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Fome e sanções multiplicam naufrágios de pescadores norte-coreanos em águas japonesas

Por Kyoko Hasegawa, con Hwang Sunghee en Seúl
A escassez de alimentos empurra os pescadores norte-coreanos a pescar cada vez mais longe, o que gera inúmeros naufrágios em frente à costa do Japão

A escassez de alimentos empurra os pescadores norte-coreanos a pescar cada vez mais longe mar adentro apesar de suas frágeis embarcações, o que gera inúmeros naufrágios em frente à costa do Japão.

Dezenas desses barcos de pesca de madeira, antigos e subequipados, naufragam ou ficam à deriva perto das ilhas do arquipélago japonês a cada ano.

A Guarda Costeira japonesa registrou em novembro 28 casos, um recorde mensal desde que começou a recolher esses dados, em 2014.

Em 2017, esse órgão socorreu 42 naufrágios, o que já constitui um recorde anual.

Às vezes, as autoridades navais apenas descobrem corpos - 16 ao longo do ano - nesses barcos à deriva que os marinheiros japoneses chamam de "barcos fantasmas".

Os pescadores norte-coreanos "tentam desesperadamente cumprir com objetivos de pesca a cada ano mais volumosos", explica à AFP Toshimitsu Shigemura, professor emérito da Universidade Waseda de Tóquio, especialista em Coreia do Norte.

- Direitos de pesca vendidos para China -

Desde sua chegada ao poder em 2013, Kim Jong-Un ordenou aumentar a produção nacional de pesca.

Mas em 2016, a "Coreia do Norte vendeu para a China uma parte de seus direitos de pesca no Mar Amarelo para obter divisas estrangeiras", privando-se de suas áreas de pesca ocidentais e, por fim, obrigando seus pescadores a irem para o Mar do Japão, destaca Pyon Jinil, jornalista e escritor de origem coreana.

Como seus barcos são "antigos e não têm muito combustível", muitas vezes acabam ficando à deriva até chegar ao Japão, acrescenta Yang Moo-Jin, professor da Universidade de Estudos Norte-coreanos de Seul.

O fenômeno se amplificou devido à crise alimentar sofrida pelo país, consequência em parte do reforço das sanções internacionais consecutivas e dos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte, consideram os analistas.

"O racionamento alimentar se intensificou e agora um cidadão norte-coreano recebe apenas 300 gramas de alimentos por dia", afirma Pyon à AFP.

Os norte-coreanos quiseram importar da China os alimentos de primeira necessidade, "mas não têm divisas suficientes", nem sequer para comprar arroz ou milho, acrescenta.

As reservas de divisas da Coreia do Norte diminuíram em um terço com relação ao ano passado devido às sanções impostas pelas Nações Unidas, destaca.

- Barcos espiões -

A mídia japonesa cobre amplamente cada aparição de uma embarcação suspeita de ser da Coreia do Norte.

Alguns meios consideram inclusive que possam se tratar de barcos espiões, referindo-se ao fato de que um dos navios tinha um emblema militar norte-coreano.

O governo japonês leva o assunto muito a sério.

O ministro japonês dos Transportes, Keiichi Ishii, anunciou na terça-feira um reforço da vigilância da costa japonesa.

O governo investiga a chegada desses "barcos fantasmas", inclusive para saber "se são pescadores ou não", declarou o porta-voz do Executivo japonês.

No entanto, Shigemura descarta a hipótese de espionagem.

"Os agentes norte-coreanos não vêm a bordo de barcos tão deteriorados", mas em navios bem equipados, afirma Shigemura, que se referiu ao episódio dos 10 pescadores norte-coreanos que roubaram múltiplos objetos em uma ilhota japonesa onde se refugiaram de uma tempestade.

"Tudo que era de metal desapareceu, inclusive fechaduras e dobradiças", declarou ao canal japonês Fuji TV na ocasião Shusaku Yoshida, segurança do local usado como abrigo por pescadores.

"Também levaram dois televisores, três geladeiras, uma máquina de lavar, um forno micro-ondas, dois aparelhos de som, um DVD player, uma serra elétrica, uma frigideira, uma moto e um gerador elétrico", acrescentou.

Antes de serem interceptados pela Guarda Costeira japonesa, os pescadores jogaram ao mar parte do roubo, indicaram os meios de comunicação.

"Queriam vender esses objetos em seu país", disse Shigemura.

"Mas se retornarem após uma inspeção da Polícia japonesa serão executados", pois o regime norte-coreano teme que tenham sido recrutados como espiões, sustenta.