Mercado fechará em 4 h 24 min

Facebook atrasa e reduz envio de dados para trabalhos acadêmicos

Wagner Wakka

Desde o escândalo do Cambridge Analytica é que o Facebook está buscando formas de soltar, aos poucos, dados para que pesquisadores possam trabalhar em universidades em todo mundo. Em 2018, a empresa anunciou o Social Science One, uma instituição independente da rede social com o objetivo de mediar a conversa entre o meio acadêmico e o Facebook. Somente em maio deste ano é que foram revelados os primeiros pesquisadores a terem acesso estas informações em seus estudos, a maioria voltados a como a rede social influencia em eleições e espectros políticos regionais.

Contudo, apesar dos esforços apresentados, os trabalhos não caminham conforme esperado. O BuzzFeed News conversou com uma série de pesquisadores e pessoas ligadas ao Social Science One e descobriu que vários estudos ainda permanecem parados por atrasos por parte do Facebook.

As entrevistas revelam uma série de frustrações não só dos pesquisadores, mas de organizações financiadoras do Social Science One, muitas delas, fundações de filantropia de todo mundo. O site disse ter consultado tais financiadores, sendo que a discussão de bastidores seria aumentar a pressão sobre a rede social para que os dados sejam entregues.

Grande parte da preocupação de pesquisadores é que, sem saber exatamente quando informações serão enviadas, ficam sem montar seus cronogramas e enfrentam problemas de gerenciamento de equipes. A empresa carrega ainda o estigma de atrasos relacionados a abertura de informações. Por exemplo, ela fechou parcerias com companhias de checagem de fatos em 2016, e só agora começa a efetivamente a entregar dados para que estas empresas façam seu trabalho.

Outro exemplo é um serviço que informa toda biblioteca de publicidade de uma conta voltada para campanha política. O objetivo era apresentar ao usuário, de forma fácil, informações sobre origem e montante investidos em campanhas para eleições. Contudo, pesquisas mostram que tais dados estão incompletos ainda.

Tudo isso vai minando aos poucos a credibilidade que pesquisadores colocaram no Social Science One. “Eu acho que a única forma de me sentir razoavelmente confiante sobre esse projeto é ignorar tudo que tem acontecido nos últimos 16 meses. Se você olhar para trás e ver de onde partimos e onde estamos agora, é uma queda enorme”, aponta uma das fontes consultadas pelo BuzzFeed News.

O veículo também falou com alguns porta-vozes do Facebook. A empresa se defende dizendo que reconhece que alguns dados prometidos ainda não foram entregues. Ainda, muitos deles podem nem chegar às mãos de pesquisadores. O motivo disso são preocupações com “privacidade, segurança e a necessidade de adequação a leis como o GDPR da Europa”.

Ainda, segundo fontes consultadas também pelo BuzzFeed News, a rede social teve uma reunião com a diretoria do Social Science One em que se combinou que, para entregar tais dados, eles seriam mais simples do que o prometido no começo. Na mente da companhia, é melhor entregar dados incompletos do que não oferecer nada a pesquisadores.

Estudo

O Facebook passou a olhar melhor para os dados que está oferecendo a pesquisadores por conta do caso Cambridge Analytica, o escândalo que resultou no uso indevido de informações de mais de 87 milhões de usuários da plataforma. A empresa conseguiu ter acesso a tais dados sob o pretexto de pesquisa acadêmica exatamente para a Universidade de Cambridge.

Desde 2017, quando as primeiras informações do caso chegaram ao Facebook, a rede social cortou dados de pesquisadores sobre o meio. “Este foi um escândalo, claro, para a empresa, mas também um escândalo para o universo acadêmico”, contou em maio deste ano, o Canaltech, o professor Pablo Ortellado. Ele é um dos acadêmicos que utiliza informações da rede social para mapear, contar e analisar dados do debate político no meio digital, principalmente no Facebook. Professor da Universidade de São Paulo, ele desenvolve o Monitor do Debate Político no Meio Digital.

A pesquisa foi uma das 12 selecionadas em todo mundo em maio deste ano para ter acesso aos dados prometidos pelo Social Science One. A ideia é pegar cada matéria produzida, com seus números de compartilhamento e comentários, e organizar por veículos e categoria. Assim, os pesquisadores conseguem oferecer um relatório e análise do comportamento político de usuários da rede social.

A nossa reportagem procurou o professor agora para saber se tais dados também estão em atraso com a pesquisa aqui no Brasil e aguarda resposta do acadêmico. Também procuramos a assessoria do Facebook por aqui e aguardamos resposta.

Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: