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Fóssil de "chiclete" revela germes e DNA de quem o mascou há quase 6 mil anos

Fidel Forato

Pense rápido: há quantos anos você acha que foi "inventada" a goma de mascar? A resposta aproximada pode ter sido atualizada recentemente: com uma espécie de chiclete natural, de uns 2 centímentros, encontrado na Dinamarca, uma equipe de geneticistas foi capaz de extrair uma quantidade sem precedentes de DNA presente na amostra, e sequenciar todo o genoma humano de quem o mascava — no caso, uma jovem mulher apelidada de Lola. A descoberta é um marco, pois foi a primeira vez que, usando qualquer material fossilizado (que não fossem ossos humanos), cientistas fizeram a "engenharia reversa" e conseguiram chegar ao sequenciamento.

Mais surpreendente ainda, segundo estudo publicado na revista Nature Communications, é que a equipe de pesquisadores, liderada pelo geneticista Hannes Schroeder, foi capaz de analisar os genes de 40 micróbios preservados da boca de Lola e alguns patógenos — aqueles micróbios que podem causar doenças em seu hospedeiro, como bactérias. 

Na amostra de chiclete, foi possível detectar bactérias como a Porphyromonas gingivalis, um germe que pode causar doenças na gengiva, e Streptococcus pneumoniae, ligado à pneumonia. Também foram encontrados traços do vírus Epstein-Barr, da família do herpes, conhecido por causar a mononucleose ou a doença do beijo, como é conhecida popularmente.

"Agora podemos ver a evolução de patógenos específicos, como o Epstein-Barr, e como esses vírus mudaram em termos de virulência", disse Schroeder. "Ser capaz de obter os genomas desses patógenos antigos permite que você veja como eles evoluíram e se espalharam."

Vale lembrar, que a presença da bactéria não significa necessariamente que Lola estava doente, pois os germes, como os da herpes, podem estar presentes em uma pessoa sem manifestar sintomas. A descoberta pode, no entanto, ajudar os cientistas a entenderem melhor como os germes mudaram ao longo de milhares de anos e como eles podem evoluir ainda mais no futuro.

Chiclete de 5.700 anos revela muito da história dos germes no planeta (Foto: Theis Jensen/ Business Insider)

Goma de bétula e cola

Tudo isso só foi possível pela preservação da uma suposta goma de mascar. Especificamente, essa ancestral humano mastigava um pedaço de bétula — uma versão pegajosa e aquecida da casca de uma árvore de bétula (em termos comparativos, uma espécie próxima dos carvalhos) com alcatrão, que é basicamente uma mistura pegajosa de substâncias orgânicas destiladas.

"Talvez, assim como as crianças de hoje adoram, isso fosse um tipo de chiclete", afirma o pesquisador Schroeder. "Mas não era doce como chiclete." O geneticista ainda explica que nunca provou a casca de bétula, mas presume ter um sabor amargo. Além disso, o alcatrão — encontrado junto da massa de mascar — pode ter propriedades anti-sépticas e antibacterianas.

Os caçadores antigos usavam o alcatrão como um adesivo para colar as pontas das flechas em seus suportes e fixar as lâminas de pedra em cabos de madeira. Também é possível sugerir outros usos, "como aliviar dores de dente ou suprimir a fome", acrescentou Schroeder.

Simulação de mulher que viveu há mais de 5.000 anos na Dinamarca (Foto: Tom Björklund/ Business Insider)

A história de quem mascou

Há cerca de 5.700 anos, a história que permitiu essas descobertas começa com uma mulher que, após se alimentar de uma porção de avelãs e carne de pato, foi mascar um pedaço desse tal chiclete — algo muito comum no século XXI. E depois do chiclete perder o "gosto", essa caçadora e coletora jogou a bétula mastigada em uma lagoa salgada, que é hoje o lago Lolland, na Dinamarca.

Desde então, a amostra tinha se mantido preservada até que uma equipe de arqueólogos a descobriu no ano passado. A partir dela, "podemos aprender muito com todo um genoma: história da população, características físicas e características fenotípicas", comenta Schroeder. "É uma riqueza de informações que somos capazes de extrair dessa goma de mascar".

Pelas informações descobertas de Lola, os cientistas estimam que ela tinha a pele e os cabelos escuros, além de olhos azuis. Mais do que descobrir sua fisionomia e os germes que trazia, a amostra determinou também suas origens e a história da própria Dinamarca. 

Segundo a pesquisa, seus genes estavam mais relacionados aos caçadores e coletores da Europa continental do que os grupos que viviam na Escandinávia na época. Isso diz aos arqueólogos sobre como a Dinamarca foi povoada. Pelo vestígio encontrado, a ideia é que a colonização da Dinamarca tenha começado pelo sul do país, onde fica o lago Lolland. 

Com as evidências fósseis encontradas perto da goma de mascar, os cientistas também descobriram que a vila de Lola se alimentava, principalmente, da pesca e da caça como alimento. Até porque ossos de gado, veados e lontras tinham sido depositados na mesma região, ao lado de restos de armadilhas para peixes.

Depois de tantas informações descobertas de uma única goma de mascar, vale tomar bastante cuidado na hora de jogar seu chiclete fora. 



Fonte: Canaltech

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