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Fã da Disney, casal largou emprego em multinacional para abrir agência de viagem especializada

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Melissa Santos

A paixão de Rebeca Lopes pela Disney começou quando ela tinha por volta de 10 anos e seus pais a levaram para Orlando de surpresa. Ela só soube dentro do avião que estava indo conhecer o Mickey. O primeiro contato bastou para que ela se apaixonasse e visitasse a cidade americana várias outras vezes depois.

Depois que começou a namorar com Felipe Magalhães, em 2007, ela convenceu o namorado a fazer uma viagem com ela para o local. “Eu estava relutante. Achava que não ia gostar e que só tinha coisa para criança. Quando cheguei lá, me encantei, vi que não era só aquela coisa de personagem e que tinha programas para adultos também”, relembra Felipe.

A viagem foi tão boa para o casal que eles voltaram já planejando a próxima empreitada. “Trabalhávamos em uma multinacional e vivíamos juntando dinheiro para ir de novo e de novo. Sempre traçávamos planos e metas para conseguir ir para Orlando”, conta.

O casal voltou para os parques novamente em 2009, 2011, 2013 e 2014 e, em uma dessas viagens, eles foram comprar pacote de viagens em uma empresa no Rio de Janeiro, onde moravam, e Rebeca chegou já com o roteiro montado. “Na pasta, tinha todo itinerário dos parques, horário de abertura, fechamento, endereço, restaurantes e atrações. Tudo muito detalhado, pois ela vivia a viagem antes de acontecer. A diretora da agência ficou pasma e falou o quanto aquilo era valioso e que os clientes que fechavam viagem lá sempre ligavam dos Estados Unidos querendo indicações de lugares e etc.”, conta.

A venda de roteiros

A princípio, o casal nunca tinha pensado em vender os roteiros. Em 2011, eles criaram uma página no Facebook para dar dicas de viagem, mas ainda sem a pretensão de trabalhar com os roteiros comercialmente. “Lá a gente publicava onde íamos e o que acontecia na nossa viagem. Dávamos dicas e a audiência era bem legal”, relembra.

Rebeca começou a fazer roteiros para Disney a pedido dos amigos e passou a cobrar por isso. “A gente teve noção de que valia a pena investir em uma conversa com amigos que tinham acabado de voltar de lá. A Rebeca perguntou se eles tinham ido em determinado show e os nossos amigos disseram que perderam por falta de planejamento. Foi aí que tivemos certeza que muita gente sai do Brasil sem planos e perde muita coisa, mesmo investindo uma grana na viagem e hospedagem. Sacamos que tínhamos um público para atender”, fala.

Os dois criaram um site para receber pedidos de forma profissional e o boom dos blogs fez com que a procura aumentasse ainda mais, pois, na visão de Felipe, o excesso de informação disponível mais confunde do que ajuda. “A gente pega e consolida o roteiro e ele é feito de forma personalizada. Esse foi o lance que impulsionou o crescimento da empresa. A gente passou a usar nossos conhecimentos e informações para que as pessoas economizassem tempo na hora de planejar a viagem”, conta.

Além disso, os serviços da Rumo a Orlando também tinham objetivo de otimizar os custos, economizar na alimentação, deslocamento e etc.

A decisão de trabalhar só ramo turístico

De início, Felipe e Rebeca mantiveram os empregos e, com o passar do tempo, perceberam que não queriam mais saber do mundo corporativo, mas sim trabalhar com a venda e planejamento de viagem. “Ficamos três anos fazendo os dois e em 2015 que resolvemos largar o emprego e nos dedicar só a empresa”, fala.

A mudança de endereço foi um processo. O casal decidiu ir para os Estados Unidos porque, como estava produzindo uma série de conteúdos para as redes sociais da empresa, precisava estar em Orlando. “Fazia sentido a gente estar aqui, onde estão nossos produtos e conteúdos. Antes de mudarmos, gastávamos muito com viagens para produzir os vídeos. Sem eles, não teríamos conquistado o público que temos hoje”, opina.

Com o passar do tempo, Felipe e Rebeca identificaram outra oportunidade de negócio: a de vender produtos de viagem, além da consultoria de roteiro. “Hoje, o roteiro segue como ‘core’ do negócio, mas vendemos todos os produtos para a viagem e foi aí que tivemos um boom de crescimento. Notamos que era um nicho, pois outros concorrentes vendiam um ingresso para um parque mais barato, aí a pessoa comprava e não reparava que tinha um prazo de uso. Agora, a pessoa pode organizar, comprar e reservar tudo da viagem com a gente e eles confiam que nós sabemos o que estamos fazendo”, disse.

Felipe não vê a demora em entrar nesse mercado como um arrependimento, mas tem certeza que se tivesse a cabeça que tem hoje, logo teria adentrado esse campo. “Demoramos três anos para perceber que essa era a virada de chave para aumentar nosso faturamento, que pulou para mais de 150%. Se tivéssemos conhecimento que a empresa tinha potencial de ir além dos roteiros, logo teríamos nos planejado”, diz.

Maior desafio é conquistar espaço no mercado

Na opinião de Felipe, um dos maiores desafios da Rumo a Orlando é concorrer contra os maiores players do mercado, que tem dinheiro para investir em propagandas na televisão e etc. “Tem empresa que vende pacote pra Disney por que é fácil de vender, é uma coisa que mexe com o sonho das pessoas. Há quem deixe de trocar o carro só para ir para lá. Então, qualquer um consegue entrar no nicho, mesmo sem grande conhecimento, mas o que faz com que a gente se destaque é a nossa credibilidade”, afirma.

Segundo o empreendedor, a Rumo a Orlando tem clientes fiéis que chegam a comprar com eles pacotes anualmente. “Nem sempre nosso preço é o menor do mercado, mas eu sei o que estou vendendo, entendo da viagem que ele quer fazer, falo o que vale a pena fazer ou não. A gente se renova e estuda sempre, participa de todos os eventos e lançamentos. Tudo para conseguir passar para os nossos clientes”, diz.

Atualmente, a Rumo a Orlando conta com uma equipe de vendas e outra de produção de conteúdo. Enquanto Felipe cuida da área de vendas, Rebeca foca nos roteiros e em alguns trabalhos como guia turística, que lhe dão satisfação. “Ainda estamos no front e não pretendemos sair tão cedo. Temos funcionários na nossa equipe e pensamos em ampliar para poder trabalhar de forma mais estratégica, estudar mercado, ver tendências e etc”, revela.

Nicho é dica para empreender no ramo

Para Felipe, a dica para empreender em um negócio de sucesso é não fazer algo apenas visando o lucro. “Esse propósito é errado. Você tem que se identificar com aquilo que quer investir, fazer o que gosta… Pode até parecer clichê, mas é importante procurar uma oportunidade que seja uma necessidade das pessoas. No nosso caso, as pessoas precisavam dos roteiros de viagens e nós gostávamos de fazer, então, unimos o útil ao agradável”, fala.

Já quem pensa em investir em viagem, Felipe acredita que buscar um nicho é uma boa opção para engajar pessoas interessadas no determinado destino. “Por exemplo, não existe uma agência especializada em Dubai, que só fale sobre isso, venda ingressos para as atrações de lá e etc. Por isso, quem gosta muito de determinado destino, pode se especializar, estudar e começar a vender pacotes para lá…”, sugere.

Nem mesmo o aumento do dólar em 2015 impediu os clientes de fecharem serviços com a Rumo a Orlando. “Crise é sinônimo de oportunidade. Quando o dólar foi para R$ 4,20, nós criamos um guia para planejar a viagem em tempos de crise, já que tinha muita gente com a viagem comprado quando a moeda americana aumentou. No guia, a gente traz várias estratégias para economizar e nós ainda capitalizamos em cima da crise. O empreendedor tem que estar atento ao seu redor sempre”, diz.

Um dos próximos objetivos da Rumo a Orlando é que a agência seja a maior referência para esse destino. “Vai demorar um pouco para que todos saibam da nossa existência, mas acho totalmente possível. Quanto mais a gente faz um trabalho bem feito, mais clientes nos buscam por indicações de amigos e familiares”, fala.