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#Verificamos: É falso que neurocientista britânico publicou estudo mostrando que 80% da população é imune ao novo coronavírus

Agência Lupa
·4 minutos de leitura
É falso que neurocientista britânico publicou estudo mostrando que 80% da população é imune ao novo coronavírus - Foto: Reprodução
É falso que neurocientista britânico publicou estudo mostrando que 80% da população é imune ao novo coronavírus - Foto: Reprodução

por NATHÁLIA AFONSO

Circula pelas redes sociais que o neurocientista britânico Karl Friston publicou estudo que mostra que 80% da população é imune ao novo coronavírus. Friston teria afirmado ainda que políticas de isolamento social são baseadas em uma “ciência falha”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

É falso que neurocientista britânico publicou estudo mostrando que 80% da população é imune ao novo coronavírus - Foto: Reprodução
É falso que neurocientista britânico publicou estudo mostrando que 80% da população é imune ao novo coronavírus - Foto: Reprodução

“Um dos melhores estudos sobre o COVID-19 concluiu que a maioria das pessoas [80%] é imune ao vírus”
Legenda de imagem compartilhada no Facebook que, até às 19h do dia 24 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O neurocientista britânico Karl Friston não realizou estudo que mostra que 80% da população é imune ao novo coronavírus. Por e-mail, ele explicou que, na verdade, seu grupo de pesquisa desenvolveu um modelo de previsão epidemiológica para Covid-19. Esse modelo inclui, segundo Friston, uma “estimativa grosseira” de que 80% da população mundial “não terá contato com o vírus, não será infectada caso entre em contato e, caso se infecte, desenvolverá sintomas brandos e não transmitirá a doença”.

Friston coordena um grupo de pesquisas na University College de Londres que criou um modelo de dinâmica causal para fazer previsões sobre a dispersão da epidemia de Covid-19. Neste modelo, o grupo inclui o que conceituaram como “matéria escura epidemiológica”.

Em texto publicado em junho, ele explicou esse conceito: essa “matéria escura”, conceito emprestado da astronomia, seriam fatores sociais e epidemiológicos que não são observáveis. Enquanto outros modelos epidemiológicos consideram que 100% da população pode desenvolver a doença, Friston e seu grupo de pesquisa consideram que, por fatores desconhecidos, uma parcela significativa dos seres humanos é menos suscetível a contrair e a transmitir o vírus.

Por causa dessa “matéria escura epidemiológica”, o neurocientista sugere que a imunidade coletiva pode ser alcançada com uma porcentagem menor da população com anticorpos do que o suspeitado inicialmente. “A implicação dessa heterogeneidade é que nós precisamos apenas de 20% de soroprevalência para [atingir] imunidade de rebanho. Talvez seja essa a fonte para os 80% citados”, diz o cientista.

Em entrevista ao jornal The Guardian, Friston falou sobre o conceito de “matéria escura epidemiológica”, as previsões feitas pelo grupo até o momento e explicou porque acredita que a imunidade coletiva pode vir mais rápido do que o imaginado. Desde então, conteúdos distorcidos sobre a fala do pesquisador vem sendo compartilhados nas redes.

Até o momento, há muitas dúvidas na comunidade científica sobre a imunidade ao novo coronavírus. Pesquisas apontam que as pessoas que conseguiram se recuperar da Covid-19 adquirem imunidade ao patógeno. Ainda não se sabe o certo por quanto tempo ela permanece, nem quão imune as pessoas ficam – ao contrário do que se imagina, muitas vezes, ela pode ser apenas parcial. Nesta segunda-feira (24), um caso de reinfecção foi confirmado em Hong Kong.

Outras pesquisas mostram que existe a possibilidade de imunidade cruzada da Covid-19 com outros coronavírus. Quatro “parentes’ do SARS-Cov-2 são bastante comuns, e causam um tipo de gripe. No início de agosto, um artigo publicado na revista Science mostrou que pessoas que foram contaminadas por um desses vírus desenvolve células T capazes de reconhecer a nova doença. Contudo, ainda não se sabe o grau de imunidade que isso proporciona.

“Também que a política de ‘fechar tudo’ teria sido baseada em ciência falha, e as consequências danosas à sociedade serão sentidas por décadas”
Legenda de imagem compartilhada no Facebook que, até às 19h do dia 24 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Por e-mail, Friston explicou que, ao contrário do que a publicação sugere, é favorável a medidas de isolamento social. “Eu nunca afirmei que o lockdown era inútil. Na verdade, nosso trabalho nessa área sugere que lockdown e isolamento sociais são importantes – e interagem com a imunidade populacional e outros fatores de mitigação para determinar a disseminação do vírus”, disse o neurocientista.

Essa informação também foi verificada por Aos Fatos e Estadão Verifica.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés