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Falamos com o dono do jornal que foi incendiado, segundo ele, por bolsonaristas

João de Mari
·7 minuto de leitura
  • Yahoo! Notícias entrevistou José Antônio Arantes, editor do jornal que foi incendiado na madrugada desta quarta-feira (17)

  • Ele revelou que vinha sendo ameaçado por combater o "negacionismo" em relação à Covid-19

  • Jornalista teme que incêndio seja um ataque à democracia e à liberdade de imprensa e ainda diz que quem ateou fogo na sede do jornal usou "técnicas fascistas"

Quando José Antônio Arantes entrou na sede do jornal Folha da Região, a única publicação impressa da cidade de Olímpia, no interior de São Paulo, a fumaça densa, quente e escura ainda pairava pelo ar. As paredes do corredor que dá acesso à sua casa, localizada no primeiro andar do imóvel, estavam pretas, marcadas pelo indêncio que quase destruiu tudo na madrugada da última quarta-feira (17). Pelo caminho, os destroços deixados pelo fogo: papéis, móveis e até uma máquina de cartão destruídos.

"Eu fui acordado pelos meus dois cachorros, eles salvaram a minha vida, porque a perícia disse que se eu e minha família demorasse mais dois minutos para descer, a gente fatalmente teria morrido", conta o jornalista, referindo-se à análise feita no imóvel por agentes da Polícia Civil após o incêncio. Arantes dormia no local com sua esposa e neta.

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O fogo começou por volta das 4h30 da manhã, quando um balde com combustível foi incendiado em frente à sede, onde também fica a Rádio Cidade. Pelas imagens de segurança de uma imobiliária, que fica em frente ao jornal, Arantes pôde constatar que um homem chegou em uma moto, despejou gasolina na porta de sua casa, em seguida, deixou o galão na entrada do jornal. Por fim, antes de subir na motocicleta para deixar o local, o homem jogou um "palito de fósforo", segundo ele.

"O estrondo é tão grande, para você ter uma ideia, o fogo vai da porta até onde ele estava e ele sai correndo com a moto com medo de pegar fogo nele", relata Arantes ao Yahoo! Notícias. A reportagem não conseguiu acessar as imagens do vídeo, pois o material está com a polícia como parte das investigações.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou que instaurou inquérito e determinou a realização de exames periciais no imóvel e que a polícia está em busca de novas imagens e testemunhas que auxiliem na identificação e prisão do autor.

Incêndio causado por bolsonaristas

Para o jornalista, os responsáveis pelo incêndio são “negacionistas genocidas, defensores do presidente Jair Bolsonaro”. Segundo ele, essas pessoas estariam irritadas com seu posicionamento favorável às medidas de restrição na cidade para combate à Covid-19, conforme publicou em texto no site do próprio jornal em defesa de um lockdwon na cidade.

"A partir disso, começou uma campanha das pessoas na internet dizendo que eu era contra o comércio de Olímpia, que eu queria que as pessoas morressem de fome e que não tinham que anunciar mais comigo. Como meu sustento é a propaganda, seria um estrangulamento", afirma.

Fogo destruiu sede do jornal em Olímpia, no interior de SP (Foto: Arquivo pessoal/José Antônio Arantes)
Fogo destruiu sede do jornal em Olímpia, no interior de SP (Foto: Arquivo pessoal/José Antônio Arantes)

No entanto, segundo Arantes, as intimações aos comerciantes não deram certo, pois apenas um anunciante deixou o jornal. "Quando viram que a coisa não funcionava, aumentaram ainda mais a campanha e começaram com agressões verbais do tipo 'jornaleco' e até palavrões".

À medida em que os ataques iam se intensificando, como invasões em transmissões ao vivo e envio de spam ao site do jornal, Arantes começou a se preocupar. Ele relembra que, na última segunda-feira (15), quando noticiou os desrespeitos às medidas sanitárias contra a Covid-19, como o não uso de máscaras em uma passeata organizada por comerciantes da cidade em favor da reabertura do comércio, os ataques disparados contra o programa de rádio que ele conduz foram como "uma invasão total".

"Eu tenho estudado o que os cientistas divulgam como novidade no combate à pandemia porque tenho que dar uma ajuda para os ouvintes, um esclarecimento. Fiquei assustado, porque a virulência foi muito grande, uma só pessoa postava 30 comentários seguidos", relembra ele, que é o apresentador do programa da Rádio Cidade.

Ataques saíram da internet

Na sexta-feira passada (12), porém, Arantes suspeitou que os ataques poderiam ter "saído" da internet. Isso porque, as tiragens do jornal são feitas em São José do Rio Preto, cidade a cerca de 50 km de distância de Olímpia, e quem busca os exemplares são funcionários do jornal e, neste dia, após cerca de 10 km de viagem, um carro passou a perseguir o veículo deles.

"Uma Saveiro passou a acompanhá-los e o cara desligava a luz e ficava na traseira deles e, de reprente, acendia a luz, saia, direcionava para o lado dele, fazia menção de jogar o carro em cima deles", relata. "E foi até Rio Preto assim. Eu achei, sinceramente, 'olha, isso pode ser, sei lá, algum louco que surgiu na estrada naquele momento, uma situação que eu jamais imaginei que fosse alguém querendo nos intimidar".

No entanto, dois dias depois, no domingo (14), o jornalista encontrou o pneu de seu carro furado, na garagem de casa. "Como eu tenho problema de coluna, eu chamei meu genro para me ajudar a trocar o pneu. Quando ele foi tirar o parafuso da roda, estava frouxo. Ele foi conferir as outras rodas e também estava frouxo".

Ditadura militar e técnicas de intimidação fascistas

Arantes relata que mesmo assim ainda não imagina que pudesse ser uma coisa "tão grave assim". Depois do incêndio, ele fez um paralelo às repressões contra a imprensa da época da ditadura militar no Brasil, quando ele começou carreira como jornalista.

Para ele, o recurso utilizado por quem ateou fogo na sede do jornal é uma "técnica fascista", referindo-se ao regime de Benito Mussolini, na década de 1920, na Itália, representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.

Fachada do jornal Folha da Cidade e da casa do jornalista José Antônio Arantes após o incêndio que ele atribui aos
Fachada do jornal Folha da Cidade e da casa do jornalista José Antônio Arantes após o incêndio que ele atribui aos "negacionistas bolsonaristas" (Foto: Arquivo pessoal/José Antônio Arantes)

"Quando a ditadura começou perder a força dela e não conseguia mais dominar a imprensa, começaram a atacar o ponto final do jornalismo, que eram justamente as bancas de jornais. É um sentido de intimidação, é uma técnica fascista. Eu jamais imaginei que eles poderiam chegar a este ponto de colocar em risco a vida de pessoas, de repente, em um minuto que eu não desço, eu teria morrido. O cara não é um assassino por um minuto".

Só foi na quinta-feira (18), um dia após incêndio, que Arantes conseguiu avaliar os prejuízos para o jornal. Segundo ele, um vidraceiro já estava fazendo a troca dos vidros, mas que ainda seria necessário pintar a fachada do imóvel. "A minha sorte é que o fogo não entrou no jornal, senão meu prejuízo seria milionário, porque teria queimado toda minha casa", desabafa.

Ataque à democracia e à liberdade de imprensa

Ao ser questionado se teme que o ataque tenha sido uma ação premetida, o jornalista diz que o único temor é que "parte dessas pessoas estejam servindo a causa fascista", pois uma "intimidação até pela morte" é uma arma do "fascismo".

"Torço para que tenha sido apenas alguém com algum problema pessoal, para que isso não seja verdadeiro, para que essa não seja a realidade, porque se essa for a realidade é um prenúncio de que o nosso futuro pode ser até sangrento, como o pessoal que presenciou os últimos anos da ditadura", avalia.

"Então eu realmente fiquei temeroso, não por mim, mas porque foi realmente um atentado à democracia e à liberdade de imprensa, que são para mim um dos maiores pilares da própria democracia. O que vai ser dos meus netos, o que vai ser da minha filha?", indaga.

"Gabinete do ódio" acusou que próprio jornalista ateou fogo no imóvel

Segundo ele, após o incêncido, passou a circular na internet que ele mesmo teria ateado fogo no imóvel para ficar com o dinheiro de um suposto seguro. A tese, no entanto, já refutada pelas analises iniciais da polícia, é uma mentira, de acordo com o jornalista.

"A própria condição do último ano de pandemia, a situação finaceira, eu nem tive condições de fazer um seguro da casa. Você vê esses grupos do gabinete do ódio que já soltaram que eu mesmo que coloquei fogo na minha casa para receber seguro, porque eu estou falido. Se tivesse acontecido isso eu estaria frito", diz.

Procurada novamente nesta sexta-feira (19), a SSP informou que "por ora, sem novidades na investigação, os laudos periciais estão em andamento".

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) enviou ofícios às autoridades pedindo celeridade nas investigações.