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'Fui abusada na infância e escravizada aos 14 anos', diz Malu Mello, chef de celebridades

·3 minuto de leitura

"Venho de uma família muito humilde. Nasci na roça, em Paty do Alferes. Meu pai era agricultor e minha mãe, dona de casa. Sou a caçula de oito irmãos. Onde nasci, não tinha TV, telefone nem asfalto. Água, só a de poço. Vivíamos distantes de tudo. Desde criança, me dei conta de que só sairia daquela realidade por meio do estudo. Dos 7 aos 13 anos, fui abusada sexualmente por um parente. E ele não foi o único: também fui molestada por um vizinho e até por um juiz, que se aproveitou da inocência de uma criança que nunca tinha tido uma boneca. Ele veio com um ursinho de pelúcia, sentou-me no seu colo e me fez sentir seu pênis ereto. Não sabia o que aquilo significava, mas não ficava confortável. Os abusos se agravaram porque, naquela fase, meu pai precisou realizar uma cirurgia de coluna num hospital na capital. Minha mãe teve que acompanhá-lo e nós ficamos sozinhos, sendo ‘olhados’ por conhecidos. Só consegui falar sobre esse assunto aos 30 anos, num retiro espiritual. Dói muito até hoje.

Quando fiz 14, surgiu a chance de ir para o Rio, trabalhar na casa de um casal de advogados. Minha função seria tomar conta dos filhos pequenos. Não hesitei em partir, queria escapar dos abusos. Porém, quando cheguei lá, vivi em condições análogas à escravidão. Acordava às 4h30, servia o café, colocava e tirava a mesa, fazia o almoço, lavava roupa, levava e buscava as crianças no colégio, cozinhava o jantar. À noite, estudava. Dormia à 1h da manhã e no, dia seguinte, começava tudo de novo. Recebia menos do que um salário mínimo e não tinha folgas nem aos finais de semana. No colégio, fiz amizade com um rapaz chamado Bruno, que me chamou para ir morar com a família dele, na favela. Fui embora sem olhar para trás. A casa tinha apenas um cômodo, mas muita solidariedade. Fiquei lá por um tempo até voltar para minha cidade, onde me formei no Normal. Já cozinhava desde criança, mas comecei a fazer bolo e empadão para pagar a formatura.

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Aos 18 anos, engravidei de Maria Victória do meu primeiro namorado. Depois, me casei (com outro namorado), tive minha segunda filha, Maria Clara, e me separei. Entre altos e baixos, me formei em Administração. E, graças aos doces e bolos, pude quitá-la. Aos 23, deixei as meninas com minha mãe e fui para o Rio. Trabalhei com corretagem até que, em 2011, abracei meu sonho: estudar Gastronomia. Estagiei na cozinha de grandes chefs, como Felipe Bronze, e fiz curso de culinária francesa com Laurent Suaudeau. Hoje, aos 37, tenho um catering, em que atendo famosos como Marina Ruy Barbosa e Petra Gil, crio marmitas personalizadas e dou consultoria para restaurantes, como o Le Vélo Montagne. Levo uma vida boa ao lado das minhas filhas. A cozinha me conecta com a minha família: sem minhas raízes, erros e acertos, não teria chegado até aqui.”

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