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Explorar Vênus é um desafio e tanto, mas a NASA está empenhada nessa missão

Patrícia Gnipper

A NASA vem falando recentemente em voltar a explorar Vênus com missões presenciais, contando com sondas e robôs — e possivelmente até astronautas — nesta próxima década. O segundo planeta a partir do Sol já foi estudado inicialmente no século passado, mas ainda é recheado de mistérios que, caso resolvidos, podem proporcionar avanços para o nosso próprio planeta, além de, claro, aumentar nosso conhecimento sobre o Sistema Solar.

A última missão norte-americana rumo a Vênus foi a Magellan, há quase 30 anos; então, a agência espacial entende que já passou da hora de voltar a estudar o "planeta infernal", contando, agora, com tecnologias e avanços científicos que não existiam naquela época.

Vênus é um mundo intrigante por ter características geológicas similares às da Terra, porém com diferenças cruciais para determinar suas condições inóspitas para a vida. O planeta tem mais vulcões em sua superfície do que qualquer outro mundo do Sistema Solar, além de fendas gigantescas, montanhas imponentes e temperaturas elevadas ao ponto de derreter chumbo. Ainda, seu efeito estufa intenso faz com que o clima do planeta seja, literalmente, infernal, com uma pressão atmosférica igualmente intensa e insuportável para nós. Contudo, Vênus já foi mais parecido com a Terra, e entender seu processo de superaquecimento pode fornecer pistas essenciais para que possamos impedir que o mesmo aconteça com a nossa morada.

"Vênus é como o caso de controle para a Terra. Acreditamos que eles [ambos os planetas] começaram com a mesma composição, a mesma água e dióxido de carbono. E seguiram dois caminhos completamente diferentes. Então, por quê? Quais são as principais forças responsáveis ​​pelas diferenças?", indaga a cientista planetária Sue Smrekar da NASA.

Ela trabalha com o Venus Exploration Analysis Group (VEXAG), que é um grupo de cientistas e engenheiros reunidos com o objetivo de investigar maneiras de visitar novamente o planeta explorado pela missão Magellan em 1990. E eles já tiveram algumas ideias de como retomar essa exploração.

Sondas orbitais

Fazer com que uma nave sobreviva após o pouso na superfície venusiana é um desafio e tanto. Afinal, as temperaturas lá ficam na casa dos 480 graus Celsius e, além de tudo, as nuvens sulfúricas corrosivas representam outro perigo, enquanto a atmosfera 90 vezes mais densa do que a Terra gera uma pressão esmagadora em qualquer objeto que porventura esteja por lá. Entre as nove sondas soviéticas enviadas para lá com o programa Venera, nenhuma sobreviveu por mais de 127 minutos, por exemplo.

Então, uma saída palpável para isso é enviar sondas orbitais para fazer observações do alto. Equipada com radar de espectroscopia no infravermelho, uma sonda é capaz de "enxergar" o que há abaixo das camadas de nuvens, medindo mudanças nas paisagens do planeta ao longo do tempo e, assim, fornecendo dados para entendermos os ciclos de Vênus. Tal sonda também pode procurar por indicadores de água passada, além de analisar a atividade vulcânica e outras forças que possivelmente moldaram a superfície.

Smrekar vem trabalhando em uma proposta de sonda orbital chamada VERITAS, que teria como objetivo principal estudar a formação geológica do planeta — não se sabe, por exemplo, se Vênus tem placas tectônicas como as da Terra, mas é certo que há alguma movimentação ali para proporcionar a atividade vulcânica.

Balões de ar quente na atmosfera

Outra maneira de observar Vênus do alto seria contar com balões de ar quente. Como nos níveis superiores da atmosfera venusiana as temperaturas são mais próximas às da Terra, esses balões conseguiriam não somente "sobreviver" sem exigir muitas tecnologias de proteção, como também usar os ventos atmosféricos para se movimentar sem a necessidade de combustível.

Engenheiros da NASA testam balão capaz de medir terremotos no ar, e a ideia é que um balão do tipo possa medir os "venusquakes", equivalentes a terremotos que acontecem em Vênus, a partir da atmosfera superior do planeta (Foto: NASA/JPL-Caltech)

Tal balão poderia ser equipado com sismômetros sensíveis o bastante para que os "venusquakes", equivalentes aos terremotos, sejam medidos a partir da atmosfera. É que, aqui na Terra, quando acontece um terremoto, o movimento gerado no solo causa ondulações na atmosfera como ondas de infra-som, então, na teoria, o mesmo deve acontecer em Vênus e, portanto, um balão atmosférico poderia fazer essas medições.

Sondas posicionadas na superfície

Por fim, sondas capazes de pousar no solo não devem ser descartadas, ainda que esta opção represente desafios mesmo com os avanços tecnológicos do momento. É que a atmosfera venusiana é extremamente densa, então a luz solar acaba sendo bloqueada; ou seja, tal nave não poderia contar com energia solar para operar. Ainda, o planeta é quente demais para que outras fontes de energia funcionem.

Sendo assim, a vida útil de uma sonda do tipo certamente seria muito mais curta do que vemos acontecer em outros mundos. Para Jeff Hall, engenheiro do JPL que trabalhou em protótipos de um balão de aterrissagem para Vênus, "não há esperança de refrigerar uma sonda para mantê-la fresca; tudo o que você pode fazer é diminuir a taxa na qual ela se destruirá". Isso porque a quantidade de energia necessária para alimentar um refrigerador capaz de proteger uma nave em Vênus exigiria muito mais baterias do que uma sonda seria capaz de transportar para lá.

Superfície de Vênus, apesar de geologicamente ter semelhanças com a da Terra, é inóspita o suficiente para impedir a sobrevivência até de máquinas (Imagem: NASA)

O conceito de Hall, no entanto, não chegou à etapa do processo de aprovação. Mas ele não se deu por vencido: seu trabalho acabou rendendo uma outra ideia, envolvendo um sistema de perfuração para coletar amostras do solo de Vênus, e esse sistema seria resistente ao calor por tempo suficiente para a coleta e análise das amostras. Tal sistema está sendo testado em laboratórios do JPL que simulam as condições sufocantes do planeta e, a cada teste bem-sucedido, a equipe chega mais perto de viabilizar uma exploração sem precedentes do "planeta infernal" que é o vizinho da Terra no Sistema Solar.

Fonte: Canaltech

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