente que não consegue chegar no hospital. Então, é consequência dessa situação que a gente vive e que nós temos que corrigir", disse.

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