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Flip 2021: 'O ser humano é complexo e confuso, mas ainda sou favorável à nossa espécie', diz Margaret Atwood

·4 min de leitura
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Numa das mesas mais aguardadas da 19ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada em ambiente virtual, a best seller canadense Margaret Atwood conversou na noite desta quarta-feira com o cientista brasileiro Antonio Nobre, autor de diversos estudos sobre as ameaças contra as florestas brasileiras. A mediação esteve a cargo da portuguesa Anabela Mota Ribeiro, escritora e pesquisadora da obra de Machado de Assis.

Enquanto Nobre luta por o que chama de uma "Matrix utópica", Atwood — famosa, principalmente, pela obra "O conto da aia", que inspirou a série televisiva "The handmaid's tale" — é a criadora do termo "ustopia", que combina utopia e distopia, e já tratou sobre natureza e futuro da humanidade em livros como "Oryx e Crake".

— O ser humano é complexo e confuso, mas ainda sou favorável à espécie humana — brincou Atwood, ao tentar procurar uma saída possível para a questão ambiental. — Para isso, precisamos proteger o que nos permite viver. Não apenas pelas plantas (parte do tema desta Flip) serem lindas. Antes da fotossíntese das plantas, a atmosfera era de metano, e não oxigênio. Foram as plantas que permitiram termos a vida que temos.

Nobre, admirador confesso e defensor dos povos nativos, citou uma fábula indígena contada a ele por Davi Kopenawa Yanomami para falar algo parecido e exaltar a importância da cooperação entre o que chama de "reducionismo" da ciência com o holismo do saber indígena:

— Na Amazônia, onde durou mais tempo a ausência de contato europeu com os indígenas do que no Canadá, se perguntam: "será que o homem branco não sabe que se ele cortar a floresta vai parar de chover? E, se parar de chover, ele não vai ter o que comer, como viver?" Com isso eles sintetizaram anos de pesquisa científica, matemática. Precisamos unir esse holismo com a ciência pelo bem da continuidade do planeta. Se não fizermos isso, essa distopia em curso vai devorar a nossa sociedade.

A fala de Nobre ecoou também um comentário anterior de Atwood, quando estimulada pela mediadora a recordar um momento da infância que pudesse ser considerado a imagem de um mundo utópico e feliz.

— Cresci durante a Segunda Guerra, o que foi horrível, mas também entre biólogos, passei boa parte da minha infância em florestas canadenses — contou a escritora de 82 anos. — Isso traz uma perspectiva de que há formas diferentes de se viver, além de ter uma casa moderna com todas as roupas possíveis. Antonio e eu podemos concordar que precisamos envolver esta perspectiva dos povos nativos se quisermos ter a capacidade de reverter a abordagem tecnológica da situação onde nos encontramos.

Logo na sequência, Atwood reforçou que parte do problema é que "muita riqueza está concentrada na mão de poucas pessoas, que parecem estar numa competição de dinheiro entre elas" e que "os políticos são pensadores de curto prazo":

— Eles sempre pensam em como se reeleger, basicamente. Por isso a importância da movimentação do público geral, como faz Greta Thunberg. Se não, parece que precisamos viver incêndios, enchentes e secas para realmente pararmos e prestar atenção nas coisas.

'Livros não são como bebês'

Às vezes confusa com algumas perguntas da mediação, Margaret Atwood mostrou simpatia ao elogiar o trabalho dos dois tradutores de libras que participaram da mesa "Utopia e distopia".

Mais cedo, ao falar sobre seu grande sucesso, "O conto da aia", a canadense rechaçou, com certo humor, que escrever era "uma maneira de ser fértil":

— Livros não são como bebês. Eu já tive ambos, são diferentes. As pessoas fazem essa analogia, mas não é bem isso. "O conto da aia" apenas volta 150 anos atrás, para meados do século XX, especialmente quando as mulheres eram colocadas num enquadramento religioso. Você pode ver isso acontecendo agora mesmo no Texas, inclusive. Controlar o corpo das mulheres é uma forma de controlar a figura da mulher. Não só sistemas totalitários sempre quiserem fazer isso, como também os patriarcais.

A Flip

Este ano, a Flip não tem um autor homenageado, mas um tema: “Nhe’éry, plantas e literatura”. “Nhe’éry” é como os guaranis chamam a Mata Atlântica e quer dizer “onde as águas se banham”. Conforme divulgado em agosto, em vez de um único autor homenageado, a festa será dedicada a pensadores indígenas mortos pela Covid-19, como o escritor Higino Tenório, o artista plástico Feliciano Lana, o líder guarani Domingos Venite, e a guardiã das plantas de cura do povo Mura, Maria de Lurdes.

Pela primeira vez, a Flip tem curadoria coletiva (uma "floresta curatorial", nas palavras da direção), formada pelos antropólogos Hermano Vianna e João Paulo Lima Barreto, pelo escritor Evando Nascimento, pela editora Anna Dantes e pelo crítico literário Pedro Meira Monteiro.

Realizada virtualmente de 27 de novembro a 5 de dezembro, está sendo transmitida pelo canal da festa literária no YouTube e as mesas de abertura e encerramento serão exibidas pelo Canal Arte 1. Também há salas de exibição em Paraty e em cidades paraenses graças a parcerias com instituições locais. Nas salas de exibição, será mantido o distanciamento social e será obrigatório o uso de máscara.

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