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FMI e Banco Mundial fazem novo alerta sobre protecionismo

Por Aldo GAMBOA
O Fundo Monetário Internacional (FMI)

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) iniciaram sua reunião semestral nesta quinta-feira (20) com um novo alerta sobre o crescente protecionismo e um governo americano hostil ao livre-comércio.

Na abertura formal das reuniões, os líderes das duas instituições, a francesa Christine Lagarde e o americano Jim Yong Kim, pediram que o comércio internacional não seja colocado em risco.

"O FMI não é uma instituição comercial, mas o comércio nos preocupa, porque é um motor importante para o crescimento e é um dos pilares da prosperidade", declarou Lagarde na coletiva de imprensa que marcou o início do encontro.

A diretora do FMI lembrou o elevado número de disputas comerciais causados ​​por medidas protecionistas que chegaram até a Organização Mundial do Comércio (OMC) e, por essa razão, fez um apelo a "não colocar em risco o comércio, que tem apoiado o crescimento" econômico.

Kim ressaltou, por sua vez, que o comércio tem sido "fundamental na redução da pobreza nos últimos 30 anos".

Em um trecho antecipado do discurso que fará na reunião, o diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, mencionou que "um sistema multilateral forte (...) proporciona a estabilidade necessária para que o comércio global funcione corretamente".

Em retrospectiva, disse Azevêdo, "em raiz da crise de 1930, uma escalada de protecionismo arrasou com dois terços do comércio global".

- Primavera econômica com nuvens -

Pela primeira vez em dois anos, banqueiros e ministros das Finanças de todo mundo começaram um encontro em um contexto econômico global mais otimista.

"Bem-vindos à reunião de primavera [boreal]. É conveniente, porque a primavera econômica chegou", afirmou Lagarde, ao abrir os trabalhos, enquanto garoava nas ruas da capital dos Estados Unidos.

Após dois anos de baixas expectativas, o FMI apontou uma tímida reação na economia global.

Em seu relatório semestral, o FMI reviu em alta sua previsão de crescimento global, de 3,4% para 3,5%, um passo modesto, mas que altera o perfil da expectativa.

Nesse novo cenário, espera-se que a reunião de ministros das Finanças do G20, que acontece nesta quinta e sexta-feiras, gere discursos otimistas talvez pela primeira vez desde a grande crise de 2008.

Em relação à América Latina, no entanto, o FMI reviu ligeiramente em baixa sua previsão de crescimento, de 1,2% para 1,1%, seguindo um cenário marcado pela incerteza política e estagnação nos preços das commodities.

Apesar da revisão em baixa, Lagarde declarou nesta quinta-feira que o Brasil, maior economia da América Latina, parece estar "fazendo a curva", após dois anos de recessão severa, para começar uma recuperação tímida.

Mas uma nuvem escura paira claramente sobre a reunião.

Com o slogan "A América em primeiro lugar", o presidente dos EUA, Donald Trump, mantém a ameaça de imposição de barreiras comerciais às importações, e se distancia do livre fluxo de comércio e organismos, tais como a OMC.

Embora sem citar diretamente, Lagarde e Kim fizeram uma referência clara às ameaças de Trump.

- Fator europeu -

Ao mesmo tempo, a reunião começou, como ocorreu no ano passado, sob a incerteza que representa a saída do Reino Unido da União Europeia.

A reunião do FMI e do Banco Mundial no segundo semestre do ano passado aconteceu sob o choque do referendo que decidiu pelo Brexit. O encontro de hoje ocorre depois que Londres deu início, em 29 de março, ao árduo processo de saída do bloco.

Para agravar o clima de incerteza, o Parlamento britânico aprovou uma iniciativa da primeira-ministra Theresa May para convocar eleições antecipadas em 8 de junho.

Ao mesmo tempo, os franceses vão às urnas no domingo para votar no primeiro turno de uma eleição presidencial com vários candidatos que empregam uma retórica agressiva contra a integração europeia.

De acordo com Lagarde, uma eventual vitória da candidata da extrema direta Marine Le Pen pode causar "uma desordem grave" na UE.

A questão das barreiras comerciais pode se tornar o centro dos debates entre os líderes do G20. Em março, após forte pressão dos Estados Unidos, eles chegaram a emitir uma declaração sem o tradicional apelo para que medidas protecionistas sejam evitadas.