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Evitar saturação de hospitais pelo coronavírus, uma luta coletiva

Por Paul RICARD
Funcionários rastreiam as respostas ao novo coronavírus COVID-19 em um hospital em Daegu

Como o coronavírus ameaça principalmente os mais frágeis, é importante que as pessoas saudáveis se protejam não tanto por si mesmas, mas para impedir a propagação da epidemia e a saturação dos hospitais, cujas consequências seriam dramáticas.

"Para cada dia em que desaceleramos a epidemia, ganhamos um dia extra para os hospitais se prepararem", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Entretanto, esse alarme é recebido com reservas da opinião pública, já que a doença é benigna em 80% dos casos e ameaça principalmente aqueles com mais de 80 anos, bem como pessoas que sofrem de outras doenças graves.

"As pessoas têm a impressão de que essa doença envolve um perigo individual, mas é um perigo para a população: exceto em alguns casos, os jovens (infectados) não morrerão, mas, em vez disso, contribuirão para o bloqueio de hospitais e outros morrerão", disse à AFP o médico belga Philippe Devos.

Esse é o grande medo das autoridades de saúde do mundo: uma explosão repentina de casos, que levaria a um fluxo maciço de pacientes, lotando hospitais.

Isso não apenas complicaria a hospitalização de pacientes graves com Covid-19, mas também todos os demais. A situação pioraria se a equipe médica começasse a ser infectada, deixando de atender os pacientes.

"Devido a esse duplo fator - uma sobrecarga de trabalho com menos funcionários -, pacientes com patologias urgentes não poderiam ser tratados a tempo, correndo o risco de morte", explica Devos.

- "Achatar a curva" -

Nas redes sociais, muitos médicos alertam para o risco de saturação hospitalar e enfatizam que a atual epidemia de gripe continua ocupando parte dos leitos existentes.

Esses especialistas também lembram aos internautas a importância de cada um aplicar as medidas de combate ao coronavírus: lavar as mãos, tossir no cotovelo, isolar-se em caso de adoecimento. Esses alertas estão resumidos no Twitter com o rótulo em inglês #FlattenTheCurve (achate a curva).

A comunidade médica procura, assim, chamar a atenção para a responsabilidade de cada um, não tanto para reduzir o número de casos, mas para coibir a epidemia prolongando-a com o tempo. Dessa forma, o boom será menos abrupto e o volume de pacientes simultâneos não sobrecarregará o sistema hospitalar.

"Se a curva não for achatada, os pacientes chegarão em massa ao hospital e, embora precisassem ser admitidos, não poderão ser admitidos", alerta Devos.

Dependendo do sistema de saúde em cada país, os médicos podem ser forçados a tomar decisões éticas muito delicadas, escolhendo quais pacientes tratar entre aqueles que já estão em estado grave.

Médicos no norte da Itália, uma região particularmente afetada, já estão enfrentando essa situação, segundo vários depoimentos.

"Decidimos com base na idade e no estado de saúde", como "em situações de guerra", disse Christian Salaroli, anestesista e socorrista de Bergamo, ao jornal Il Corriere della Sera.

- Médicos "arrasados" -

"Como infelizmente há uma desproporção entre os recursos hospitalares, os leitos e os pacientes gravemente enfermos, nem todos podem ser intubados", reconhece o médico italiano.

"Escolher quem deve ser admitido nas últimas vagas é algo que os médicos já fazem uma ou duas vezes a cada dois ou três anos por falta de leitos, quando há gripes mais virulentas", diz Devos.

Com o coronavírus, "é inegável que chegaremos a essa fase e, como médicos, queremos esse período em que devemos escolher dure o mínimo possível, vários dias e não várias semanas", acrescentou.

Daí a importância de cada um assumir "sua responsabilidade com os demais". A compreensão dessa "lógica coletiva" também evita a "psicose" e o seu oposto, que é subestimar a epidemia.

Isso requer pedagogia. "Os governos se comunicam muito sobre o que fazem, mas não por que fazem", opina Devos.