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Fundos mútuos da Argentina bloqueiam saques diante de debandada

Ignacio Olivera Doll, Jonathan Gilbert e Aline Oyamada
População de Buenos Aires protesta contra o presidente Mauricio Macri (Foto: Carol Smiljan/NurPhoto via Getty Images)

Desde o momento em que Jorge Garbero entrou em seu escritório no Banco Nación em Buenos Aires, na quinta-feira, seu telefone não para de tocar. São ligações de clientes de fundos mútuos, desesperados para resgatar seus investimentos.

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"Tem sido um dilúvio", disse Garbero, enquanto almoçava no centro da cidade.

Na noite anterior, o governo do presidente Mauricio Macri anunciou que investidores de títulos locais precisariam aceitar vencimentos mais longos como parte de uma série de medidas destinadas a estancar as saídas de capital e estabilizar o peso em meio à crise financeira cada vez mais profunda.

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A corrida pelos saques foi tão intensa que mais de uma dúzia de fundos mútuos locais informou aos órgãos reguladores que estavam suspendendo temporariamente os resgates. A reação nos mercados externos também foi rápida. Títulos da Argentina denominados em dólar despencaram para meros 40 centavos, e o índice acionário de referência atingiu o menor nível em dois anos. No fim do dia, a S&P Global Ratings disse que a extensão forçada dos vencimentos dos títulos locais caracterizava um “default seletivo”.

"Por enquanto, há muita incerteza para que os investidores se sintam confortáveis", disse James Barrineau, chefe de dívida de mercados emergentes da Schroders. "Acredito que o governo quis primeiro estancar o sangramento no mercado local para depois resolver questões mais amplas da dívida."

O plano de Macri de adiar os pagamentos de US$ 101 bilhões em dívidas parece ter ajudado o peso - depois de cair inicialmente, a moeda terminou o dia em cotação um pouco mais alta. Mas ainda não se sabe se a aposta ajudará a evitar mais uma dolorosa reestruturação em um país que ganhou reputação de inadimplente crônico no último século. (Em 2001, a Argentina causou perdas aos credores com o maior default da história, suspendendo os pagamentos de US$ 95 bilhões em títulos de dívida.)

Não se sabe se Macri conseguirá ser bem-sucedido em sua tentativa de diminuir a pressão financeira enfrentada por seu governo. A Argentina espera adiar pagamentos de US$ 7 bilhões em títulos de curto prazo com vencimento até o fim do ano, US$ 20 bilhões em títulos regidos pela lei local e US$ 30 bilhões em títulos sob lei estrangeira.

As reservas internacionais da Argentina diminuíram em US$ 10 bilhões nos últimos 30 dias, incluindo uma redução de US$ 900 milhões só na quinta-feira, para menos de US$ 60 bilhões.

Os fundos mútuos congelaram as operações em meio às discussões com o governo sobre como reduzir os resgates de investidores de varejo e, no final do dia, os reguladores anunciaram que pessoas físicas com investimentos em títulos de fundos mútuos estariam isentos da rolagem.

"Daqui para frente, devemos entrar em uma difícil dinâmica de resgate", disse Fernando Caffa, sócio do Compass Group, que administra fundos mútuos em Buenos Aires.

O problema se estende além das pessoas físicas. Pequenas e médias empresas que investiram em fundos mútuos para aumentar o capital também querem realizar saques, segundo Caffa.

*Com a colaboração de Philip Sanders, Justin Villamil, Carolina Millan e Julia Leite.