Mercado fechado

Funcionários da Samsung terão sindicato pela 1ª vez em 50 anos

Por Kang Jin-kyu
Funcionário da Samsung Electronics com folheto do novo sindicato, em 19 de novembro de 2019

Sob o olhar atento dos agentes de segurança, Ko Jee-hun distribui folhetos na entrada de uma fábrica de semicondutores da Samsung Electronics, gigante da tecnologia sul-coreana cujos trabalhadores poderão entrar em um sindicato pela primeira vez em quase 50 anos.

Durante anos, essa empresa, a mais importante de várias companhias que compõem o conglomerado Samsung, fez tudo o que foi possível para evitar sindicatos, apesar de ser a maior fabricante mundial de smartphones e semicondutores.

Na semana passada, as autoridades da cidade de Suwon, onde está sediada, finalmente certificaram o nascimento da União Nacional da Samsung Electronics.

O novo órgão faz parte da poderosa federação coreana de sindicatos (FKTU).

"O que está em jogo é muito mais do que salários", diz o vice-secretário geral do sindicato, Ko Jee-hun. "Pedimos comunicação e que nossa voz seja ouvida. Não somos apenas componentes", afirma.

Os folhetos que ele distribui contêm vários personagens que abordam questões como férias, intervalos para alimentação, cancelamento de bônus sem aviso prévio, ou aposentadoria antecipada.

Os agentes de segurança não deixaram Ko Jee-hun ficar perto da entrada da fábrica de Hwaseong, a cerca de 50 quilômetros ao sul de Seul, e ele precisou ficar um pouco mais longe para entregar os folhetos aos trabalhadores que passavam.

"A batalha está apenas começando", acrescentou.

Antes de ser oficialmente registrado, 400 funcionários da Samsung Electronics já estavam interessados em ingressar, de acordo com a federação da FKTU.

O sindicato estabeleceu a ambiciosa meta de atingir 10.000 membros, quase 10% da força de trabalho.

A Samsung Electronics é a principal empresa da Samsung, um dos principais "chaebol" da Coreia do Sul - grandes conglomerados com todos os tipos de empresas controladas por famílias numerosas que caracterizam a economia do país.

O fundador da Samsung, Lee Byung-chul, que morreu em 1987, era um forte opositor dos sindicatos, que existiriam "só por cima do meu cadáver" - como costumava dizer.

Documentos vazados em 2012 por um deputado sul-coreano revelaram que os executivos da Samsung foram instruídos a controlar o "pessoal problemático" que tentasse criar sindicatos.

"Para evitar reclamações sobre práticas trabalhistas injustas, demitam os principais organizadores antes que haja um sindicato", diziam os documentos.

Agora, as coisas mudaram, em parte graças ao presidente Moon Jae-in, que lidera um governo favorável aos trabalhadores e que, quando era advogado, representava vários sindicatos.

"O nível de repressão está muito mais fraco do que antes", diz Ko. "Acho que a empresa está sendo muito cautelosa com as possíveis repercussões", completou.

Questionada pela AFP, a Samsung Electronics se recusou a fazer comentários.