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Fuga de investidores do Brasil mais que dobra neste ano

FERNANDO CANZIAN
·4 minutos de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A fuga de investidores estrangeiros do Brasil das aplicações de risco em 2020 deve mais do que dobrar em relação ao registrado em 2019. O saldo entre aplicações e retiradas de não residentes ficará negativo em US$ 24 bilhões (R$ 134 bilhões) entre janeiro e dezembro. Em 2019, saídas somaram US$ 11,1 bilhões (US$ 62 bilhões). Para investimentos direcionados ao setor produtivo, geralmente de longo prazo e voltados à ampliação de empresas comerciais e industriais, o Brasil também atrairá bem menos dinheiro neste ano: cerca de US$ 49 bilhões, ante US$ 73 bilhões em 2019. Somando diferentes tipos de entradas e saídas, o Brasil terá fluxo positivo de dinheiro estrangeiro em 2020 de apenas US$ 11 bilhões, bem abaixo dos US$ 59 bilhões de 2019. Segundo previsões atualizadas do IIF (Institute of International Finance), que reúne 450 bancos e fundos de investimento em 70 países, as maiores saídas de capital do Brasil estão concentradas em ações e outros títulos de empresas, cujo saldo somará cerca de US$ 18 bilhões. Em 2019, as retiradas nesses itens foram de apenas US$ 2,7 bilhões. O restante das saídas, aproximadamente US$ 6 bilhões, referem-se a investidores que deixaram de aplicar, principalmente, em títulos relacionados ao endividamento do país, como papéis da dívida pública. No ano passado, esses saques já haviam atingindo US$ 8,4 bilhões. A redução se dá em um ano em que os países ricos lançaram pacotes trilionários para injetar liquidez na economia --um dinheiro que, em muitos casos, acaba "vazando" para economias que oferecem boas chances de retorno. Não foi esse o caso do Brasil. Segundo Martín Castellano, chefe do departamento de pesquisas do IIF para a América Latina, a desvalorização do real em relação ao dólar até tem tornado os ativos brasileiros baratos para investidores. No acumulado deste ano, o dólar se valoriza quase 40% frente o real. Em uma situação normal, seria a hora de os estrangeiros comprarem ações e títulos brasileiros, desembolsando menos dólares para adquirir ativos em reais. A situação das contas públicas do Brasil, no entanto, tem desencorajado esse movimento --e estimulado os saques. Para os investidores, o risco seria comprar o ativo hoje e o real se desvalorizar ainda mais; ou a Bolsa embicar para baixo em um eventual quadro de desarranjo macroeconômico provocado pelo alto endividamento do setor público. "A fragilidade fiscal continua sendo o calcanhar de Aquiles do Brasil. Ao contrário de outros países na região, o mecanismo de controle do gasto público brasileiro ainda é muito novo e está para ser testado", diz Castellano, referindo-se ao teto de gastos, que limita a correção das despesas públicas à inflação de 12 meses anteriores. "A percepção de investidores sobre a habilidade do governo em manejar a situação fiscal no resto deste ano e em 2021 será fundamental para determinar o comportamento dos investidores mais à frente." As últimas semanas, marcadas por desentendimentos no governo Jair Bolsonaro sobre manter ou não o teto de gastos para criar programas sociais, não ajudaram. Para Castellano, o Brasil entrou na pandemia da Covid-19 bem mais fragilizado do que outros emergentes devido ao seu alto endividamento público como proporção do PIB (Produto Interno Bruto). Embora a reação de governo e do Congresso Nacional tenha sido efetiva para conter uma queda acentuada da atividade, medidas como o auxílio emergencial pago a mais de 60 milhões de brasileiros levaram a uma explosão do déficit estatal e ao rápido aumento da dívida pública. Entre janeiro e agosto, o déficit primário (sem contar juros) do setor público consolidado foi de 12,1% do PIB, ante apenas 0,46% em igual período de 2019, num salto de R$ 549 bilhões. Só o auxílio emergencial pago entre abril e agosto somou R$ 213 bilhões. Isso fez com que a dívida pública bruta saltasse de 75,8% do PIB no final de 2019 para 88,8% em agosto --com previsão de chegar a 95% do PIB no final do ano. "Embora haja alguns sinais de que as despesas maiores foram transitórias, há dúvidas sobre se o Brasil manterá os gastos elevados de forma mais permanente ou não. Se haverá ou não uma deterioração maior das contas públicas", diz Castellano. Nas últimos meses e semanas, investidores domésticos também passaram a desconfiar cada vez mais das intenções do governo Bolsonaro em relação ao manejo das contas públicas e à manutenção do teto --e passaram a exigir juros maiores para refinanciar a dívida pública em prazos cada vez mais curtos. Em um ano, os vencimentos em doze meses de papéis da dívida pública praticamente dobraram, de R$ 553 bilhões para R$ 1,02 trilhão, atingindo quase 25% da dívida total. Apesar de a taxa básica, a Selic, estar fixada em 2% ao ano, o mercado já exige mais que o dobro disso para comprar papéis do Tesouro Nacional com prazos de dois anos. Embora o Brasil seja um dos países mais afetados pela saída de investidores por causa de seu alto endividamento, vários outros emergentes vêm sofrendo pressão por gastos para confrontar a pandemia. A expectativa é que muitos deles, mais cedo do que tarde, voltem a elevar taxas de juros hoje em níveis historicamente baixos para continuar atraindo investidores domésticos e estrangeiros.