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Ex-diretores do Fed veem riscos em flexibilização e juro baixo

Richard Miller

(Bloomberg) -- O banco central dos EUA corre o risco de estimular uma eventual crise financeira ao flexibilizar os regulamentos bancários ao mesmo tempo em que reduz as taxas de juros. É o que dizem alguns ex-integrantes do Federal Reserve, incluindo o ex-vice-presidente Alan Blinder e os especialistas em estabilidade financeira Daniel Tarullo e Nellie Liang.

Eles temem que o crédito mais generoso e regras mais brandas levem instituições financeiras e investidores a aumentar a alavancagem e aceitar riscos excessivos. Embora essa situação possa incentivar o crescimento econômico no curto prazo, também pode desencadear uma recessão quando as apostas especulativas forem revertidas.

“Quando se reduz juros e se adota incentivos para o aumento dos empréstimos, o aumento dos riscos não deve surpreender”, disse Liang, ex-diretora da divisão de estabilidade financeira do Federal Reserve. “Isso significa que este não é o momento certo para a flexibilização significativa dos regulamentos financeiros.”

As bolsas dos EUA bateram recordes e os rendimentos dos junk bonds caíram para os menores níveis em cinco anos nesta semana, embalados pela esperança de que um acordo comercial parcial entre EUA e China ajude o crescimento global, que já tem a retaguarda do crédito fácil.

Depois de baixar três vezes os juros, autoridades do Fed mantiveram a taxa básica inalterada em 11 de dezembro e sinalizaram que a situação perduraria durante o ano de eleição presidencial em 2020. O banco central também fez ou propôs mudanças na supervisão financeira, inclusive nos testes de estresse para os bancos, e uma revisão das restrições às negociações de ativos sob a Regra de Volcker.Pressão políticaParlamentares republicanos e bancos reclamam que o Fed não foi suficientemente longe em termos de facilitar as regras, enquanto democratas — incluindo a pré-candidata à presidência Elizabeth Warren — são contra o banco central afrouxar o controle regulatório.

Liang, que foi indicada pelo presidente Donald Trump para integrar o conselho do Fed, mas retirou seu nome diante da oposição de alguns parlamentares — expressou preocupação com o rápido aumento do crédito corporativo.

“Temo que a inadimplência e as perdas dos investidores sejam maiores do que o esperado na próxima fase de piora da economia e que isso torne a próxima recessão mais severa”, disse ela.

No último relatório de estabilidade financeira, o conselho do Fed afirmou que um período prolongado de juros baixos poderia minar essa estabilidade ao incentivar bancos e empresas com lucros insatisfatórios a correr mais riscos.

A liderança do Fed, porém, refutou veementemente sugestões de que teria deixado o sistema financeiro mais vulnerável ao flexibilizar regulamentações, argumentando que as exigências de capital para os maiores bancos permanecem mais rigorosas do que nunca.

Os EUA têm “um sistema bancário estável, saudável e resiliente”, declarou o vice-presidente de supervisão do Fed, Randal Quarles, a parlamentares em 4 de dezembro.

Ele disse que o foco do Fed tem sido a adaptação da regulamentação aplicável a instituições regionais e menores. “Um dos nossos princípios tem sido garantir a não redução relevante do colchão de absorção de perdas das instituições”, afirmou ele.

“Acho que conseguimos fazer isso.”

Testes de estresse

Tarullo não tem tanta certeza. Ele deu ênfase aos testes de estresse, incluindo a divulgação de mais informações sobre os modelos por trás deles.

“Eu suspeito fortemente que a quantidade efetiva de capital que os bancos precisam ter para determinada carteira é menor porque eles têm muito mais informações sobre os testes de estresse”, disse Tarullo, que foi a referência em regulamentação no Fed após a crise de 2008 e agora atua na Faculdade de Direito de Harvard.

Repórter da matéria original: Richard Miller em Washington, rmiller28@bloomberg.net

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