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EUA investigam frigoríficos por possível violação da lei antitruste durante pandemia

MARINA DIAS

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Os frigoríficos americanos entraram na mira do governo Donald Trump às vésperas da eleição presidencial e em meio à pandemia que mergulhou os EUA em uma combinação de crises sem precedente, que vai desde a saúde pública até o abastecimento do país.

Segundo a agência Bloomberg, o Departamento de Justiça americano investiga se gigantes da carne violaram a lei antitruste -que estabelece uma conduta de concorrência leal em benefício dos consumidores- para manipular preços no momento de alta demanda por alimentos nos EUA.

Desde o início da crise, dezenas de plantas foram fechadas por causa da contaminação por Covid-19, resultando na queda de produção e aumento de preços de carne bovina, suína e de aves aos americanos.

O presidente Donald Trump pediu em maio que o Departamento de Justiça investigasse a disparada dos preços da carne bovina, que quase dobrou em um mês, e desencadeou um escrutínio da indústria que inclui parlamentares, reguladores e funcionários -esses que já se queixavam da negligência das empresas na tomada de medidas de segurança e higiene diante do coronavírus.

O momento da investida de Trump, porém, é calculado. Há muito tempo fazendeiros têm reclamado que os frigoríficos conseguem lucros recordes enquanto criadores de gado sofrem prejuízo, mas as forças antitruste ainda não haviam agido nesse sentido.

A cinco meses da eleição, o cenário mudou, quando o presidente decidiu fazer um aceno aos fazendeiros, importante nicho de sua base eleitoral para tentar ser reconduzido à Casa Branca.

Não está claro qual é a linha de condução das investigações do governo, mas uma possibilidade é apurar se os frigoríficos atuam em conluio para reduzir o volume de compra de gado, mantendo assim os preços baixos, enquanto as carnes vendidas na ponta ficam mais caras -e lucrativas às empresas.

Na pandemia, com a queda da produção, esse mecanismo pode ter se intensificado, explica Ben Gotschall, da Organização por Mercados Competitivos. Se Trump está fazendo isso por interesse eleitoral, diz Gotschall, pouco importa, contanto que o problema seja resolvido.

Investigadores do Departamento de Justiça afirmam que ao menos dois produtores de frango, incluindo a segunda maior dos EUA, a Pilgrim's Pride Corp., conspiraram de forma ilegal para fixar preços, e serão alvo de acusação criminal.

Ainda de acordo com a Bloomberg, as apurações também se voltaram para as empresas de carne bovina, em uma investigação à parte, com intimação sobre as quatro maiores produtoras do país, Tyson Foods Inc., JBS SA, Cargill Inc. e National Beef Inc.

Essas empresas controlam mais de dois terços de todo o processamento de carne bovina dos EUA e, procuradas pela reportagem, não comentaram as investigações sobre o setor.

Caso o Departamento de Justiça encontre evidências de que os frigoríficos estão manipulando preços e violando a lei antitruste, pode haver processo e até aplicação de multa e prisão de executivos.

Analistas, por sua vez, dizem as ações podem também terminar em apenas um acordo ou mesmo sem nenhum resultado prático.

Mas as investidas contra os frigoríficos não estão restritas à atuação do governo, o que pode criar uma pressão maior sobre as empresas, envolvendo reguladores e o Congresso americano.

Ao menos 19 senadores, muitos de estados fortes na produção agrícola, pediram investigação sobre a possibilidade de empresas estarem suprimindo os preços pagos no gado, por exemplo.

Os congressistas alertam que as condições do mercado poderiam levar a um "colapso generalizado" da indústria pecuária e pressionam para autoridades federais facilitarem as regulamentações sobre o processamento de carne, o que poderia ajudar a reduzir a barreira para novas -e menores- empresas participarem do setor.

De acordo com relatório do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês), 115 instalações de processamento de carnes e aves reportaram diagnósticos de Covid-19 entre seus quadros, em 19 dos 50 estados americanos.

Dos 130 mil trabalhadores desses locais, 4.913 tiveram casos foram confirmados, e de 30 a 40 plantas foram fechadas.

Além das investigações do governo e das acusações de negligência nos casos de Covid-19, as empresas estão sob holofotes pelo abatimento de animais com métodos cruéis, que vão de asfixia a tiro.

O valor das carnes já baixou um pouco nas prateleiras dos EUA em junho, com a reabertura parcial das atividades em todos os 50 estados americanos, mas ainda continua ao menos 10% acima do que era registrado no início do ano.

Preocupado com os danos econômicos da pandemia em sua campanha à reeleição, Trump já havia interferido no setor e assinou uma ordem executiva para que os frigoríficos se mantivessem abertos apesar das restrições trazidas com o vírus.

Baseado no Ato de Defesa da Produção, criado em 1950 para garantir a produção nacional, Trump quer evitar problemas de abastecimento mas empresas dizem que a medida não tem adiantado.