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Família à mesa: a cozinha judaico-marroquina de Sol Azulay, uma história de afeto e ancestralidade

Paula Lacerda
·4 minuto de leitura

Toda sexta-feira, a cena era a mesma: entre os muitos pratos servidos à mesa para a família que se reunia para o início do Shabah judaico, estava a salada de pimentão. E, ao lado dela, uma criança de cara feia.

- Eu achava horroroso, reclamava e minha avó dizia que nunca mais ia fazer. Era mentira, na semana seguinte, a salada estava lá. Uma vez perguntei "Por que você faz?". E minha avó me respondeu uma coisa que hoje faz todo sentido para mim: "Porque o meu pai fazia". Aquele pimentão não era só um pimentão com azeite e temperos, mas a comida da infância dela, do pai dela, das lembranças dela, carregada de afeto - diz Sol Azulay, que décadas depois e durante a pandemia do novo coronavírus, passou de estilista de vestidos de casamento a chef de cozinha, à frente da marca Couscous. Desde o fim de 2020 ela leva ao público, via delivery, receitas que resgatam o que ela chama, no seu perfil de Instagram, de uma "cozinha ancestral, afetiva, judaico-marroquina, contemporânea e artesanal".

Sol Azulay, de 42 anos, é descentente de judeus marroquinos que se estabeleceram em Belém do Pará, na região Norte do país. Sua bisavó era banqueteira em Belém e o talento para a cozinha sempre foi um ponto alto da família. Os pratos coloridos e cheios de tempero da chef, que vêm de várias gerações, apresentam a história de uma cultura e uma cozinha pouco conhecidas - ou divulgadas - entre brasileiros. Expulsos na Inquisição da Península Ibérica, os judeus se espalharam pelo mundo, o que significa que os pratos de suas muitas famílias trarão características diversas, de acordo com a localidade.

- É a cozinha de um povo nômade. Não existe exatamente uma "comida judaica", é a comida de por onde estes pessoas passaram. As pessoas estão habituadas a associar a comida judaica àquela do leste europeu, com muito peixe, batata.... Quando me apresentavam esta comida, eu achava aquela comida branca e insossa muito diferente da comida da minha avó. Custei a entender. Pensava "ué, eu sou judia, mas não é essa a comida que eu como". Em outro lugar, está a comida do judeu árabe, turco, marroquino, que é muito temperada, colorida, com muitas misturas agridoces, frutas secas, nozes, tâmaras.... - explica Sol, que quando foi morar sozinha, aos 20 anos, passou a ficar "esperta" ao que se passava na cozinha da avó, para aprender. Nada ali tinha receita de medidas exatas, era tudo "de cabeça".

- Não havia livro daquilo, história daquilo. Gravei muitos depoimentos da minha avó, que morreu há 12 anos, contando suas histórias e daqueles pratos. Sabia que um dia ela iria embora e aquele conhecimento deveria se manter. Ela morreu há 12 anos, e hoje sou a pessoa mais velha da minha família, assumi este lugar de receber e reunir todos, irmãos e primos, e falar de nossa história e nossa cultura sempre - diz Sol, que não segue a kashrut (um conjunto de leis que rege o preparo dos alimentos, desde a não mistura de derivados animais, com uma cozinha e utensílios todos separados, à supervisão de um rabino).

- Basicamente, judeus mais religiosos seguem. A questão judaica não é somente religiosa, no meu caso, é muito mais a cultural. Existem pouquíssimas cozinhas kasher no Rio e atendem à comunidade religiosa - explica. E brinca: - Não dá pra ser contemporâneo e kasher ao mesmo tempo.

A chef - e também estilista (os casamentos, adiados pela pandemia, estão na fila de espera) e decoradora de eventos, cujo serviço pode ser contratado junto com almoços e jantares especiais - cria um menu por semana, divulgado às segundas-feiras no Instagram (@couscous_rj). Os pratos podem ser encomendados até o meio-dia de quarta-feira, pelo whatsapp (21) 99773-2285. As entregas são na sexta, de 14h as 18h, em todo o Rio de Janeiro. No cardápio, entre as opções que sempre variam, terrines (o desta semana é de figo, nozes e mel), saladas, pastillas, couscous (esse não sai do cardápio, e é apresentado em várias versões), e o já famoso bolo de tâmara com nozes, que podem ser pedidos no formato de muffins, em porções de 2, 4 ou 6 unidades (R$ 24, R$45 e R$ 60) ou o bolo inteiro (R$ 60, 18cm). No Super Mix, uma porção de 500g ideal para 1 pessoa, vem uma combinação de pratos da semana, a R$ 50. Há também cardápios especiais criados para datas festivas, como teve para a Páscoa judaica (Pessach) e a Páscoa cristã, e até para o Natal. "Os judeus não celebram o Natal cristão, mas também se reúnem nesta data", explica. E ela também monta, sob encomenta, pequenos eventos. No próximo sábado, ela oferecerá um almoço para 16 pessoas, que estarão distribuídas em três casas diferentes, pela necessidade de não aglomeração.

- Mandarei a comida e doces para estes amigos, na casa de cada um, que não vão se encontrar presencialmente mas arrumaram uma maneira de se sentir junto. A comida tem esse poder, é como um abraço - conclui.

O Rio Gastronomia é uma realização do jornal O GLOBO com apresentação do Senac RJ e do Sesc RJ, patrocínio master do Santander, patrocínio de Naturgy e Stella Artois, apoio do Gosto da Amazônia, Água Pouso Alto e Getnet, e parceria do SindRio.,