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Etiópia entra em novo ciclo de violência dois anos após Nobel da Paz para premiê

·5 min de leitura

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - As forças do primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed Ali, intensificaram nesta segunda-feira (18) suas ofensivas contra rebeldes no norte do país, segundo informações dos insurgentes. Um canal controlado por essas forças relatou ataques aéreos em Mekelle, capital da região do Tigré, que está em disputa com o governo central.

O porta-voz do governo inicialmente negou a informação, mas horas depois a mídia estatal confirmou uma operação aérea na região, que teria mirado estruturas de comunicação, com medidas para evitar alvos civis.

O episódio indica que Ahmed —vencedor do Nobel da Paz de 2019— e a Etiópia afundam ainda mais em um conflito marcado por saques, estupros e uma violenta fome.

De acordo com as forças do Tigré, o governo de Ahmed já tinha retomado bombardeios contra os insurgentes no dia 10, seguidos por uma incursão terrestre. As autoridades centrais, no entanto, têm negado os ataques. Em um cenário de informações desencontradas, jornalistas não têm acesso às zonas de combate para acompanhar o desenrolar da crise.

Em suma, a disputa opõe o governo sediado em Adis Abeba e os insurgentes da TPLF (Frente de Libertação do Povo do Tigré, em inglês). Mas chamar a TPLF só de insurgente borra uma parte importante do enredo.

Com a queda do ditador Mengistu Haile Mariam em 1991, o grupo liderou a coalizão que governou a Etiópia até a chegada de Ahmed, em 2018. As quase três décadas de poder da TPLF foram marcadas por autoritarismo e denúncias de corrupção. Ou seja, essa frente está longe de ser novata ou uma força historicamente marginalizada na política.

Ahmed chegou ao cargo em meio a protestos populares e, de forma vista como promissora, passou a implementar reformas liberais no país. Rapidamente, porém, entrou em atrito com a TPLF. Para os líderes da região do Tigré, os projetos visavam à centralização do poder na Etiópia e, portanto, à perda de autonomia regional —um dos pilares políticos das últimas décadas no país.

“Essa é uma disputa pelo poder em Adis Abeba camuflado de embate étnico”, afirma o comentarista independente Filmon Zerai, especializado na região do Chifre da África. “Apesar dos clamores por autodeterminação, essa é a continuação de décadas de atrito entre as classes dominantes.”

O conflito atual começou em novembro, quando Ahmed acusou os rebeldes do Tigré de atacar as forças do governo central e, como resposta, lançou uma série de ofensivas contra a região. A TPLF reagiu rapidamente e não apenas retomou o controle do Tigré como avançou nas regiões vizinhas de Amhara e Afar.

O governo central declarou, então, um cessar-fogo unilateral. Impôs, ao mesmo tempo, restrições ao acesso humanitário às zonas controladas pelos insurgentes. Foi em parte em resposta a essa situação que as forças do Tigré retomaram os embates em julho, explica William Davison, analista-sênior do International Crisis Group para a Etiópia.

Os ataques da TPLF, por sua vez, fizeram com que fosse ainda mais improvável que o governo arrefecesse o cerco às regiões rebeldes no norte.

Os embates voltaram a se interromper após alguns meses. Entre outras coisas, porque a temporada de chuvas dificultava a circulação de veículos militares pesados nas estradas. Só que o clima voltou a se firmar, e Ahmed acaba de iniciar seu segundo mandato, após uma lavada eleitoral.

Ao tomar posse, em vez de atuar para desescalar o conflito, ele prometeu "defender a honra” da Etiópia. Em certa medida, a vitória nas urnas encoraja a retomada dos embates nesta semana, segundo Davison. Ahmed tem o apoio da população e das elites para avançar.

O envolvimento do premiê em um conflito tão violento pode até surpreender fora da Etiópia, já que o político tinha vencido o Nobel da Paz em 2019. “O comitê do prêmio parece ter sido ingênuo sobre a trajetória política de Ahmed e as circunstâncias políticas da Etiópia”, diz o analista.

Na ocasião, o primeiro-ministro foi celebrado por um acordo de paz que encerrou um conflito de duas décadas com a Eritreia. Só que aquela disputa era motivada, entre outras coisas, por uma questão territorial entre a região de Tigré e o país vizinho. Ainda assim, a frente foi escanteada na negociação. “Sempre foi provável que haveria problemas.”

Ao anunciar o Nobel da Paz deste ano —para os jornalistas Maria Ressa e Dmitri Muratov—, o comitê foi questionado por repórteres sobre Ahmed. Uma representante desconversou, mas fez críticas veladas ao premiê.

A opinião internacional mudou desde 2019. E, ao contrário da administração americana anterior, o governo de Joe Biden tem criticado o político etíope. É possível, segundo Davison, que os Estados Unidos imponham sanções a comandantes dos dois lados do conflito nas próximas semanas.

Só que, no meio-tempo, a situação pode se deteriorar rápido. Quase 2 milhões de pessoas já foram deslocadas pelo conflito e, segundo a ONU, 5 milhões precisam de ajuda humanitária. Centenas de milhares estão em condição próxima à da fome —nos anos 1980, a Etiópia era um dos símbolos da desnutrição no mundo e viveu um desastre que deixou cerca de 1,2 milhão de mortos.

Não há, por ora, indícios de que Ahmed queira desacelerar a crise. Pelo contrário. Recentemente, o premiê expulsou sete funcionários de ajuda humanitária da ONU, acusando-os de se alinhar com os insurgentes do Tigré. A TPLF, igualmente acusada de abusos no confronto, incluindo estupros, tampouco tem feito aberturas para alguma negociação de paz.

O caminho para a resolução do conflito ainda é incerto. Um dos grandes entraves, segundo Davison, é o território oeste de Tigré. Forças aliadas a Adis Abeba tomaram essa região, que a TPLF reivindica como sua.

“Esse é o maior risco de escalada”, afirma o analista. Em especial se o Sudão, vizinho deste território, também for tragado para o conflito.

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