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Expectativa de inflação dos consumidores deve ficar em alta até fim do ano, diz FGV

Alessandra Saraiva
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Percepção de aumento nos preços piorou com nova onda de alta nos alimentos Após duas quedas sucessivas, a expectativa mediana de inflação dos consumidores brasileiros para os próximos 12 meses voltou a subir, e passou de 4,3% para 4,7% entre agosto e setembro, a mais forte taxa desde junho (4,8%), informou hoje a Fundação Getulio Vargas (FGV). Uma nova onda de aumentos nos preços dos alimentos em meio à pandemia levou ao resultado, afirmou Renata de Mello Franco, economista da FGV. Para a especialista, o indicador deve continuar a subir nos próximos meses. Isso porque alimentos mais caros são influenciados por dólar mais alto, e maior procura internacional por commodities agrícolas brasileiras, dois fenômenos que não dão sinais de arrefecimento, observou a técnica. Ela não descartou que o indicador volte para faixa de 5%. A técnica comentou que, desde meados de março, quando se intensificou avanço de covid-19 no país, houve dois movimentos de alta nos preços dos alimentos. O primeiro ocorreu em abril, auge do impacto negativo, na economia, dos efeitos da pandemia, e que impulsionou o indicador da FGV para 5,1% naquele mês. Essa aceleração arrefeceu, com a demanda menor durante a pandemia - influenciada por crise econômica, que levou à menor emprego e renda no país. Alta no preço dos alimentos aumentou as expectativas de inflação entre consumidores Brenno Carvalho/Agência O Globo Agora, um ritmo maior de exportações agropecuárias brasileiras, devido à recuperação de demanda de alguns países após período mais agudo da crise causada pela pandemia - principalmente da China -, deixa menor quantidade desses itens no mercado doméstico brasileiro. Isso diminui oferta e eleva preços, notou ela. Ao mesmo tempo, o dólar em alta encareceu preços de commodities de origem agropecuária. "Com a pandemia, as pessoas ficando em casa, houve procura maior de alimentos de maneira geral", completou ela. A alta dos alimentos afetou mais a expectativa inflacionária das famílias mais pobres, notou a economista. Isso porque esses produtos têm maior peso na cesta orçamentária de menor poder aquisitivo, lembrou a especialista. Isso é perceptível na evolução do indicador por faixas de renda. Nas famílias com ganhos mensais até R$ 2,1 mil, a mediana de expectativa inflacionária para os 12 meses seguintes acelerou de 4,9% para 5,5% entre agosto e setembro - a maior taxa entre as quatro faixas de renda pesquisadas pela fundação, e acima da média de 4,7%. Para a técnica, como não há, no momento, perspectiva para queda de preços dos alimentos no curto prazo, a tendência do indicador é de alta, nos próximos resultados. Ela lembrou que as projeções inflacionárias de mercado também foram atualizadas para cima, recentemente, pelos mesmos motivos. No Boletim Focus do Banco Central (BC), anunciado essa semana, a mediana para o IPCA de 2020 subiu de 1,95% para 2,05%. "Tínhamos uma expectativa de dólar mais controlado no fim do ano. Essa expectativa não existe mais", notou ela. "Como não temos perspectiva de queda no curto prazo para dólar, e para preços dos alimentos, o indicador [de expectativa inflacionária do consumidor] deve continuar a subir", concluiu a pesquisadora.