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Facebook remove anúncios de Trump por veicular discurso de ódio

Rafael Arbulu

Depois de dizer que não removeria anúncios potencialmente controversos de figuras políticas da plataforma, o Facebook deletou publicidade potencialmente controversa de uma figura política: o presidente americano e candidato à reeleição Donald Trump veiculou uma série de anúncios que acabou barrada por supostamente violar a política da empresa contra postagem de símbolos ou discurso de ódio. Ao todo, foram 88 publicações apagadas.

No caso, as publicidades traziam a imagem de um triângulo vermelho invertido, uma figura que, na Segunda Guerra Mundial, foi usada pelos nazistas para identificarem dissidentes políticos em campos de concentração. A medida foi tomada após alguns usuários no Twitter apontarem o real significado dessas mensagens e cobrarem uma atitude de Mark Zuckerberg.

Em um comunicado enviado à emissora americana NBC via e-mail, um porta-voz do Facebook disse: "nossa política proíbe o uso de simbologia banida, pertinente a grupos de ódio e usadas para identificar prisioneiros sem o devido contexto que condene ou discuta o [peso histórico] do referido símbolo”.

O presidente americano Donald Trump (esq.) e o CEO e cofundador do Facebook, Mark Zuckerberg (dir.) durante encontro com executivos do Vale do Silício, na Casa Branca: o Facebook recentemente removeu anúncios veiculados pela equipe de Trump que continham símbolo similar ao que era usado nos campos de concentração nazistas (Imagem: Reprodução/Fast Company)

Embora possa parecer um conflito com recentes posicionamentos da empresa, é importante ressaltar que não houve nenhuma resistência da parte do Facebook em remover os 88 anúncios. Conforme indicam as normas de conduta da rede, a empresa “não permite discurso de ódio (...), pois ele cria um ambiente de intimidação e de exclusão que, em alguns casos, pode promover violência no mundo real”. A página oficial de regras e política interna diz: “Definimos discurso de ódio como um ataque direto a pessoas com base no que chamamos de características protegidas: raça, etnia, nacionalidade, filiação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença grave ou deficiência”.

Outras mensagens contendo os mesmos textos, mas trazendo símbolos diferentes, como pontos de exclamação e símbolos de “PARE” similar aos que se vê no trânsito, foram mantidos e seguem no ar. Toda a série de anúncios foi publicada por três contas: a página oficial do presidente, bem como sua página oficial da campanha de reeleição; e a página oficial do vice-presidente Mike Pence. Tudo foi originalmente publicado na manhã de quarta-feira (17).

Grupos organizam boicote

De acordo com o Business Insider, diversos grupos de direitos humanos estão abordando agências de publicidade, pedindo a todas que parem de usar a maior rede social do mundo como plataforma para seus clientes.

A situação toda teria começado com posts publicados pela conta oficial de Donald Trump, em resposta aos protestos originados pelo assassinato do cidadão negro George Floyd por um policial branco em Minneapolis, no começo do mês. Os manifestantes acusam o Facebook de não tratar essas postagens com o devido rigor, pois a companhia não agiu prontamente, mesmo após denúncias sobre o conteúdo. O Twitter, que já baniu anúncios políticos ao final de 2019, deletou rapidamente as postagens de Trump, o que motivou ainda mais críticas à postura diferente tomada pela empresa de Mark Zuckerberg.

Três agências de publicidade confirmaram ao Business Insider terem recebido memorandos do Facebook — dois deles, assinados por Carolyn Everson, vice-presidente de soluções de marketing da empresa —, afirmando terem conhecimento dos pedidos feitos pelas organizações de direitos humanos. Uma cópia do material foi enviada ao site, que divulgou seu conteúdo:

A plataforma Facebook Ads corresponde a 98% do faturamento da rede social, segundo o Business Insider, com seus recursos sendo usados por empresas, marca e políticos para veicularem mensagens via postagens pagas (Imagem: Divulgação/Facebook)

“Existem pressões concorrentes diárias no ato de se gerenciar uma plataforma. O foco do Facebook é o de agir onde é mais importante: remover o discurso de ódio e o conteúdo que fere comunidades, enquanto usamos nossa plataforma para esforços como o oferecimento de informação definitiva sobre votações e o registro de eleitores”. O memorando ainda abre a possibilidade de reuniões para conversas e feedbacks entre a rede e as agências.

A parte sobre “registro dos eleitores” refere-se à nova campanha organizada pelo Facebook nos Estados Unidos, que inclui diversas funções, como o apontamento de locais para cadastro, pontos de votação física, orientações para pleito online via e-mail e também a possibilidade de desligar anúncios políticos durante o período de campanha dos candidatos à presidência dos EUA. As eleições estão previstas para novembro de 2020.

Embora ações similares de boicote tenham sido conduzidas no passado, a situação atual parece ter realmente impactado o Facebook: ao Business Insider, a agência IPG Mediabrands afirmou que, no momento atual, a rede social tornou-se um problema para “segurança de marcas e não ativismo político”, ao passo que outras duas fontes de agências diferentes confirmaram estarem aconselhando seus clientes a não contarem com o produto de Mark Zuckerberg como canal publicitário.

"Tomamos um posicionamento mais firme”, diz a fonte, cujo nome foi preservado. “Acho que veremos uma série de marcas nos próximos dias vindo a público para confirmar não investirem no Facebook no mês de julho”.

Publicidades veiculadas pelo candidato à reeleição na presidência dos Estados Unidos traziam um triângulo invertido de cabeça para baixo, uma figura que, na Segunda Guerra Mundial, foi usada pelos nazistas para identificar opositores políticos em campos de concentração

Fonte: Canaltech