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FMI lança alerta sobre alto endividamento e risco de crise de solvência

Sérgio Tauhata
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Em relatório divulgado hoje, fundo destaca vulnerabilidades como o descasamento entre os mercados financeiros e a economia real Os riscos para a estabilidade financeira no curto prazo estão contidos, mas existem vulnerabilidades que podem levar a novos choques no futuro, caso ocorra a piora das condições macroeconômicas, afirmou o diretor do departamento monetário e de mercado de capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), Tobias Adrian, durante coletiva on-line sobre o relatório de Estabilidade Financeira Global do fundo. Segundo o economista, uma das maiores preocupações atualmente se relaciona ao alto nível de endividamento de governos, empresas e indivíduos, como uma consequência não intencional das medidas para amortecer os impactos da crise relacionada à pandemia. Conforme Adrian, "medidas extraordinárias de afrouxamento de políticas monetárias e um suporte fiscal maciço" foram essenciais conter esses riscos. FMI reduz previsão de queda do PIB, mas vê retomada incerta e desigual PIB per capita brasileiro vai sofrer mais que a média dos emergentes, diz FMI O diretor do FMI afirmou que os principais bancos centrais expandiram seus balanços em mais de US$ 7,5 trilhões até o momento. Essa atuação das autoridades "estabilizou os mercados financeiros, impulsionou o sentimento do investidor e manteve o fluxo de crédito", disse Adrian. As medidas agressivas de política monetária e fiscais, no entanto, tiveram como consequências não intencionais o reforço de algumas vulnerabilidades financeiras, que "representam ventos contrários à recuperação". Há, por exemplo, uma persistente desconexão entre os mercados financeiros, com alta de preços dos chamados ativos de risco, apesar da fraqueza da economia real em várias regiões do mundo. Adrian alertou que, caso as expectativas de retomada da atividade sejam frustradas, isso poderia levar a um movimento de reprecificação de ativos. "Se a recuperação econômica for mais lenta que o esperado, o otimismo dos investidores pode sumir", ponderou. Nesse cenário, uma maior aversão ao risco pode levar a um aperto das condições financeiras e impactar, sobretudo, países emergentes e aqueles com nível de renda mais baixa. Conforme o diretor do FMI, as políticas de emergência ajudaram a evitar uma onda de falências no início da crise, mas também levaram a uma forte elevação do peso da dívida corporativa. Em um cenário de crise de liquidez, trazida, por exemplo, por uma frustração com a retomada ou ainda eventos geopolíticos, entre outros riscos, esse endividamento que atingiu novas máximas em alguns setores, "pode se tornar uma crise de solvência no futuro". "Uma nova crise de liquidez pode facilmente se transformar em insolvências, especialmente se a recuperação econômica demorar", aponta o FMI. Vulneráveis De acordo com o relatório do FMI, seis de 29 países sistemicamente importantes tiveram grande elevação de vulnerabilidades nos setores corporativo, bancário e soberano. "Os governos tiveram de aumentar os déficits fiscais para prover suporte a empresas e famílias. Ao mesmo tempo, bancos e outras instituições financeiras tiveram que comprar mais papéis dos governos. Olhando para a frente, a capacidade fiscal para oferecer mais suporte pode se tornar limitada", apontou o documento. Na avaliação do diretor-assistente do departamento monetário e de mercado de capitais do FMI, Fabio Natalucci, há ainda uma outra consequência não intencional relacionada às instituições financeiras não bancárias. "Instituições não bancárias, como gestoras de ativos e seguradoras, agora têm um papel mais importante nos mercados de crédito, incluindo os segmentos de maior risco", disse. O diretor-assistente do FMI acrescentou, contudo que "fragilidades, como descasamento na gestão de liquidez das carteiras de crédito e maior exposição ao risco de crédito, permanecem". Essas vulnerabilidades indicam que, "se houver um choque, o problema vai se propagar com mais velocidade pelo segmento não bancário, o que pode se espalhar por todo o sistema financeiro". O FMI tem realizado testes de estresse baseados nos cenários adversos pós-pandemia para avaliar os sistemas financeiros de diversos países e regiões. Segundo Adrian, os testes mostram que o sistema global no geral está seguro e preparado para absorver futuro choques. Há, no entanto, diferenças entre os países. "Alguns mercados emergentes, por exemplo, podem enfrentar uma descapitalização de bancos em cenários futuros adversos", apontou o diretor do FMI. "As maiores instituições globais são mais estáveis, mas os bancos europeus, embora estejam preparados para novos choques, estão mais vulneráveis do que nos EUA", comentou. Setor bancário O problema, considerou o economista, é que muitas instituições já tinham problemas com níveis de inadimplência antes mesmo da crise da pandemia. "O sistema global bancário entrou na crise atual com mais capital e níveis de liquidez do que na crise de 2008, na nossa avaliação o sistema global em geral está seguro e pode absorver futuras perdas. Mas há alguns bancos em algumas regiões mais vulneráveis, ligadas a fraquezas existentes antes da pandemia, como alta inadimplência." Os juros baixos e com perspectiva de se manterem por longo tempo, como na Europa, comprimem as margens do setor bancário e representam desafios para a reconstrução dos colchões de proteção e para a lucratividade. "Isso representa um vento contrário para as instituições, que vão demorar mais tempo para reconstruir os 'buffers' com a lucratividade menor", disse Adrian. Conforme o diretor do FMI, diante das vulnerabilidades, as autoridades em todas as regiões no mundo "devem dar sequência às respostas [à crise] cuidadosamente". O economista recomenda que as políticas de suporte à economia sejam mantidas para assegurar a sustentabilidade da recuperação econômica e afastar os riscos financeiros. Junto com as medidas de estímulo, os governos precisam também aprimorar as regulações prudenciais, que possam evitar o crescimento das vulnerabilidades no futuro. Bloomberg