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EUA x China | Apple no meio do fogo cruzado

Stephanie Kohn
·6 minuto de leitura

Há alguns anos que os Estados Unidos e a China se estranham, mas desde o final do ano passado, os países avançam em um redomoinho de ameaças. Diferente da Guerra Fria, que se desenvolveu entre os EUA e a antiga URSS na segunda metade do século XX, a versão 2.0 da batalha entre potências traz economias muito mais entrelaçadas. As nações estão ligadas financeiramente e produtivamente como nunca antes. E isso lança alta complexidade ao conflito.

Além dos confrontos nos âmbitos comerciais e armamentistas, a competição entre oa países passa pelo desenvolvimento tecnológico também. Há mais de um ano que os EUA e a China se enfrentam quando o assunto é 5G. Donald Trump têm pressionado países a proibirem a atuação da Huawei, gigante chinesa que fabrica equipamentos para a nova rede e líder no segmento, pois suspeita que a fabricante faça dos terminais verdadeiras armadilhas de espionagem. Pequim, por sua vez, diz que a Casa Branca está tentando neutralizar um competidor que saiu na frente.

Mas engana-se quem pensa que somente a fabricante de redes 5G sofre com os atritos. Empresas norte-americanas com atuações na China, tanto comerciais como produtivas, também deverão sentir os efeitos do conflito. Em maio deste ano, o governo chinês começou a ameaçar os Estados Unidos com sanções semelhantes ao que o país asiático vem sofrendo. O principal nome neste novo cenário é a Apple, que assim como aconteceu com a Huawei, pode entrar em uma lista de empresas não confiáveis.

Na verdade, empresas dos dois países vão ficando à mercê de possíveis novas tarifas e boicotes que estão sendo costurados pelos governos. Mas, a Apple, como uma das principais empresas americanas de tecnologia, acaba entrando em cheio no meio do fogo cruzado.

Desde 2018, a dona do iPhone obtém da China quase 20% de sua receita em vendas - o que torna o país o terceiro mercado para a fabricante. Além disso, a maior parceira da maçã na produção de seus dispositivos móveis é a Foxconn, empresa chinesa que fabrica os aparelhos da norte-americana em 12 plantas espalhadas por nove cidades do país.

"A China até pode e aparentemente está preparada para retaliar a Apple e outras empresas de tecnologia dos EUA, como a Cisco e Qualcomm, por exemplo. Mas parece pouco provável, pois ela [Apple] é relevante em faturamento e empregos", comentou In Hsieh, Fundador da Chinnovation, em entrevista ao Canaltech.

Quem sofrerá mais?

Renato Meireles, analista sênior de mercado em Mobile Phones & Devices da IDC Brasil, vê um possível boicote da China ao iOS, sistema operacional da maçã, como pouco preocupante, já que a Apple tem boa representatividade na Europa e no Japão. "A atuação das empresas nestes demais mercados pode acabar equilibrando as vendas, especialmente porque o Japão tem uma peculiaridade a favor. Lá a substituição dos smartphones é mais rápida e eles buscam modelos premium", falou em entrevista ao Canaltech.

O chefe da divisão de semicondutores da Foxconn, Young Liu, também não vê a introdução de novas tarifas ou bloqueios comerciais à Apple como um problema, visto que apesar de a maior presença da Foxconn ser, de fato, na China, a empresa também tem operações no Brasil, Índia, Japão, Malásia, México, Coreia do Sul, Europa e Estados Unidos. A maçã inclusive analisa a mudança de parte de suas operações de produção para a Índia, enviando para o país até US$40 bilhões na fabricação de smartphones.

Por outro lado, a Apple tem representatividade pequena na China e é o quinto fabricante em fatia de mercado, com 8% de participação. "A Huawei tem dominância maior em seu país. Aliás, por lá, as própria chinesas são as que controlam o mercado. E o que temos que levar em consideração é que hoje quem está bem na China, tem maior share global, pois é o mercado mais representativo do mundo", comentou o analista.

Das dez principais fabricantes globais, sete são chinesas. Apesar da sul-coreana Samsung ser a maior vendedora de smartphones no mundo, cerca de 70% da fatia de mercado está nas mãos dos chineses, segundo Meireles.

"Tem outro ponto. O banimento da Huawei pelos Estados Unidos, como impedir que o Google forneça sistema para eles, pode até ter tido impacto inicial, mas as empresas chinesas estão se movimentando. Elas se uniram. E elas têm força para enfrentar essa guerra e não ficar fora do mercado", lembrou o analista.

Para o executivo In Hsieh, não é tão simples para a Apple mover sua produção para fora da China, pois o país tem um ótimo nível de eficiência, cadeia de suprimento integrada e estabelecida, e mão de obra de qualidade e em quantidade, além do próprio mercado consumidor interno que, assim como ressaltou Meireles, tem grandíssima representatividade.

"Antes, o iPhone era sonho de consumo, mas agora as marcas chinesas oferecem produtos mais inovadores. A Samsung passou pelo mesmo processo. Ela já foi líder na China mas perdeu espaço para Xiaomi e depois para Oppo e Vivo. Hoje é pouco relevante", destacou.

Mudança de hábito

A fala do executivo vai de encontro com o que a consultoria IDC avalia. O consumidor vem mudando seus hábitos de consumo no quesito smartphone. Antigamente, os usuários valorizavam a marca e a Apple era a grande ditadora de tendências. Mas hoje a história mudou.

"O consumidor já está no quarto ou quinto smartphone. Ele não olha mais para marca, mas para atributos; câmera boa, tela maior, processador mais poderoso. Ele entende melhor a usabilidade do aparelho e não se contenta com marcas que deixam a desejar nas especificações", disse Meireles.

Neste novo contexto, as marcas chinesas trazem especificações mais robustas com ticket médio mais barato, o que fez com que a Apple perdesse mercado. "Os impactos desta guerra entre os países vão ocorrer, mas as questões econômicas globais também terão influência, assim como os hábitos de consumo", finalizou.

Desfecho

A conclusão que se chega é que empresas dos dois países terão desvantagens, já que há grandes dependências que fazem com que a competição seja perigosa a ambos países. Ainda assim, é importante reconhecer que, pela primeira vez, a China participará como protagonista dos padrões que vão gerar uma revolução industrial e parece estar à frente de seu rival.

Pequim já declarou abertamente suas intenções de se transformar em uma superpotência inovadora quando, em maio de 2015, lançou o plano estratégico Made in China 2025. A iniciativa, financiada com US$ 300 bilhões, pretende transformar o país na vanguarda da robótica e biotecnologia. Isso, contudo, desperta enormes receios no Ocidente, porque promove ainda mais o controle estatal da economia e dificulta a concorrência das empresas estrangeiras.

“Na China, o Estado patrocina o avanço tecnológico e pode acessar a informação que as empresas têm da população. Nos EUA o dinamismo surge das empresas privadas em cujas mãos estão os dados, que souberam monetizar com grande sucesso”, explicou Andrés Ortega, pesquisador do Real Instituto Elcano, ao El País.

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Fonte: Canaltech

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