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Frustração com cessão onerosa pressiona câmbio e dólar bate R$ 4,09

Marcelo Osakabe

Havia ainda alguma expectativa com a 6ª rodada do pré-sal, realizada hoje, mas esta também decepcionou A frustração com o resultado do leilão do excedente da cessão onerosa manteve pressionado o real neste pregão, levando a moeda brasileira a contrariar o clima de otimismo no exterior e ceder terreno contra o dólar. Após certame de ontem, algumas casas que antes ainda apostavam que o dólar poderia encerrar o ano abaixo do patamar de R$ 4,00 já começam a rever suas projeções.

No encerramento dos negócios, o dólar era negociado a R$ 4,0914, alta de 0,25%. Contra os demais pares emergentes, o entanto, a direção foi contrária: no mesmo horário, a moeda americana cedia 0,42% frente ao rand sul-africano, 0,38% contra o rublo russo e 0,25% ante o dólar australiano.

Como pano de fundo desse otimismo lá fora está a confirmação de que os Estados Unidos concordaram em revogar ao menos parte das tarifas já em vigor sobre produtos chineses. A notícia fez disparar os juros dos Treasuries americanos e levou os índices acionários em Nova York e também no Brasil a anotarem novas máximas históricas.

No Brasil, por outro lado, continua repercutindo a frustração com o leilão de ontem. Havia ainda alguma expectativa com a 6ª rodada do pré-sal, realizada hoje, mas esta também decepcionou: apenas um dos cinco campos ofertados foi arrematado e novamente com participação majoritária da Petrobras.

Como o fim de ano é tradicionalmente um período de saída de recursos do Brasil, a avaliação é que acabou a janela para apreciação do câmbio. “[O leilão] era o último evento que poderia fazer preço no câmbio. Agora não tem mais”, diz Vitor Carvalho, sócio e Gestor da Laic.

Segundo a última pesquisa Focus, a mediana da projeção das instituições é de R$ 4,00 no fim de 2019. No entanto, algumas casas ainda enxergavam espaço adicional para queda, cenário que ficou mais distante no momento.

CC0 Creative Commons / Pixabay

Uma delas é a GO Associados, que revisou hoje sua projeção de R$ 3,90 para R$ 4,00. “Houve uma decepção relativa com o resultado do leilão”, diz Alexandre Lohmann, economista da casa.

O Mizuho foi outra instituição que alterou sua projeção de fim de ano, de R$ 4,00 para R$ 4,05. “Antes, o viés para nossa projeção era para baixo. Agora, é par cima”, diz o estrategista-chefe do Banco no Brasil, Luciano Rostagno.

Os analistas consultados, no entanto, ressaltam que a decepção de ontem deve se mostrar apenas um ruído de curto prazo, que não afeta a perspectiva de médio prazo nem para o Brasil. “O que vai atrair capital para o Brasil são as concessões e privatizações, e o governo está trabalhando nisso. [O resultado de ontem] não foi bom, mas não muda a perspectiva futura, somente a de curto prazo.”

Mesmo no curto prazo, porém, outras forças podem se contrapor à frutração com o fluxo que não virá, impedindo que o dólar se valorize demais nas próximas semanas, avaliam alguns profissionais.

Para a economista-chefe do J.P. Morgan no Brasil, Cassiana Fernandez, a recuperação ainda que gradual da atividade doméstica, a melhora no sentimento sobre a guerra comercial entre China e Estados Unidos e as contas externas ainda sólidas vão ajudar a manter o câmbio ao redor do nivel atual até final do ano.

Como resultado, o J.P. Morgan, uma das instituições que mais acertam suas projeções para a taxa de câmbio na pesquisa Focus, manteve sua estimativa R$ 4,10 para o fim do ano e R$ 4,20.

Essa mesma visão leva outra instituição no Top 5 de médio prazo do câmbio, a Tendências, a manter sua expectativa de R$ 4,00 no fim do ano. Segundo Silvio Campos Neto, economista da consultoria, o ajuste dos últimos dias é “natural”, mas o cenário é positivo e a agenda econômica ainda progride “aos trancos e barrancos, mas está na direção correta”.

Sendo assim, ele acredita que visão sobre o Brasil ainda deve melhorar, o que deve atrair recursos para o país no futuro.