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Estrangeiro tira mais de R$ 5 bi da Bolsa no mês que Previdência avança

JÚLIA MOURA
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 04.08.2011: Funcionários da Bovespa observam o painel de ações da Bolsa de Valores de São Paulo. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Julho foi um mês morno para a Bolsa brasileira, que, mesmo batendo recordes, teve leve alta de apenas 0,84%. A aprovação da reforma da Previdência, com ampla margem de votos, em primeiro turno na Câmara não foi o suficiente para manter o viés de alta e nem para reter os estrangeiros.

O período tem a maior retirada de capital do exterior desde outubro de 2018. O saldo é negativo em R$ 5,15 bilhões, segundo dados preliminares da B3. Em 2019, a saída é de R$ 9 bilhões.

A primeira semana de julho foi uma das melhores do ano, com alta de 3%. No período, a Bolsa foi de 100 mil a 104 mil pontos com a aprovação do texto-base da reforma da Previdência, que prevê uma economia de R$ 1 trilhão em dez anos, na comissão especial da Câmara. 

Na semana seguinte, mesmo com a aprovação da reforma em primeiro turno no plenário da casa, o índice iniciou sua trajetória de queda.

No dia da votação projeto, 10 de julho, a Bolsa bateu dois novos recordes. Durante ao pregão, o Ibovespa cravou nova máxima, em 106.650 pontos. No fechamento, o recorde histórico também foi renovado, a 105.817 pontos. 

"Quem está segurando o Ibovespa é o investidor doméstico e o institucional. Os estrangeiros estão se posicionando em ativos da Ásia, que são mais seguros. O gringo não vai tomar o risco de entrar na Bolsa agora. Ele pode perder essa primeira pernada, mas o ciclo estrangeiro é mais longo, de dois, três anos", afirma Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. 

Nas demais semanas de julho, com o recesso parlamentar, o índice passou a acompanhar mais de perto o cenário externo e acumulou quedas, terminando no patamar de 101 mil pontos. No saldo do mês, o Ibovespa registra alta de 0,84% em julho.

"É saudável para a Bolsa, que saiu dos 89 mil pontos para os 105 mil pontos em sete meses, ter uma pausa para a acomodação de preços", afirma Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável do BTG Pactual.

Zanlorenzi também destaca a guerra comercial entre Estados Unidos e China e a desaceleração da economia global. "O cenário lá fora está bem turbulento, o investidor no pé no freio e o estrangeiro está menos propenso a emergentes como um todo".

A expectativa era de que o investimento estrangeiro voltasse ao Brasil com o avanço da reforma da previdência, crucial para conter o défict fiscal. Agora, economistas preveem este retorno apenas em 2020, quando o trâmite da reforma estiver concluído. 

Em julho, as Bolsas americanas tiveram desempenho levemente acima do Ibovespa. O índice Dow Jones acumulou alta de 1%, S&P 500, de 1,3%. Já o índice de tecnologia Nasdaq acumulou alta de 2% no mês.

Na Europa, a Bolsa de Londres teve alta de 2,17%. Já Paris recuou 0,36% e Frankfurt, 1,7% em julho.

O dólar teve trajetória semelhante e depreciou 0,6% no mês. No melhor momento do real, em 18 de julho, a moeda americana foi a R$ 3,7290, menor patamar desde fevereiro. Desde então, o dólar ganhou força e voltou a R$ 3,82 nesta quarta, com alta de 0,71% em relação a véspera.

No cenário internacional, o dólar ganhou força nas duas últimas semanas com a expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos e consequente melhora da economia americana. Em julho, há alta de 2,6%.

Com o avanço da reforma da Previdência, o risco-país medido pelo CDS (Credit Defaut Swap), espécie de seguro contra calote, acumula queda de 15,5% no mês. O contrato de cinco anos foi de US$ 150 a US$ 125, menor patamar desde setembro de 2014, antes das eleições que reelegeram Dilma Rousseff.

A curva de juros também teve forte no período. O contrato futuro de juros para dezembro deste ano foi de 6,18% para 5,63%. 

O índice reflete a expectativa do mercado. Segundo o boletim Focus, a Selic deve terminar o ano 5,5% e permanecer neste patamar em 2020. 

Nesta quarta, o Copom (Comitê de Política Monetária) divulga a taxa básica de juros às 18h. A maioria dos economistas espera um corte de 0,25 ponto percentual na Selic. Já os grandes bancos apostam em um corte de 0,5 ponto percentual. 

Como um corte de juros já foi precificado pelo mercado financeiro, o Ibovespa não se anima com a possível redução da Selic. Nesta quarta, o índice recuou 1,09%, a 101.812 pontos. O giro financeiro foi de R$ 19,211 bilhões, acima da média diária para o ano. 

O Fed, banco central americano, por sua vez, já anunciou corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros dos Estados Unidos que, agora, passa a faixa de 2% a 2,25% ao ano. 

O anúncio já havia sido precificado pelo mercado, que, inclusive, cogitava um corte de 0,5 ponto percentual. No anúncio da decisão, o Fed indicou que novos cortes talvez não sejam necessários.

As Bolsas de Nova York, que já operavam em queda, aceleraram perdas. Dow Jones recuou 1,23%, S&P 500, 1,09% e Nasdaq, 1,23%.