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Existe um lugar na Terra onde não há vida; veja onde é

Felipe Ribeiro

Cientistas franceses e espanhóis liderados pela bióloga Purificación Lopez Garcia, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), fizeram uma descoberta espantosa: existe um lugar no planeta Terra onde não existe nenhuma forma de vida. O estudo foi feito em um dos locais mais inóspitos do mundo: os lagos quentes, salinos e hiperácidos no campo geotérmico de Dallol, na Etiópia.

Um estudo recente, publicado este ano, apontou que certos microrganismos podem se desenvolver nesse tipo de ambiente multiextremo (simultaneamente muito quente, salino e ácido), o que levou seus autores a apresentarem o local como um exemplo dos limites que a vida pode suportar, chegando até a propor uma analogia entre o início da vida em Marte, afinal, um dia, o Planeta Vermelho pode ter sido mais parecido com a Terra.

No entanto, a equipe de cientistas franco-espanhóis liderada por Garcia publicou um artigo na revista Nature Ecology & Evolution que conclui o contrário. Segundo os pesquisadores, não há vida nas lagoas extremas de Dallol. Os seres vivos, especialmente os microrganismos, têm uma capacidade surpreendente de se adaptarem aos ambientes mais extremos do planeta, mas ainda há lugares onde eles não podem viver — e esse é o caso desse ecossistema no país africano.

Piscinas mortas de Dallol/ Imagem: Purificación Lopez Garcia

A paisagem infernal de Dallol, localizada na depressão etíope de Danakil, se estende sobre uma cratera vulcânica cheia de sal, de onde são emanados gases tóxicos e a água ferve em meio a intensa atividade hidrotérmica. É um dos ambientes mais tórridos da Terra, com temperaturas diárias no inverno excedendo os 45°C, com várias piscinas lotadas de sal e ácidos, com valores de pH até negativos.

"Após analisar muito mais amostras do que em trabalhos anteriores, com controles adequados para não contaminá-las e uma metodologia bem calibrada, verificamos que não há vida microbiana nessas piscinas salgadas, quentes e hiperácidas de Dallol. O que existe é uma grande diversidade de arqueias halofílicas (um tipo de microrganismo primitivo que adora sal) no deserto e os desfiladeiros salinos ao redor do local hidrotérmico", explica a bióloga.

Isso é confirmado pelos resultados de todos os vários métodos usados ​​pela equipe, incluindo o sequenciamento maciço de marcadores genéticos para detectar e classificar microrganismos, tentativas de cultura microbiana, citometria de fluxo fluorescente para identificar células individuais, análise química da salmoura e microscopia eletrônica de varredura, que fora combinada com espectroscopia de raios-X. Lopez Garcia alerta, porém, que alguns minerais encontrados em Dallol são tão ricos em sílica que, ao serem vistas no microscópio, podem ser confundidas com células microbianas.

O limite da vida terrestre

Segundo os autores, este trabalho "ajuda a circunscrever os limites da habitabilidade e exige cautela ao interpretar as bio-assinaturas morfológicas na Terra e além", ou seja, não se deve confiar no aspecto aparentemente celular ou "biológico" de uma estrutura, porque poderia ter uma origem abiótica.

"Além disso, nosso estudo apresenta evidências de que existem lugares na superfície da Terra, como as piscinas Dallol, que são estéreis, mesmo que contenham água líquida", enfatiza Lopez Garcia. Isso significa que a presença de água líquida em um planeta, que é frequentemente usada como critério de habitabilidade, não implica diretamente que ela tenha vida. Como exemplo no nosso sistema solar, podemos usar as luas de Saturno, Titã e Encélado, ou Europa, um dos satélites naturais de Júpiter. No caso de Titã, a água líquida em questão, na verdade, são oceanos de gás metano, por exemplo.

Imagem: Purificacion Lopez Garcia

No caso de Dallol, os pesquisadores descobriram duas barreiras físico-químicas que impedem a presença de organismos vivos em lagoas: a abundância de sais caotrópicos de magnésio (um agente que quebra pontes de hidrogênio e desnatura biomoléculas) e a confluência simultânea hipersalina, hiperácida e altas condições de temperatura.

"Não esperaríamos encontrar formas de vida em ambientes semelhantes em outros planetas, pelo menos não com base em uma bioquímica semelhante à terrestre", ressalta Lopez Garcia, que insiste na necessidade de ter várias indicações para analisar todos os tipos de alternativas e ser muito prudente com as interpretações antes de chegar a qualquer conclusão em astrobiologia.


Fonte: Canaltech

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