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Fim do atual setor bancário se aproxima: Bloomberg Opinion

Andy Mukherjee

(Bloomberg) -- Então a China está preparando seu próprio Bitcoin? Esqueça.

É muito mais do que isso. Sim, como qualquer outra criptomoeda - ou, neste caso, cigarros em campos de prisioneiros de guerra -, o yuan digital a caminho será “tokenizado”. Mas a semelhança acaba aí. O criptoyuan, que pode entrar em circulação este ano, será totalmente garantido pelo banco central da segunda maior economia do mundo, obtendo seu valor da capacidade do Estado chinês de impor impostos em perpetuidade. Outras autoridades nacionais tendem a adotar essa ideia poderosa.

Pouco se sabe sobre o yuan digital, exceto que a moeda está em desenvolvimento há cinco anos e que Pequim está quase pronta para lançá-la. O consenso é que o token será uma blockchain privada, uma rede “peer to peer” para compartilhar informações e validar transações. O Banco Popular da China teria o controle de quem poderia participar. Para começar, a moeda será oferecida pelo sistema bancário e substituirá parte do dinheiro físico. Isso não vai ser difícil, dada a presença ubíqua de carteiras digitais chinesas com código QR, como Alipay e WeChat Pay.

Pode começar com pouco alcance, mas o yuan digital abalaria tanto bancos tradicionais quanto o sistema pós-Bretton Woods de taxas de câmbio flutuantes com o qual o mundo convive desde 1973. Não é de admirar que, para a China, “blockchain e o yuan digital sejam uma prioridade estratégica nacional - quase no nível da internet”, diz o analista de fintech Gautam Chhugani, do Sanford C. Bernstein & Co.

Desde o advento do banqueiro de ourives do século XVII em Londres, a coisa mais crucial no setor bancário tem sido o Livro Razão, um repositório de registros irrefutáveis para estabelecer confiança em situações em que ela não existe. Quando Peter, em Vancouver, concorda em enviar dinheiro para Paul, em Cingapura, eles são obrigados a usar uma cadeia de intermediários interligados porque não há Livro Razão no mundo que contenha os dois. Os livros distribuídos da blockchain tornam a confiança irrelevante. Paul cria um código secreto e compartilha sua versão criptografada com Peter, que o usa para criar um contrato digital para pagar Paul. Uma rede complicada e cara de bancos correspondentes torna-se redundante, especialmente quando se trata dos US$ 124 trilhões que empresas movimentam entre fronteiras anualmente. Imagine o ganho de produtividade; imagine a ameaça para os bancos.

A China não é a única a experimentar. A liquidação de pagamentos transfronteiriça rápida e barata é uma aplicação da Quorum, do JPMorgan Chase, uma plataforma baseada no Ethereum na qual a Autoridade Monetária de Cingapura está operando o Projeto Ubin, que estuda o dinheiro digital em um banco central. Isso é apenas o começo, mas se a tecnologia blockchain se mostrar promissora ao lidar com um grande número de transações simultaneamente, as moedas digitais poderão se tornar substitutas não apenas do dinheiro físico, mas também de reservas bancárias.

É quando o jogo muda. As reservas de um banco central são mantidas por instituições financeiras que recebem depósitos. Um yuan digital - ou dólar de Cingapura ou rupia indiana - poderia contornar esse sistema e permitir que qualquer detentor da moeda fizesse um depósito no banco central, potencialmente dando ao estado o monopólio na oferta de dinheiro para clientes do varejo. Como Agustin Carstens, gerente-geral do Banco de Compensações Internacionais, destacou recentemente, “se o banco central se tornar o tomador de depósito de todos, poderá se tornar o credor de todos também”.

Mas por que os bancos centrais querem rebaixar seus próprios sistemas bancários? Uma resposta, olhando para Europa e para o Japão, é que as taxas de juros negativas estão fazendo isso de qualquer maneira. As instituições estão famintas de lucro porque, embora o banco central cobre para manter o dinheiro depositado, elas não podem repassar com a mesma facilidade essas taxas de juros negativas para seus próprios correntistas. Se a economia global ficar mergulhada na estagnação no longo prazo, as moedas digitais oficiais serão pelo menos uma maneira eficiente de afrouxamento monetário sem envolver bancos.

A outra razão, mais concreta, pode ser que o progresso tecnológico esteja tornando o status quo insustentável. Não foi por acaso que a China acelerou sua criptomoeda nacional depois que o Facebook anunciou o projeto Libra, que foi apresentado como um dólar alternativo. Talvez isso tenha sido fantasioso, e a Libra tenha esbarrado em um muro de preocupações regulatórias. Mas se essas moedas forem oferecidas como vale-presente do Spotify em uma loja da 7-Eleven, haverá demanda por tokens aceitos além das fronteiras, com valor estável em relação às cestas de moedas nacionais e que possam ser usados no comércio e investimento globais. Alguém no Vale do Silício acabará tendo sucesso, destruindo a soberania monetária oculta nos mercados emergentes no processo.

As mudanças não terminarão com acordos bancários e monetários. As transações de tokens serão pseudônimas: se o banco central quiser ver quem está gastando, pode. O anonimato desaparece quando o dinheiro desaparece. Embora isso dificulte a vida de lavadores de dinheiro e terroristas, também pode se tornar uma ferramenta para punir o ativismo político. Enquanto isso, a moeda como arma de política externa perde alguma força. Os Estados-pária cobiçarão uma criptomoeda que possam acessar desviando de bancos com receio de desrespeitar sanções ocidentais. Como o economista da Universidade Harvard Kenneth Rogoff destacou, a tecnologia “está prestes a abalar a capacidade dos EUA de alavancarem a fé em sua moeda para perseguir seus interesses nacionais mais amplos”.

Uma década de montanha-russa - não apenas para serviços bancários e dinheiro, mas também para privacidade e política - pode estar apenas começando.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórter da matéria original: Andy Mukherjee em Cingapura, amukherjee@bloomberg.net

Para entrar em contato com a editoria responsável: Patrick McDowell, pmcdowell10@bloomberg.net

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