Mercado fechado

FAKE! Não é verdade que a NASA descobriu evidências de universos paralelos!

Patrícia Gnipper

Nos últimos dias, temos visto um "zilhão" de notícias e postagens nas redes sociais falando que "cientistas da NASA descobriram evidências de universos paralelos", ainda por cima afirmando que em um deles "o tempo retrocede". Muita calma nessa hora, porque essa informação não é verdadeira — e a editoria de ciência do Canaltech está aqui para explicar essa história toda a vocês.

Apesar de estarmos cansados do mundo em que vivemos em meio a uma pandemia sem precedentes, não somos capazes (ainda) sequer de mudar para outro planeta, que dirá para outro universo. Aí uma notícia "bomba" na internet dizendo que existe um universo paralelo onde o tempo corre ao contrário e, bom, já pensou que incrível seria ir pra lá e voltar ao ano de 2019, depois 2018, 2017… quando a COVID-19 não ameaçava a nossa existência? Seria realmente incrível, mas sentimos informar que essa ideia vai continuar existindo apenas no imaginário popular e nos roteiros de ficção científica mesmo.

De onde surgiu tudo isso? O que está acontecendo?

Universos paralelos no chamado "multiverso" são uma área de estudo da ciência e, apesar de serem um conceito realmente incrível, ainda existem apenas no campo das hipóteses (Imagem: geralt/Pixabay)

Em primeiro lugar, realmente existe um artigo original sobre isso, publicado na renomada New Scientist no dia 8 de abril. Contudo, em momento algum a publicação fala "cientistas da NASA", antes de qualquer coisa. A publicação chamada "Podemos ter visto um universo paralelo retrocedendo no tempo" (na tradução literal) foi feita com base em um estudo real e válido conduzido por pesquisadores do Antarctic Impulsive Transient Antenna (ANITA), experimento que foi financiado por pesquisadores da NASA, mas não é "da NASA".

Atentem-se ao "podemos ter visto". Podemos. Não vimos. Estamos longe disso, na verdade. Tal relatório do pessoal do ANITA revela descobertas relacionadas aos neutrinos, partículas "fantasmagóricas" de alta energia que constantemente bombardeiam nosso planeta. Para estudá-los, são usadas uma série de antenas de rádio presas a um balão de hélio, voando sobre uma camada de gelo na Antártida a 37 mil metros de altitude — algo mais ou menos quatro vezes mais elevado que um voo comercial. Calma, pois neutrinos não são ameaça alguma: eles passam por quase tudo o que é sólido, inclusive por nós, sem que ninguém perceba absolutamente nada. Apesar de raramente interagirem com a matéria, os neutrinos se chocam contra átomos, produzindo uma chuva de partículas secundárias que, aí sim, podemos detectar. Ao fazê-lo, pesquisadores podem estimar de onde eles vieram no universo. E é justamente esse o trabalho do ANITA, que detecta neutrinos colidindo com átomos acima dessa camada de gelo na Antártida.

Eis que o pessoal da ANITA, nos últimos anos, já detectou vários eventos que consideraram incomuns, com neutrinos parecendo vir do interior da Terra, e não do espaço. Seria possível, então, que eles estivessem vindo de um universo paralelo espelhado ao nosso? É isso que o artigo original especula. Especula. Não afirma. Só que tal explicação quanto à origem desses neutrinos estranhos acaba desafiando as leis da física que temos como verdadeiras hoje em dia. Por isso, muita gente por aí está afirmando que "a descoberta contraria as leis da física", com um tanto de distorção dos fatos — e sensacionalismo como a cereja do bolo.

Desinformação, sensacionalismo e irresponsabilidade

Um universo paralelo ao nosso em que o tempo retrocede. Muito legal, mas pura imaginação (Imagem: Graham Carter)

Não é de hoje que a NASA acaba sendo associada a descobertas "explosivas" sobre coisas relacionadas ao universo, quando a agência espacial não teve absolutamente nada a ver com aquela história. É como se apenas a NASA estudasse o espaço, algo que já deveria ter caído por terra há muito tempo, já que isso nunca foi verdade, desde os primórdios da exploração espacial. Ou será que a NASA continua sendo associada dessa maneira só porque seu nome dá audiência e passa uma falsa sensação de credibilidade?

Desconfie sempre que vir notícias falando coisas como "NASA descobre" ou "Cientistas da NASA confirmam" se o texto não informar o nome de tais cientistas, não fornecer a fonte daquela informação, não informar o nome do estudo original e em que periódico científico ele foi publicado. É muito fácil sair falando sobre "descobertas da NASA" sem informar de onde veio tudo isso. Pensem com a gente: se cientistas da NASA realmente tivessem descoberto evidências de universos paralelos, a própria agência espacial não divulgaria essa "bomba" em absolutamente todos os seus canais de comunicação (incluindo seu site oficial)? Ao acessar o site nasa.gov, em poucos segundos vemos que não há absolutamente nada a respeito publicado ali.

Em meio a uma pandemia que está mexendo com a cabeça de todo mundo, é de extrema irresponsabilidade divulgar supostas descobertas espaciais tão sensacionais como seria esta das evidências de universos paralelos — algo que mudaria radicalmente os rumos da ciência depois disso e, consequentemente, abalaria a sociedade em diversos níveis. As pessoas não aguentam mais lidar com notícias pesadas o tempo todo, e se apegam ainda mais intensamente a qualquer possibilidade de boa notícia que aparece em seus feeds. Justamente agora, a mídia precisa assumir o seu papel informativo e não cair em manchetes sensacionalistas de tabloides internacionais, não entrar no frenesi do "primeiro a publicar", deixando o oportunismo de lado e focando em ajudar a população, que já está sofrida o suficiente.

Uma das responsabilidades da imprensa é justamente a checagem de fatos antes de qualquer coisa, algo que parece estar em falta nas prateleiras do mercado. Encerramos este artigo com uma célebre declaração de Carl Sagan: "Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias". Chega de desinformação!


Fonte: Canaltech