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'Fomos além do que somos obrigados a fazer', diz Bolsonaro sobre falta de oxigênio em Manaus

RICARDO DELLA COLETTA
·4 minuto de leitura
BRASILIA, DF,  BRASIL,  27-01-2021 O presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa ao sair do Ministério da Economia, após reunião com o ministro Paulo Guedes (Economia). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASILIA, DF, BRASIL, 27-01-2021 O presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa ao sair do Ministério da Economia, após reunião com o ministro Paulo Guedes (Economia). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta quarta-feira (27) que o governo federal foi além da sua obrigação no colapso da saúde pública em Manaus. A crise eclodiu em 14 de janeiro, quando a falta de oxigênio em hospitais da cidade levou à morte de pacientes com Covid-19.

"Questão lá de saúde [em Manaus]: nós demos dinheiro, recursos e meios. Não fomos oficiados por ninguém do estado na questão do oxigênio. Foi uma sexta-feira [8 de janeiro] a White Martins [fornecedora de oxigênio hospitalar]. Na segunda [11] estava lá o ministro [da Saúde, Eduardo Pazuello]. Atualmente está equalizada a questão lá. Agora no estado tem que ter gente para prever quando vai faltar uma coisa ou não, para tomar providência. Nos fomos além daquilo que somos obrigados a fazer", declarou o presidente, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. A fala do presidente foi transmitida por um site bolsonarista.

Apesar da afirmação de Bolsonaro de que não houve ofício das autoridades estaduais, o ministro Pazuello foi avisado sobre a escassez crítica de oxigênio em Manaus por integrantes do governo do Amazonas, pela empresa que fornece o produto e até mesmo por uma cunhada sua que tinha um familiar "sem oxigênio para passar o dia".

Em um evento público em Manaus em 11 de janeiro, Pazuello ouviu do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC): "Aí a gente começa a viver outro drama. Na quinta-feira [7], a principal empresa fornecedora nos comunicou que não tinha mais capacidade de fornecer oxigênio na quantidade que a gente precisava. Ela nos disse: 'Parem de abrir leitos.'"

Além disso, em 8 de janeiro a fornecedora White Martins reencaminhou ao Ministério da Saúde um ofício enviado ao governo do Amazonas. No documento, a empresa diz que "o imprevisto aumento da demanda ocorrido nos últimos dias agravou consideravelmente a situação de forma abrupta". Essa demanda superava e muito a quantidade contratada pela Secretaria Estadual de Saúde.

Questionado, o governo do Amazonas disse que alertou autoridades federais. Em 7 de janeiro, "o secretário de estado da Saúde, Marcellus Campelo, ligou para o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, relatando a questão e pedindo apoio logístico para trazer carga de oxigênio de Guarulhos e de Belém à capital amazonense", afirma o governo estadual.

"Também no dia 7 de janeiro, a Secretaria Estadual de Saúde enviou ao Comando Militar da Amazônia o ofício n°145, pedindo apoio logístico para o transporte de O2 de Belém para Manaus", acrescenta. O governo do Amazonas diz que a White Martins garantiu em 13 de janeiro que tinha insumo suficiente para garantir o abastecimento hospitalar no dia seguinte, mas que voltou atrás "horas depois". "Surpreendendo as autoridades de saúde com a informação de que o insumo não seria suficiente para o dia seguinte, o que gerou o desabastecimento pontual."

O colapso na saúde em Manaus e e as acusações de omissão por parte de Pazuello levaram o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), a determinar a instauração de inquérito para investigar a atuação do ministro no episódio.

Na conversa com apoiadores nesta quarta-feira, Bolsonaro listou ações adotadas pelo governo federal após a eclosão da crise de falta de oxigênio. Citou o transporte de cilindros de oxigênio por balsas e caminhões e o apoio da Aeronáutica. "A gente lamenta o ocorrido", disse.

Questionado por um apoiador, Bolsonaro diz que "não indica", apenas "sugere" o uso de medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina contra o vírus. Especialistas afirmam que ambas substâncias são ineficazes contra a Covid-19 e que não há tratamento precoce para a doença, algo defendido por Bolsonaro desde o início da pandemia.

O uso da hidroxicloroquina também foi encampada pelo Ministério da Saúde, que chegou divulgar um documento oficial com com recomendação de dosagens para casos de infecção pela Covid.

"Profilaxia a gente não indica, a gente sugere. [Vou] Deixar bem claro, o médico que decide na ponta da linha. Como não tem um remédio específico para isso, muitos médicos adotam ivermectina e hidroxicloroquina. Nós seguimos até um parecer do CFM [Conselho Federal de Medicina] dizendo que o tratamento off label tem que ser respeitado", declarou o presidente.

O parecer do CFM é de abril do ano passado e traz autorização para que médicos possa prescrever a cloroquina mediante termo de consentimento do paciente ou familiares. A entidade tem sido criticada por não ter alterado o protocolo mesmo após a publicação de estudos que indicaram que a substância é ineficaz contra a Covid-19.

Outras entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira, defendem que a hidroxicloroquina não seja utilizada no tratamento contra a doença.