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Quem precisa passar o dia pensando em faxina?

Marcela De Mingo
·5 minutos de leitura
Young housewife is standing above kitchen sink and looking at dirty dishes.
Você pensa em faxina o tempo inteiro? E já se perguntou o porquê? Talvez esse seja o momento de questionar esse hábito (Foto: Getty Creative)

O assoalho tem um daqueles bolinhos de poeira num canto. A pia até está livre de pratos, mas cheia de restos de comida e grãos de sal e tempero - o ralinho é o próprio horror! O fogão nem se fale. Não olhe agora, mas com certeza a pia do banheiro está um caos - e o que dizer do espelho engordurado e do ralo cheio de cabelo?

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Que atire a primeira pedra quem não sentiu vontade de fazer uma faxina completa em casa agora mesmo. Não é viável, claro. Com o home office e as crianças ainda dividindo muito o tempo entre a casa e a escola, mais do que a rotina pré-pandemia de coronavírus, é impossível manter a casa limpa. Mas, sejamos sinceros, quem foi que disse que a casa precisa estar sempre impecável?

Nos últimos dias, surgiu em algumas redes sociais uma conversa sobre a obrigatoriedade do trabalho doméstico, ainda mais quando, na quarentena, boa parte da população em distanciamento social se viu obrigada a cuidar da própria casa.

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O assunto pode, sim, ser visto por muitos aspectos. O primeiro é a questão de o Brasil ser fruto de uma cultura escravagista, em que a população negra servia aos senhores de engenho e suas sinhás, inclusive fazendo trabalhos domésticos básicos, como cozinhar e limpar a casa - a partir daí, já é possível ver mais um aspecto racista da nossa cultura: a conexão entre limpeza e higiene com as pessoas brancas e de sujeira e falta de higiene com as pessoas negras.

Vale ressaltar, aqui, que está não é uma crítica às empregadas domésticas. O trabalho doméstico formal é, sim, um reflexo da desigualdade por aqui, e é preciso notar que essas profissionais agem em cima dessa determinação cultural - elas, com certeza, não são responsáveis por criá-la.

Daí, podemos somar outra camada de problematização: como esses trabalhos são comumente atrelados às mulheres. A expressão "jornada dupla" não existe à toa - e nem sempre é conectada com alguém que tem dois trabalhos formais. No caso de muitas mulheres, diz respeito ao trabalho formal mais o peso do trabalho doméstico, que não é remunerado, em muitos casos.

E, não, isso não é achismo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), publicada em 2016, as mulheres dedicam em torno de 21 horas às tarefas domésticas, enquanto, para os homens, esse número cai para 10 horas. Em período de pandemia, já comentamos, inclusive, sobre a pressão que muitas mulheres sentiram por conta de toda essa carga de trabalho concentrada - e isso, mesmo com o parceiro em casa.

É injusto de todas as maneiras fazer uma comparação de um país como o Brasil como qualquer outro - as questões culturais e históricas geram variantes e variáveis que não podem ser aplicadas em outro contexto -, mas há de se notar que muitos lugares do mundo, como a Europa, não têm uma ligação tão forte com a necessidade de limpeza do ambiente como por aqui. E, isso, inclusive, reflete em hábitos muito cotidianos para o brasileiro, como tomar banho todos os dias - ou vai dizer que você nunca ouviu a história de que o perfume foi inventado no continente europeu para disfarçar o cheiro dos nobres, que não tomavam banho com frequência?

Mas fugimos um pouco do assunto. Fato é que muitos de nós descobriram que a casa tem quase vida própria, que a poeira nunca acaba e que se você não lavar a louça ela não vai se lavar sozinha, como brinca aquele vídeo do Porta dos Fundos. Ao mesmo tempo, será que a pira com a limpeza cotidiana é realmente necessária?

Um estudo de 2013 feito pela ONG Plan International Brasil comprovou que o trabalho doméstico faz com que 31% das meninas acreditem que não têm tempo para brincar ou estudar. Isso porque, mesmo novas, elas já são ensinadas a cuidarem da casa de formas variadas - de arrumar a própria cama à lavar a louça, por exemplo -, enquanto os meninos saem para brincar ou, em muitos casos, para trabalhar. À época, o estudo indicou que mais de 86% das meninas arrumavam as suas camas, contra 11% dos meninos.

Estamos em 2020, mas não parece que muita coisa mudou. Basta reparar: se você é mulher, o assunto ronda a sua mente o dia inteiro, e você com certeza se sente culpada se percebe a casa suja. É difícil dizer se os homens sentem a mesma coisa - e, muitos deles, podem culpar as mulheres por conta da bagunça.

O tempo que limpar a casa toma pode ser mais bem utilizado no desenvolvimento intelectual e de habilidades úteis para a vida profissional e adulta de alguém. Longe de nós defender a imundice, mas a obrigatoriedade (via de regra atribuída às mulheres) de manter a casa impecável é absurda. A prioridade de uma criança deveria sempre ser os estudos e não os cuidados domésticos - a não ser que eles sejam utilizados, de forma responsável e igualitária, como uma maneira de ensinar às crianças sobre responsabilidades, mas nunca como algo obrigatório e que gere sensações de culpa.

Talvez, agora, aquele bolinho de poeira não incomode mais. Ou continue incomodando, mas agora vale mais como lembrete de um questionamento válido: a casa impecável é realmente necessária? E, se não for, tudo bem. Cada um sabe, melhor do que ninguém, as próprias prioridades. A nós cabe, apenas, respeitá-las.