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Ford vai fechar todas as fábricas no Brasil e encerrar produção no país

EDUARDO SODRÉ
·9 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Ford anunciou nesta segunda-feira (11) que vai encerrar todas as atividades fabris no Brasil neste ano. A empresa começou o ano de 2020 com 8.000 funcionários no Brasil. De lá para cá, a companhia foi realizando desligamentos. Hoje, conta com 6.171 contratados. A Ford anunciou que serão demitidos 5.000 trabalhadores no Brasil e na Argentina, sem dar detalhes. O grupo remanescente no mercado brasileiro vai manter algumas operações locais. A sede da montadora na América do Sul continuará sendo no Brasil, e o campo de provas de Tatuí, bem como o centro de desenvolvimento da Bahia continuam operando. De acordo com a consultoria Bright, especializada no setor automotivo, 84,9% dos 138 mil carros vendidos pela Ford no Brasil em 2020 foram produzidos no país. A montadora fechou o ano passado com 7,1% de participação no mercado, índice que vinha em queda nos últimos anos. Ficou no quinto lugar em vendas de carros de passeio e veículos comerciais leves, atrás de General Motors (17,35%), Volkswagen (16,8%), Fiat (16,5%) e Hyundai (8,6%). ​Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 4,1 bilhões em despesas não recorrentes, incluindo cerca de US$ 2,5 bilhões em 2020 e US$ 1,6 bilhão em 2021. Aproximadamente US$ 1,6 bilhão será relacionado ao impacto contábil atribuído à baixa de créditos fiscais, depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 2,5 bilhões impactarão diretamente o caixa e estão, em sua maioria, relacionados a compensações, rescisões, acordos e outros pagamentos. A montadora já havia encerrado a produção na fábrica de São Bernardo do Campo (ABC), que foi vendida para a Construtora São José. Agora, a empresa confirma a interrupção imediata das atividades em Camaçari (BA), onde produz os modelos Ka e EcoSport. Em nota, o governo da Bahia lamentou a saída da Ford do Brasil e diz que já busca alternativas para substituir a montadora americana. “O governo do estado lamenta o encerramento da produção nas plantas da Ford em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e da Troller, em Horizonte (CE). O governo destaca os impactos socioeconômicos consequentes do fechamento da empresa, importante geradora de empregos e renda no estado”, diz o texto. A nota também informa que o governador Rui Costa, assim que soube da decisão, entrou em contato com a Fieb (Federação das Indústrias do Estado da Bahia) para discutir a formação de grupo de trabalho com a proposta de avaliar alternativas ao fechamento. “O governo estadual também entrou em contato com a Embaixada Chinesa para sondar possíveis investidores com interesse em assumir o negócio na Bahia”, destaca o texto da nota. A unidade de Taubaté (interior de São Paulo), que fabrica motores e transmissões, e em Horizonte (CE), unidade em que produz o utilitário Troller T4, serão fechadas ao longo do ano. O governador de São Paulo João Doria se manifestou em sua rede social. "Lamento decisão da Ford de encerrar sua produção de automóveis no Brasil. A medida afeta o fechamento de fábricas no Ceará, Bahia e SP. Foi decisão global da Ford Motors", escreveu no Twitter, destacando que seriam mantidos 700 trabalhadores no estado, uma parte em Tatuí, onde está o campo de provas, e outra, na capital. Após o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo, a Ford optou por transferir sua sede para a cidade de São Paulo. O endereço do novo local não chegou a ser divulgado, pois a inauguração foi adiada devido a pandemia. A aérea administrativa está hoje trabalhando em regime de home office. Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté convocou uma assembleia de emergência em frente à fábrica para discutir ações em conjunto com os trabalhadores. A plenária teve início 17h30. A unidade tem cerca de 830 funcionários. Em nota, a prefeitura de Taubaté também disse lamentar o fechamento da planta da Ford "e a consequente demissão dos 830 funcionários, entendendo que a crise econômica mundial tem reflexos na cidade". A gestão municipal afirmou que a cidade não pode arcar sozinha com o prejuízo do encerramento das atividades da fábrica. "Ainda nesta semana, o Executivo terá reuniões com representantes do Sindicato dos Metalúrgicos e do governo do Estado para buscar alternativas", diz a nota. Em comunicado, a empresa afirma que “atenderá a região com seu portfólio global de produtos, incluindo alguns dos veículos mais conhecidos da marca como a nova picape Ranger produzida na Argentina, a nova Transit, o Bronco, o Mustang Mach 1, e planeja acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados.” Em nota, a Anfavea (associação das montadoras) disse que não vai comentar sobre o fechamento das fábricas da Ford no Brasil. “Trata-se de uma decisão estratégica global de uma das nossas associadas. Respeitamos e lamentamos. Mas isso corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano, sobre a ociosidade da indústria (local e global) e a falta de medidas que reduzam o Custo Brasil." Na Bolsa de Nova York, as ações da Ford fecharam em alta de 3,33%, a US$ 9,30 (R$ 51,18) cada. O índice S&P 500 cedeu 0,66%. * HISTÓRIA A montadora chegou no país há mais de cem anos, oficialmente. Foi a primeira grande fabricante de veículos a se instalar no Brasil, que vivia a pré-história do automóvel. O termo montadora vem daí: os veículos vinham aos pedaços dos EUA, cabia aos operários encaixar as peças. A autorização para o início das operações no centro de São Paulo foi dada no dia 24 de abril de 1919. Os US$ 25 mil disponibilizados vieram da Argentina, primeiro país sul-americano a receber instalações da empresa. O ano do centenário marcou o fim da produção de caminhões da empresa no Brasil e o adeus dos modelos Fiesta e Focus. O primeiro sucesso no país foi um modelo de porte compacto, o Ford Modelo T. Graças a ele, a empresa passou dos 12 funcionários de 1919 para cerca de 130 em 1924, ano em que foram feitos 5.000 veículos entre carros, caminhões e tratores. O interesse pelo automóvel crescia no Brasil e, entre 1925 e 1927, a Ford inaugurou linhas de montagem em Recife, Porto Alegre e Rio. O Modelo A, mais conhecido como Fordinho, surgiu na época e logo virou o mais vendido do país. Os negócios foram bem até 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York e a crise no Brasil à beira da Revolução de 1930 mudaram o cenário. Nos anos seguintes, foram fechadas as linhas de montagem fora de São Paulo. As dificuldades no Brasil e no exterior fizeram a marca pensar em nacionalizar componentes. Os planos ganharam corpo durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A produção ficou parada em grande parte desse período, por queda na demanda e falta de peças. Com o fim do conflito, o mercado brasileiro começa a receber os carros compactos que fazem parte da reconstrução da Europa. Um desses modelos é o inglês Ford Prefect, que chega por volta de 1947. Em 1953, a montadora se muda para o bairro do Ipiranga (zona sul de São Paulo). Dois anos depois, começa o processo de nacionalização, com cabines de picapes e caminhões feitas com aço de Volta Redonda (RJ). A notoriedade da marca se consolidou com o lançamento de seu primeiro carro produzido no Brasil, o sedã grande Galaxie 500. O modelo transformou a Ford em referência de luxo. Aquele 1967 teve outro marco: a montadora adquiriu o controle da Willys-Overland do Brasil e assumiu as fábricas de São Bernardo do Campo (ABC) e de Taubaté (interior de São Paulo). Os carros em desenvolvimento pela Willys vieram junto: em 1969, chegava às lojas o Ford Corcel, desenvolvido em parceria com a Renault. Essa configuração de empresa perdurou nos anos seguintes. A grande mudança ocorreu em 1987, com o estabelecimento da Autolatina, parceria regional com a alemã Volkswagen. Foi uma década ruim para a montadora americana, que perdeu mercado e teve de se reerguer com o lançamento do primeiro Fiesta nacional, em 1996.​ NACIONALIZAÇÃO COMEÇOU NOS ANOS 1950 1919 A diretoria da Ford Motor Company aprova a criação da filial brasileira, no início com 12 funcionários, na rua Florêncio de Abreu, centro de São Paulo. O Modelo T e o caminhão TT são montados com peças importadas dos EUA 1920 Um antigo rinque de patinação na praça da República, no centro de São Paulo, se torna a nova sede da Ford no Brasil 1921 Sede da Ford se muda para um prédio próprio no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo, onde é construída a nova linha de montagem 1923 Com 124 funcionários, a Ford atinge a capacidade anual de produção de 4.700 carros e 360 tratores 1925 Ford inaugura uma linha de montagem no Recife (PE) 1926 Modelos da marca americana começam a ser montados em Porto Alegre (RS) 1927 Ford inaugura um centro de treinamento para mecânicos em São Paulo e uma linha de produção no Rio 1942 Montagem nacional é interrompida devido à Segunda Guerra Mundial, e a Ford inicia os planos para nacionalizar componentes 1953 É inaugurada a nova fábrica da Ford no Brasil, no bairro do Ipiranga (zona sul de São Paulo) 1955 Ford passa a produzir cabines de picapes e caminhões feitas com aço de Volta Redonda (RJ) 1956 Com o programa de desenvolvimento da indústria estabelecido no governo de Juscelino Kubitschek (1902-1976), a Ford se concentra na nacionalização de seus produtos 1967 Montadora adquire o controle acionário de Willys-Overland do Brasil e assume as fábricas de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo) e de Taubaté (interior de São Paulo) 1976 Ford inaugura sua nova fábrica de tratores, em São Bernardo do Campo 1977 É aberto o campo de provas de Tatuí (interior de São Paulo) 1979 Montadora confirma a produção de veículos movidos a álcool 1987 Surge a Autolatina, parceria regional entre Ford e Volkswagen 1989 O motor 1.8 da VW passa a equipar as linhas Escort e Del Rey 1996 Fábrica de motores e transmissões de Taubaté é reinaugurada 2001 Ford inicia as operações em sua nova fábrica, na cidade de Camaçari (BA). A unidade tem capacidade para produzir 250 mil veículos por ano 2019 Encerramento da produção em São Bernardo do Campo (SP)