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Fechada por conta da pandemia, história da Livraria São José vai virar livro

Gilberto Porcidonio
·4 minuto de leitura

Sobrevivente de duas ditaduras e de diversas mudanças de endereço causadas pela especulação imobiliária, a Livraria São José sentiu o baque da pandemia e precisou encerrar as atividades de vez, no Centro, no fim de fevereiro. Porém, a sua história será imortalizada por meio daquilo que foi a sua especialidade há 85 anos: o livro.

Quem está realizando a pesquisa desde 2010 para a obra que ainda não tem data de lançamento é o pesquisador Adriano Gomes Filho, que conheceu o espaço criado durante o Estado Novo de Getúlio Vargas em 1934 apenas no início dos anos 1990, como cliente, quando ele funcionava na Rua do Carmo, onde ficou até 2004. Até 2014, a livraria e sebo estava na Rua Primeiro de Março, onde o aluguel era perto de R$ 7 mil, mas teve que sair quando o proprietário aumentou subitamente o valor para R$ 18 mil. Foi quando José Germano, o último proprietário, decidiu se mudar para uma sala de 40 metros quadrados na Rua da Quitanda, concentrando o acervo apenas para os livros jurídicos.

A história da pesquisa se baseia, principalmente, na época de ouro do point cultural — de 1955 a 1967 — quando esta chegou a ter 100 mil livros, também tendo sido editora que lançava autores nacionais e chegando a ocupar três lojas na Rua São José. Nomes como Manoel Bandeira, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Augusto Frederico Schmidt, Paulo Rónai, Lêdo Ivo e Manoel de Barros foram lançados ali, além de algumas tendências.

— Eu comecei a conhecer os livreiros de lá e a gente começou a conversar. Desde então, eu venho juntando muito material iconográfico, com mais de 100 entrevistas, mas tem muita coisa para levantar ainda — disse o pesquisador. — O acervo da jornalista e escritora Eneida de Moraes, por exemplo, está na Universidade Federal do Pará (UFPA), mas preciso esperar a vida voltar ao normal ainda.

Uma das curiosidades é que, em abril de 1954, a livraria sediou a primeira tarde de autógrafos que se tem notícias no país, com direito a anúncios nos jornais, com o lançamento do livro "Itinerário de Pasárgada", de Manuel Bandeira. A ideia da realização do evento veio de Eneida, frequentadora assídua da livraria que tinha visto a novidade em Paris, onde esse evento era comum. Porém, no início, causou estranhamento.

— As primeiras tardes de autógrafo foram um fracasso de público, mas foram popularizando em pouco tempo. Os próprios livreiros se faziam de garçom e serviam comes e bebes como uísque, vinho e água, além de salgadinhos. Era legal porque era uma socialização que não havia antes nas livrarias. Quem transformou isso realmente em um evento por aqui, com direito aos eventuais "bicões", foi a Livraria São José — disse o autor.

Durante a ditadura militar, em 1964, o lugar da cidade que era visto como uma ágora dos intelectuais, sendo muitos de esquerda, passou a causar desconfiança no governo. Por isso, era comum que, em seus corredores houvesse um informante dos militares pronto para escutar o que estava sendo conversado ou discutido por ali. Em abril, o próprio livreiro Carlos Ribeiro — que não tinha ligações político-partidárias e nem publicava livros do gênero — chegou a ser detido na loja por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), chegando a ficar uma noite preso.

Apesar do clima de tensão no ar e da ferocidade da censura, o baque financeiro acabou sendo o mais forte.

— Isso, de certa forma, teve um efeito, mas foi em 1967 que ela precisou sai do endereço por conta de uma especulação imobiliária muito grande. Foi daí que a livraria começou a entrar em decadência, pois os autores preferiam fazer as, agora, noites de autógrafo, nas livrarias da Zona Sul, que tinham mais estrutura e ar-condicionado — detalha Adrianor.

Após a aposentadoria de Carlos, que morreu em 1995, foi José Germano da Silva, que trabalhou na São José desde 1953, sendo o último sócio remanescente, que trabalhou como sócio da casa até o seu fim este ano. Germano, que pegou Covid aos 85 anos e está em recuperação em casa após passar 49 dias internado no Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, se lembra do seu primeiro dia de trabalho no local, aos 12 anos.

— Me lembro que, na Rua São José, do lado que fica hoje o Terminal Menezes Cortes, tinha um descampado que eu costumava jogar bola e que ainda tinha pedaços da demolição do Morro do Castelo. Eram seis e pouca da manhã e eu estava esperando o Carlos Ribeiro chegar — lembra o livreiro, com clareza.

Para Germano, hoje o mercado de venda de livros é menos pior para quem tem obras consideradas raras. Por isso, a livraria ainda teve uma sobrevida até então:

— A não ser que você tenha uma loja própria, pois eu pagava quase R$ 9 mil de aluguel quando estava na Rua Primeiro de Março. E no Centro é tudo por aí. Como é que você vende R$ 10 mil de livro velho para pagar isso? Até que conseguimos sobreviver bem até agora. Para mim, foi um sucesso.