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Explicação de protestos globais não se restringe a desigualdade

Ben Holland
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Explicação de protestos globais não se restringe a desigualdade

(Bloomberg) -- A profunda divisão entre ricos e pobres amplia a onda global de protestos, mas é apenas uma das queixas que levam a população às ruas, de acordo com um dos principais estudiosos da desigualdade econômica.

O quadro de desigualdade na América Latina ajuda a explicar as manifestações que explodiram no Chile no mês passado, diz Branko Milanovic, ex-economista do Banco Mundial que criou o “gráfico de elefante” — que revelou os vencedores e perdedores da globalização e recebeu este nome por causa do formato de sua curva.

Mas no Oriente Médio, outra região com tumultos generalizados e quase nenhum crescimento econômico, ele vê um quadro diferente, com raiva dirigida a sistemas políticos que protegem as elites contra qualquer tipo de mudança.

Protestos forçaram a renúncia dos líderes do Líbano e da Argélia, derrubaram o regime no Sudão e deixaram o governo do Iraque à beira do colapso. “Não acho que podemos criar uma narrativa geral de desigualdade” para explicar todos esses eventos, diz Milanovic, que recentemente lançou o livro “Capitalism, Alone” (“Capitalismo, Sozinho”, em tradução livre) e é professor da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

Há também um “sentimento de exclusão de qualquer tipo de decisão significativa, uma certa exaustão”, acrescenta ele. “As pessoas sentem que ninguém se preocupa com elas, que seus representantes políticos só se preocupam em ficar ricos ou que são globalistas demais.”

Manifestações em países latino-americanos como Chile e Equador são direcionadas a governos favoráveis ao mercado que tomaram medidas que elevaram o custo de vida para quem menos pode pagar. Os argentinos acabaram de mandar para casa um presidente que impunha austeridade, preferindo um populista de esquerda que prometeu uma economia mais igualitária.

Dois tipos de desigualdadeAs disparidades de riqueza entre os países são muito mais acentuadas no Oriente Médio, onde estão algumas das economias mais abastadas do mundo (os pequenos petro-estados do Golfo Pérsico) e outras paupérrimas (como o Iêmen). Por isso, a região tem uma posição de destaque em rankings de desigualdade.

No entanto, internamente, nos países do Oriente Médio, a desigualdade é geralmente menor que na América Latina. Governos com ativos energéticos frequentemente distribuem parte da receita entre seus cidadãos (os não cidadãos que vivem nos estados do Golfo, como os trabalhadores imigrantes que constroem arranha-céus em Dubai ou Abu Dhabi, não recebem essa parcela).

“Eles não se importam”

Os latino-americanos podem votar para mudar as políticas públicas e têm feito isso ultimamente, com o poder oscilando entre esquerda e direita.

No Oriente Médio, no entanto, regimes como o da Argélia revoltam a população ao oferecer uma democracia sem substância, diz Milanovic. “Eles convocam eleições, mas essencialmente não se importam com os votos das pessoas. “

Outro tipo de regime do Oriente Médio é produto da guerra, como no Líbano e Iraque. Conflitos entre grupos religiosos ou étnicos foram resolvidos com a distribuição de participações nos governos — ou pelo menos participações dadas às elites dentro de cada grupo, que agora são acusadas de atuar em favor do próprio bolso e do bolso de seus clientes.

Sistemas dessa natureza incentivam a corrupção porque se baseiam em coalizões permanentes ou relativamente permanentes, que não podem se dissolver sem incorrer risco de o conflito ser reacendido, de acordo com Milanovic. Ele nasceu na antiga Iugoslávia e viu dinâmicas semelhantes nos frágeis estados dos Balcãs. “A única maneira de existir é essencialmente legalizar a roubalheira por forças étnicas ou religiosas”.

--Com a colaboração de Alaa Shahine, Jordan Yadoo e Juan Pablo Spinetto.

Repórter da matéria original: Ben Holland Washington, bholland1@bloomberg.net

Para entrar em contato com os editores responsáveis: Simon Kennedy, skennedy4@bloomberg.net, Alaa Shahine, Sarah McGregor

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