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Estudo com 96 mil pacientes não vê benefícios da cloroquina contra a COVID-19

Fidel Forato

Muito se tem discutido sobre a eficácia ou não da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes contaminados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), inclusive tem se apostado alto no sucesso dos medicamentos contra a COVID-19. Agora, o primeiro estudo em larga escala, com mais de 90 mil participantes, demonstra que esse tratamento não traz benefícios, mas potencializa oz riscos de piora cardíaca durante a hospitalização.

Publicado nesta sexta-feira (22) pela renomada revista The Lancet, o estudo observou 96.032 pacientes internados em decorrência da infecção pelo novo coronavírus, entre os dias 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020. Com uma idade média de 53,8 anos e sendo 46,3% do grupo constituído por mulheres, os pacientes analisados são de 671 hospitais espalhados pelos seis continentes.

Segundo a equipe de cientistas e médicos globais, 14.888 pacientes receberam quatro tipos de tratamentos diferentes com a cloroquina e a hidroxicloroquina. Os resultados desse grupo (como melhora do quadro e alta hospitalar) foram comparados a um outro grupo com mais de 80 mil pacientes que não receberam os medicamentos. 

Pesquisa analisa pacientes da COVID-19 nos seis continentes e não encontra benefícios da cloroquina no tratamento (Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters)

Na análise, os pacientes tratados tanto com a cloroquina quanto com a hidroxicloroquina, associados ou não com antibióticos, tiveram uma taxa de mortalidade mais alta em relação ao grupo não medicado com essas drogas, além de um risco maior de arritmia ventricular. Ou seja, o tratamento está associado a piores resultados, mesmo após o controle de outros fatores de risco, como idade, condições de saúde pre-existentes e consumo de nicotina. 

Veredicto

"Este é o primeiro estudo em larga escala a encontrar evidências estatisticamente significantes de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina não traz benefícios a pacientes com COVID-19", afirmou um dos autores da pesquisa, Mandeep Mehra, que também é diretor do Brigham and Women's Hospital Center for Advanced Heart Desease, em Boston, nos Estados Unidos.

No entanto, os resultados não provam conclusivamente que as duas drogas são perigosas. Os autores — incluindo pesquisadores da Harvard Medical School, do Hospital Universitário de Zurique, da Universidade de Utah e da Surgisphere Corporation — destacam a possibilidade de outras variáveis, ainda desconhecidas, responderem pelos resultados. Eles não encontraram "nenhuma evidência" de que os medicamentos fossem úteis especificamente no combate ao coronavírus.

Os pesquisadores ainda enfatizam a necessidade de ensaios clínicos controlados, onde os contaminados pelo novo coronavírus são selecionados, de forma aleatória, para serem medicados ou não com cloroquina e hidroxicloroquina.

Recentemente, um artigo da New England Journal of Medicine não encontrou "nenhuma associação significativa" entre o uso da droga e as taxas de sobrevivência de pacientes com COVID-19, após comparar a evolução de cerca de 800 pacientes que tomaram hidroxicloroquina com cerca de 560 que não usaram o fármaco.

Polarização de medicamentos

Na busca por medicamentos e até mesmo vacinas contra a COVID-19, médicos e pesquisadores se queixam que a politização de drogas, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, dificulta a realização de pesquisas. Além disso, falas sobre eficácia dos medicamentos geram uma corrida para as farmácias e dificuldade de acesso para as pessoas que, de fato, faz uso, como no tratamento de lúpus e da artrite reumatoide.

Vale explicar que estudo publicado na revista The Lancet não examina se os medicamentos podem prevenir uma infecção pelo novo coronavírus. Também é bom ressaltar que a pesquisa somente analisou os riscos à saúde de pessoas que já estão doentes e foram medicadas. Além disso, os riscos cardíacos verificados na pesquisa já eram conhecidos efeitos colaterais das drogas. 


Fonte: Canaltech