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'As expectativas não foram cumpridas', diz ex-presidente Sarney sobre Mercosul

Jordi MIRO
·4 minuto de leitura
José Sarney em entrevista com a AFP em Brasília, em 19 de março

O ex-presidente José Sarney (1985-90), um dos precursores do Mercosul, acredita que o bloco "não atendeu às expectativas" de integração regional com as quais foi criado há 30 anos.

Primeiro presidente civil do país após o fim da ditadura (1964-85), Sarney assinou em 1985 junto ao homólogo argentino Raúl Alfonsín a histórica Declaração de Iguaçu, que lançou as bases do bloco fundado por esses dois países junto a Uruguai e Paraguai.

Aos 90 anos, esse advogado, político e escritor - característico por seu grosso bigode e penteado para trás - resgatou, a partir de entrevista à AFP em sua residência em Brasília, que o Mercosul acabou com "a rivalidade Brasil-argentina", assim como o aumento do comércio e do turismo entre seus países-membros.

Mas lamentou que o excesso de politização, a falta de vontade de integração e as disputas internas tenham deixado o bloco estagnado.

E alertou que as propostas de autorizar os quatro sócios a negociarem separadamente acordos comerciais com terceiros podem enfraquecer a posição de cada um deles perante o mundo.

Pergunta: O Mercosul de agora se parece com o que você e Alfonsín projetaram?

Resposta: O nosso ideal era fazer uma união como a Europa fez. O sucesso da União Europeia foi que não quis fazer uma integração que fosse apenas de palavras, mas uma integração efetiva, que foi feita por setores. Mas Infelizmente (no Mercosul), a mudança de governo faz como que aconteça algumas coisas que não estavam previstas. Os ex-presidentes Carlos Menem (Argentina) e o Fernando Collor tinham uma visão realmente mercantilista, queriam criar uma área de livre comércio em vez do projeto de integração, que era de integração física, cultural, tecnológica e econômica.

O mundo hoje vive do blocos econômicos e se eles não se completam, não interagem com outros setores, realmente perdem competitividade. Com o Mercosul, a Argentina ganhou o mercado brasileiro, de 200 milhões de pessoas, para poder vender sem tarifas. Mas nós precisamos de integração, não nos limitar a uma simples área de livre comércio.

P: Ou seja, até agora não cumpriu com as expectativas?

R: As expectativas não foram cumpridas, porque não se projetaram para que nós fizéssemos um mercado comum como fizeram na Europa e construir uma integração. Nossa ideia era com o tempo, com a integração por setores, ir incorporando novos países da América do Sul.

P: Porém ainda está em tempo?

R: Eu sou otimista. Como é uma ideia generosa, e uma ideia implantada que não deixa de crescer, pode demorar algum tempo. Eu não estarei vivo, mas esse projeto será feito, nos vamos ter uma América do Sul integrada.

Temos o continente mais pacífico do mundo (...) e isso é um patrimônio que no futuro vai nos beneficiar muito. Tenho a impressão de que a semente está lançada e vai frutificar. A história mundial e a continental não se fazem em poucos anos.

P: O que mudou nas relações entre Brasil e Argentina a partir da Iguaçu?

R: Acabou com a rivalidade Brasil-Argentina, hoje nós temos um fluxo turístico extraordinário dos dois países. Também acabou com as hipóteses de conflito entre os dois países. Também fizemos o acordo nuclear que acabou com a competição nuclear entre Brasil e Argentina, isso foi uma tarefa extraordinária para o mundo, porque nós somos o único continente que não tem armas nucleares.

P: Por que nunca foi criado no Mercosul um órgão supranacional, como a Comissão na União Europeia?

R: Eles mudaram (Presidentes seguintes). Em vez da integração por setores, eles transformaram o Mercosul apenas numa união aduaneira, mas dentro do projeto global tudo isso estava previsto, naqueles tratados que faziam parte do Tratado de Buenos Aires (Assinado por Sarney e Alfosín em 1988), mas infelizmente a vontade política deixou de existir.

P: Costuma-se dizer que o Mercosul está muito politizado e que depende muito da sintonia entre os presidentes do Brasil e da Argentina no momento...

R: A América do Sul se politizou muito, porque quando estávamos construindo o Mercosul foi o tempo que caiu o Muro de Berlim. Isso foi o fim das ideologias, mas aqui Cuba continuou da mesma maneira e com a sua ideia de exportar para o continente uma certa possibilidade revolucionária, e isso de certo modo contagiou. A Guerra Fria terminou lá, mas não terminou aqui, e isso de certo modo prejudicou esse processo.

P: Brasil, Uruguai e Paraguai propõem que cada país possa fechar acordos de maneira independente. A flexibilização é uma boa solução para desenvolver o bloco?

R: Isso é realmente uma coisa totalmente oposta ao Mercosul, agimos em conjunto para ser mais fortes. Não pode frutificar, somos países pequenos que não temos força (para negociar sozinhos). A união do Mercosul era justamente dar força à América Latina como um bloco econômico capaz de ter a nível mundial um peso que ele não tem, porque aqui no Atlântico Sul não passa nenhum fluxo mundial de importância.

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