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FGV: Confiança do consumidor sobe 9 pontos e mantém tendência de recuperação

Alessandra Saraiva

Índice foi a 71,1 pontos em junho, o que repõe apenas 44% das perdas sofridas no bimestre março-abril Influenciada por sinais de reabertura gradual da economia em algumas cidades, após as restrições lançadas durante a pandemia, a confiança do consumidor registrou em junho maior patamar de elevação em 15 anos. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu 9 pontos, para 71,1 pontos entre maio e junho - a mais intensa expansão desde início do indicador em setembro de 2005, informou Viviane Seda, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mas o cenário não indica melhora no patamar de consumo atual, pelo contrário, alertou ela. "Nunca antes tivermos intenção de compra de duráveis em patamar tão baixo no ICC" afirmou ela. Para a especialista, as famílias esperam cenário menos pior no emprego, visto que está prevista abertura gradual de algumas empresas e serviços. Mas não necessariamente isso conduziria a uma explosão de compras, notou ela. "Podemos ver que o consumidor ainda está muito cauteloso".

Na prática, a alta na confiança do consumidor de maneira geral foi influenciada mais por uma esperança de melhora, e não exatamente por melhora expressiva em momento atual. Segundo ela, o Índice de Expectativas (IE), um dos dois sub-indicadores componentes do ICC, subiu 11,1 pontos entre maio e junho para 72,8 pontos - também a mais intensa elevação da série do indicador. Já o Índice de Situação Atual (ISA) subiu menos, 5,6 pontos, para 70,6 pontos.

Viviane explica que as elevações nos dois sub-indicadores são influenciados por cenário de meses imediatamente anteriores, de base de comparação baixa. Em março, quando começaram as medidas de confinamento para conter avanço de covid-19, o ICC caiu 7,6 pontos, e a queda foi de 22 pontos em abril - a mais intensa da série. Após ajustes, o indicador subiu 3,9 pontos em maio, auxiliando pelo cenário extremamente desfavorável dos meses anteriores. Como é esperado para os meses de junho e posteriores maior abertura da economia, o cenário estaria menos pior do que o de meses imediatamente anteriores, notou ela, puxando para cima o ICC.

Ela usou como exemplo de impacto de base de comparação baixa a alta de 12,9 pontos no ICC de baixa renda, entre maio e junho para 68,7 pontos, em familias com ganhos até R$ 2.100,00. Essa alta na confiança foi a maior da série para essa faixa de renda. Nessas famílias, o tópico emprego previsto em seis meses subiu 19,4 pontos, para 97,9 pontos, o maior avanço da série. "A baixa renda é a que mais sofre durante a pandemia. Foi a que motrou maior nível de desemprego, de redução de jornada e salário", observou ela. "Como há uma expectativa de retorno gradual à normalidade nos próximos meses, essas famílias esperam mercado de trabalho melhor [no segundo semestre ante primeiro semestre]", disse.

Mas ela chamo atenção para outro tópico: o indicador de compras de bens duráveis apresenta o patamar mais baixo entre os componentes da sondagem do consumidor, pesquisa do qual o ICC é indicador-síntese. A intençao de compra de bens duraves subiu de 27,4 pontos para 37,6 pontos entre maio e junho. "Não existe indicador com pontuação tão baixa na pesqiusa", alertou ela.

Para a especialista, os tempos menos piores previstos para a economia nos próximos meses, devido aos sinais de reabertura gradual da atividade, não conduzirão a uma explosão de consumo. "Temos aqui um consumidor extremamente cauteloso em efetuar compras", salientou ela.

Na análise da técnica, isso indica uma retomada mais lenta e gradual da economia, fortemente influenciada pelo consumo das famílias.

Consumidores fazem fila para entrar em shopping center em São Paulo

Claudio Belli/Valor