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Fim do currículo de papel? Entenda como você conseguirá um emprego no futuro

Ainda que nos grandes centros o currículo de papel já esteja em extinção, em alguns lugares ele ainda é realidade, principalmente para iniciantes (Pixabay)

Por Melissa Santos

A tecnologia já invadiu nosso dia a dia. Prova disso é que estamos conectados a todo o tempo e a cada ano que passa novas tendências e lançamentos surgem. Uma nova promessa, de acordo com estudo da Michael Page, consultoria global de recrutamento, é o fim do currículo de papel.

E não é só no segmento de recrutamento e seleção que o papel tem dado espaço para outras tecnologias. Prova disso é que jornais e revistas aumentaram sua presença online enquanto reduziram suas páginas na versão física. “O papel está sendo substituído por outras ferramentas mais ágeis e principalmente mais ecológicas em vários mercados. Essa evolução é constante”, afirma Renato Trindade, gerente de Pagel Personnel.

Ainda que nos grandes centros o currículo de papel já esteja em extinção, Rebeca Mayan, Gerente da divisão de Vendas da Talenses, pontua que para vagas mais operacionais, para iniciantes e no interior do Brasil, onde nem todos têm acesso à internet, ainda há muitos currículos impressos. “Uma vez que uma parcela dos profissionais ainda não tem acesso fácil a um computador, eles não conseguem criar um CV digital para ser enviado por e-mail ou um perfil em alguma plataforma de vaga. Por isso, será necessário que a digitalização seja mais massificada”, fala.

Menos papel, mais interatividade

Marcia Vazquez, Gestora de Capital Humano da Thomas Case & Associados, consultoria de gestão de carreiras e RH, acredita que o papel não é capaz de apresentar com riqueza as competências de um profissional, bem como as habilidades intrapessoais, interpessoais, de negócios e de liderança que são importantes no processo seletivo. “A interatividade desse novo currículo poderá proporcionar que o candidato exponha mais a si mesmo, seus comportamentos, valores e motivações. Será uma estratégia rica para a real percepção de quem é esta pessoa, como ela age e qual vai ser o seu desempenho”, acredita.

Essa busca por mais interatividade já está sendo encontrada em processos seletivos atuais. Mayan cita como exemplo o “gamification”, uma técnica que usa um jogo com diversas situações aplicada pelos recrutadores. “Os candidatos precisam interagir com a plataforma criada pela empresa e, por meio de jogos, evidenciam suas competências técnicas e comportamentais. Ou seja, a inteligência por trás dos games visa descobrir de forma mais assertiva quem é esse profissional, algo que o currículo por si só não traduz”, aponta.

Ela também cita um outro processo interativo: o maching learning, que consiste em entender as competências técnicas e comportamentais para determinada oportunidade, procurar perfis que possam ter aderência a vaga em si e a cultura da empresa. “Mesmo com toda a interatividade dos processos, o papel do recrutador é, além de acompanhar a execução, cumprir etapas que hoje a inteligência artificial ainda não é capaz de compreender, como competências comportamentais do profissional: a empatia, por exemplo”, diz Mayan.

Apostas para o currículo do futuro

Vídeo, rede social ou página na internet? Na opinião Vazquez, uma das principais mudanças do currículo do futuro será com relação ao seu conteúdo. “Passaremos de um overview do passado profissional para uma antecipação daquilo que o profissional poderá fazer futuramente em uma determinada empresa. As empresas já estão inseridas na 4ª Revolução Industrial e os recrutamentos começam a ser feitos não apenas pela visão do que o profissional já executou mas, principalmente, pelo que ele pode fazer no futuro da empresa, diante de cargos que ainda não existem e de desafios ainda não totalmente delineados pela organização, uma vez que são desafios que ainda estão sendo estruturados”, pontua.

Já Mayan aposta em um currículo como uma rede social (vide LinkedIn), mas que pode ser atualizado instantaneamente pelo candidato e visualizado por recrutadores sempre que necessário, além de envios de CV em formato de vídeos curtos (até dois minutos) com apresentações.

“Também acredito na possibilidade de aplicar uma técnica que já é comum em algumas empresas que é o recrutamento às cegas, no qual o currículo não apresenta informações como gênero e idade do candidato, para evitar que o recrutador seja influenciado por vieses inconscientes e, dessa forma, seja tendencioso no momento da escolha do profissional. Esse seria um grande diferencial do currículo de hoje em relação ao futuro”, afirma.

Nem tudo são flores…

No entanto, com tanta tecnologia, o risco citado por todos os especialistas ouvidos pelo Yahoo é a falta de interações humanas, que é essencial para uma boa análise de currículo. “Se esse processo passar a ser automatizado, diminuindo a participação humana, haverá uma presença maior de máquinas sem a percepção e sensibilidade humana fazendo essas escolhas, o que pode gerar muitas contratações erradas”, explica Trindade.

Para Vazquer, não importa o quanto estejamos envolvidos com a tecnologia, não podemos deixar de lado o contato humano e o olho no olho, tão benéfico para o profissional e uma organização.

“Acredito que o CV será mais simplificado, disposto em um formato interativo (intensificado o uso de filmes e vídeos, por exemplo) e permitirá uma exposição mútua entre a empresa e o candidato para que haja não só o preenchimento de uma vaga, mas a comunhão de propósitos entre a pessoa e a organização. O propósito compõe 80% do sucesso (o porquê!), os 20% restantes do sucesso são o como fazer (foco do currículo atual!)”, finaliza.