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Fintechs que dependem de investidores terão que lutar para sair da crise, diz presidente da Transferwise

ISABELA BOLZANI
Kristo Kaarmann, fundador e CEO da TransferWise, durante evento na Irlanda em 2018. Foto: Eóin Noonan/Sportsfile via Getty Images

Fintechs que não são rentáveis e que ainda dependem de investidores precisarão lutar para ultrapassar a crise do coronavírus.

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A afirmação é de Kristo Käarman, presidente global da Transferwise, empresa de transferência internacional de dinheiro que ganhou espaço enviando dinheiro com base na cotação "do Google".

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Em entrevista à Folha de S.Paulo, o executivo conta que a empresa recebeu licença do Banco Central para ser uma corretora de câmbio, eliminando a dependência de outras instituições financeiras.

"Qualquer crise faz com que a inovação apareça mais rápido. [...] Aqueles que conseguirem inovar, seja no setor bancário ou em outros segmentos, vão conseguir encontrar grandes oportunidades de emergir mais fortes", disse.

PERGUNTA - Como surgiu a Transferwise?

KRISTO KÄARMAN – A cobrança excessiva de taxas foi um problema com o qual eu tive que lidar ao transferir dinheiro pela Europa. Eu havia transferido dinheiro de Londres para a Estônia, que é meu país de origem, quando descobri que o HSBC, um grande banco no Reino Unido, que havia me informado que a transação custaria 15 libras, haviam cobrado, na verdade 500 libras, contando todas as taxas inclusas na cotação que eles me davam.

A solução que eu encontrei foi fazer com que a Transferwise sempre seja transparente e justa ao indicar a cotação correta e quais tarifas cobra. Somos mais baratos do que as instituições tradicionais. No Brasil, dependendo do destino da transferência, a média de taxas que cobramos é de 1,5%. Isso significa que a cada R$ 1.000 transferidos, R$ 15 serão destinados para pagar tarifas.

O que podemos esperar da Transferwise agora que obteve a autorização do Banco Central para se estruturar como corretora de câmbio no Brasil?

Isso é um grande marco histórico para nós. Atualmente, no Brasil, muitos dos clientes usam a Transferwise para mandar dinheiro para o exterior, seja porque possuem familiares lá fora ou porque seus negócios estão em outros países e o ponto principal desse cenário é que transferências monetárias internacionais acabam sendo caras.

Com essa licença, nós seremos capazes de ser mais eficientes, rápidos e baratos para os consumidores, o que acaba sendo essencial para a nossa operação.

A companhia sentiu algum impacto ante com a crise do coronavírus?

Nós tivemos muita sorte. Nosso time está a salvo e, para nós, foi fácil ajustar todo o trabalho para a realidade do home office, principalmente por sermos uma companhia tecnológica. Conseguimos continuar nossas operações sem nenhuma interrupção, mesmo depois de a quarentena ter sido implementada em vários lugares do mundo.

Claramente existem diversos impactos indiretos, ninguém estará completamente isento desses efeitos. Mas as companhias mais tecnológicas sentem efeitos diferentes. Ainda existe muito trabalho a ser feito, mas conseguimos manter nossas operações dentro da normalidade.

Acredita que a crise do coronavírus impactou o cenário para investimentos de risco [venture capital] no mundo?

Do nosso lado, nós somos rentáveis há três anos. Isso significa que o dinheiro para a nossa operação vem dos nossos clientes e, assim, não precisamos de um investidor externo. Mas eu acredito que, em algum ponto, as companhias que ainda dependem desses investimentos podem estar sofrendo com menos investimentos externos e menos consumidores dispostos a pagar por seus serviços. É um cenário e um ambiente difícil para que elas consigam investidores nesse momento.

Como enxerga a alta volatilidade do dólar nas últimas semanas?

Muitas pessoas aproveitam o momento para fazer transferências em que o dinheiro de origem esteja mais valorizado. Mas principalmente para as pessoas que mandam dinheiro para a família no exterior, maioria dos nossos clientes no Brasil por exemplo, essa volatilidade acaba trazendo grandes incertezas e ansiedade.

Somando todos esses fatores, algumas pessoas acabam tentando acompanhar as melhores cotações para a transferência de recursos ou enviando tudo o que precisam na hora que conseguem, com medo de que a moeda de origem se desvalorize ainda mais.

Lidar com a volatilidade da moeda pode ser algo realmente complicado, mas precisamos considerar que muitas pessoas têm um deadline porque precisam pagar contas em outros países e precisam fazer a transferência naquele momento.

Quais são as expectativas para os próximos meses ante o atual cenário?

Precisamos observar como os impactos serão absorvidos pelos bancos. A pergunta específica é o quanto os bancos estão preparados para diluir todas essas mudanças na economia e o quão bem conseguem conciliar a inovação e o suporte às pessoas e empresas neste cenário.

Acredita que o cenário pode mudar a forma como as pessoas interagem com as instituições mais tradicionais?

Qualquer crise faz com que a inovação apareça mais rápido, já que tendem a acelerar esses processos de inovação em todas as empresas e isso é algo muito positivo.

Apesar do lado negativo de que nem sempre os negócios continuam viáveis ou até mesmo acabam passando grande parte do tempo lutando para lidar com a crise e não conseguindo se reinventar, as expectativas são boas para o lado da inovação, principalmente no sistema financeiro.

Aqueles que conseguem inovar, seja no setor bancário ou em outros segmentos, vão conseguir encontrar grandes oportunidades para emergir mais fortes.

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