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EUA liberam voos com o Boeing 737 MAX após 20 meses de suspensão

IGOR GIELOW
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Boeing 737 MAX foi liberado para voar pelas autoridades regulatórias dos Estados Unidos, 20 meses após ter sua operação suspensa em todo o mundo devido a um problema de software que causou dois acidentes fatais. A notícia, a primeira boa para a fabricante norte-americana na maior crise de seus 104 anos de história, fez sua ação subir até 5% na abertura da Bolsa de Nova York nesta quarta (18). Empresas de aviação e de turismo devem ser favorecidas também. A FAA (Administração Federal de Aviação) se disse satisfeita com as diversas correções de projeto e de procedimentos de treinamento que a Boeing aplicou ao modelo, o mais vendido em termos de encomendas de sua história. "Eu estou 100% confortável com minha família voando nele", disse o chefe da FAA, Stephen Dickson, que citou o "caminho longo e extenuante" que a revisão do 737 MAX exigiu. O avião teve sua produção suspensa em janeiro. Apesar da liberação, há ainda alguns passos pela frente. "A FAA deve aprovar a revisão do programa de treinamento de pilotos para cada empresa americana operando o MAX", afirmou a agência em comunicado. A crise do MAX, que vai custar ao fim estimados US$ 18 bilhões (R$ 95 bilhões no câmbio desta quarta) à Boeing, acabou ampliada pela pandemia do novo coronavírus. Com a devastação do mercado aéreo, as empresas passaram a cancelar compras de aviões e a revisar pedidos futuros. No Brasil, a única empresa que opera o MAX, a Gol, teve 7 aeronaves paradas em solo e reduziu sua carteira de pedidos de 129 para 95. O avião era o maior best-seller da Boeing, com 5.000 encomendas, quando começou sua saga trágica. Em outubro de 2018, um modelo da Lion Air caiu no mar da Indonésia sem causa aparente, logo após a decolagem. Meses depois, em março de 2019, o mesmo ocorreu com um avião da Ethiopian Airlines, na Etiópia. Os sinais de alerta se acenderam e a frota foi paralisada no mundo todo para investigar o motivo das tragédias, que mataram ao todo 346 pessoas. Há 387 modelos MAX entregues no mundo, mais 400 parados em pátios da Boeing, ainda sob guarda da empresa. A apuração revelou uma série de problemas no projeto do avião, questões conceituais que levaram à causa específica dos acidentes: uma falha de operação no sistema de software conhecido com MCAS, que corrige automaticamente o ângulo do nariz da aeronave. Grosso modo, o computador entendia incorretamente que o avião precisava baixar o nariz para nivelar e o fazia mergulhar rumo ao solo, sem responder a comandos dos pilotos. Para piorar, descobriu-se que o treinamento de pilotagem era falho para lidar com o sistema. As investigações mostraram que, mesmo dentro da Boeing, as suspeitas sobre a tecnologia adotada eram conhecidas e temidas há tempos, e tinham a ver com a pressa em colocar o avião no mercado. Regulamentos federais foram alvo de chacota e falhas potenciais, escondidas. A isso se somou o próprio modo de desenvolvimento da aeronave. Como toda a linha do 737, o avião mais vendido do mundo com 10.500 unidades produzidas desde 1967, o MAX era uma versão aprimorada de sua geração anterior. Como suas turbinas eram maiores, elas foram colocadas numa posição mais adiantada na asa para caber no modelo sem tocar o solo, o que mudou o centro de gravidade do avião. O MCAS era um sistema que buscava corrigir eventuais falhas em voo devido a essa mudança. Choques entre tecnologias falhas e treinamento de pilotos não são inéditos. A europeia Airbus teve de revisar procedimentos e sistemas de seu popular modelo A330 depois que um deles caiu no Atlântico, voando do Rio para São Paulo, matando 228 pessoas em 2009. Agora o sistema recebeu aprimoramento e a Boeing fez outras mudanças de engenharia, como no cabeamento de sistemas dentro da cabine de comando. A decisão da FAA, que fez a investigação com a ajuda das agências reguladoras do Canadá, da União Europeia e do Brasil, a Anac, deverá ser seguida em todo o mundo pelos órgãos locais. Grandes operadoras do modelo, como a americana United, estimam que ele de fato volte a operar no começo de 2021, a depender da demanda. A crise abalou profundamente a Boeing, maior fabricante aeroespacial do mundo. Devido a ela e à pandemia, a empresa cancelou a compra da linha de aviação comercial da brasileira Embraer, em abril, gerando uma disputa que está num tribunal de arbitragem nos EUA. Trinta mil funcionários da empresa perderam o emprego no processo, inclusive seu presidente, Dennis Muilenburg – não sem antes embolsar uma multa de US$ 62 milhões (R$ 327 milhões hoje), o que foi alvo de crítica de grupos de parentes de vítimas dos acidentes. O novo chefe da empresa, David Calhoun, enviou uma carta aos funcionários da Boeing dizendo que irá trabalhar para restabelecer os voos do MAX o mais rapidamente possível e que nunca esqueceria das mortes. Enquanto prepara a volta do modelo ao ar, a Boeing terá de quebrar a cabeça para reconquistar a confiança dos passageiros. No fim do ano passado, uma pesquisa da empresa registrou que 40% dos passageiros ouvidos não voariam no avião, por exemplo. A Boeing já enfrentou problemas de credibilidade com incêndios a bordo do modelo 787 no começo de sua carreira, mas eles foram ultrapassados. Mas há casos clássicos de modelos que nunca se recuperaram no mercado após falhas, como o primeiro avião comercial a jato do mundo, o britânico deHavilland Comet, que teve de redesenhar suas janelas após acidentes nos quais a fuselagem se rompia em voo.