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Estrelas se unem para tentar salvar cinemas históricos de Hollywood na pandemia

FERNANDA EZABELLA
·5 minuto de leitura

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - Veículos da imprensa congestionavam na semana passada a rua em frente a um dos cinemas mais simbólicos de Los Angeles, o Cinerama Dome, reconhecido de longe pela arquitetura esférica branca de 22 metros de altura. Mas a confusão não era para suas costumeiras estreias de tapete vermelho ou pela aguardada reabertura após um ano de fechamento devido à pandemia. Era para gravar seu obituário. Os proprietários das redes ArcLight e Pacific Theaters anunciaram na última segunda que a sala de 800 lugares não voltará a funcionar, assim como outras 300 telas espalhadas pela Califórnia. A notícia causou comoção na comunidade de cinéfilos, que havia tomado outro susto, ano passado, quando viu o centenário Egyptian Theater mudar de mãos. A nova notícia caiu como uma pisão de Godzilla na ensolarada Los Angeles, que vive momentos de relativo otimismo: os índices de vacinação estão altos -40% das pessoas já receberam a primeira dose-, contra baixos números de infecção, cerca de 500 por dia. Chegou, ainda, às vésperas da principal festa do ano de Hollywood: o Oscar é no próximo domingo. "Tenho tantas lembranças ótimas e orgulhosas dos cinemas ArcLight e Pacific. Mas não quero postar meus pensamentos no passado, não quero escrever um obituário. Meu primeiro pensamento é: o que pode ser feito para ajudar?", escreveu o diretor e roteirista Edgar Wright, que imediatamente foi respondido por colegas. "Precisamos fazer algo!", retrucou a atriz e diretora Olivia Wilde. "Nós devemos!", aderiu a cineasta Lulu Wang, de "A Despedida". Há quem acredite que os donos já tenham uma cartada na mão. Tamanha é a descrença com o fechamento de uma rede tão popular que a atriz Mindy Kaling escreveu, meio brincando, que deve ser tudo mentira. "Deve ser uma estratégia para causar pesar e então eles voltam, salvam o dia e nós os amamos, esquecendo que são uma corporação." A empresa anunciou a decisão em comunicado: "Apesar de um grande esforço que esgotou todas as possíveis opções, a empresa não tem um caminho viável a seguir". Fundado em 1963, o Cinerama tem uma tela curvada de 26 metros, com sistemas de exibição digital, 35mm e 70mm. Foi comprado em 2002 pela rede ArcLight, que construiu um multiplex de 14 salas no mesmo quarteirão e trouxe novidades que muitos imitaram depois, como consumo de álcool e cadeira numerada. O lobby do multiplex ficava cheio nos finais de semana pré-pandemia e era comum esbarrar em celebridades. Com uma arquitetura marcante e sala de última geração, o Cinerama, que fica no famoso Sunset Boulevard, foi palco de estreias importantes e muitas vezes usou sua cúpula externa para publicidade criativa, instalando um Homem-Aranha no topo ou orelhas verdes de Shrek. Fez também aparições em filmes, o mais recente "Era uma vez em... Hollywood", de Quentin Tarantino. Tarantino, que é dono do cinema New Beverly, teve seu nome lembrado entre os que poderiam salvar o Cinerama, mas nem sua própria sala conseguiu reabriu ainda, ao contrário de outras. O Laemmle Theatres, com oito cinemas dedicados a filmes independentes e eventuais blockbusters, rebriu em 9 de abril. A cidade liberou 50% de capacidade para as salas, mas as regras de distancimento reduzem o número para cerca 25%. "Assim fica difícil operar com lucro. Mas queremos cortar as perdas por ora, trabalhar para atrair o público de volta e mostrar aos distribuidores que há apoio para lançamentos nas salas, é viável", diz por telefone o dono Greg Laemmle, que ficou chocado com o fechamento do ArcLight. "Eles eram um modelo de empresa. E as locações são incríveis, duvido que fiquem fechadas por muito tempo." Los Angeles vai ficar sem outro cinema lendário por mais de um ano, o Egyptian Theater, palco da primeira estreia de Hollywood, "Robin Hood", filme de 1922 com Douglas Fairbanks. O Egyptian foi comprado pela Netflix no ano passado por uma quantia não revelada, estimada na casa das dezenas de milhões, após passar por perrengues financeiros no comando da American Cinematheque. O site está reformando o espaço e espera reabrir para seu aniversário de cem anos no final de 2022. A cinemateca é outra joia dos cinéfilos da cidade, responsável por seus melhores festivais e pela promoção de filmes internacionais e eventos com celebridades. Neste ano, entrevistou os principais indicados ao Oscar, num conteúdo gratuito que está online. Com o novo acordo, a Cinematheque vai seguir operando a sala nos finais de semana, enquanto a Netflix a usará nos dias restantes para estreias de seus filmes e seriados. "A manutenção é uma loucura semanal. Para um cinema histórico do tamanho do Egyptian, vem uma conta de luz altíssima. É preciso cuidar dos projetores, ligar as luzes, o ar condicionado, mas a Netflix cuida disso agora", diz Gwen Deglise, vice-diretora da cinemateca, uma francesa que entrou para a organização como voluntária nos anos 1990. A Cinematheque comprou o Egyptian em 1996 por um dólar com a responsabilidade de reformá-lo após ficar fechado por seis anos, o que a levou a um mega endividamento. Funcionários disseram que, se não fosse a Netflix, a cinemateca teria falido na pandemia. Por outro lado, historiadores temem que o espaço centenário fique nas mãos de uma megacorporação e perca sua independência. O Egyptian tem decoração externa egípcia, moda dos cinemas temáticos dos anos 1920, a exemplo do Chinese Theater, de 1927, localizado na mesma Hollywood Boulevard, a cinco minutos a pé pelas estrelas da Calçada da Fama. O Chinese reabriu há duas semanas.